terça-feira, 17 de dezembro de 2024

 

Elisa Ody - Foto Arquivo


 Hoje, 17 de dezembro é o aniversário da Elisa, minha filha. Que ela seja o que sempre tem sido – e a saúde não lhe falte. Mas vou me permitir recordar alguns 17 de dezembro na minha vida.

 

Corria 1967 e era sábado.

Dia 16 para 17 de dezembro.

À noite no C.E.R. Atlântico haveria a formatura do Ginásio do Mantovani – 1º grau, ensino fundamental hoje.

Eu já tinha lustrado meu Vulcabrás e o terninho dormia sobre a cama, a gravatinha, chic, com cabeça de boi metalizada esperava.

 

Tudo seria normal não fosse um singelo detalhe: eu ainda não sabia se tinha passado na “segunda época” de Matemática.

 

Não dava mais para suportar a ansiedade.

Atravessei a rua e fui até o Mantovani. “A professora ainda não entregou as notas”, disse-me uma servente.

O dia da formatura e só a servente e eu no colégio.

 

Não me contive mais e então saí correndo como Forrest Gamp até a casa da professora.

A Geni morava lá perto da Incasel.

Naqueles anos a Incasel (na rua do Querência) ficava do Mantovani como daqui a Getúlio Vargas. Era lããã... fora. Hoje parece tudo mais perto.

 

Corri como só um guri de 14 anos corre, ou corria, quando precisa ver uma nota, a última nota, a nota da vida, a nota da segunda época.

 

- Nãããoo... a Geni não tá... ela foi lá no colégio levar a nota d’um aluno que ficô em segunda época, disse-me, acho que foi seu pai que me falou. “O, o, o ....  senhor não sa-sa-sabe se o a-a-aaluuuuuuno passou?”, perguntei.

-       Ahhhhhhh... não sei meu filho... isso é só ela!’.

 

Minha Nossa Senhora de Fátima... então ela já sabia se eu tinha passado ou rodado, se eu me formaria... sabia se a minha vida acabaria ali mesmo, naquele sábado... rodado!?

 

Foi então que corri como nunca mesmo.

Incasel, Sete de Setembro, HC, mato da comissão, fiz a curva do portão do Mantovani num pé só e lá estava: na porta de vidro havia um papel... eu via de longe... sim, havia um papel branco e com um nome... fui indo, indo, indo e... lá estava: José Adelar Ody (aprovado). Salvo – eu estava salvo para a vida outra vez!

 

À noite, com o terninho me batendo nas canelas e a melena encaracolada cheirando à glostora, entrei no salão do CER Atlântico ladeado por duas colegas, rainhas, e nós três por dois membros da Banda Marcial.

Quieto, recebi meu canudo de papel – e o que me ficou foi também esta lembrança.

 

Fato raro, raríssimo – único -, porém, estava por me acontecer quatro anos depois, na minha formatura do CPOR (Centro de Preparação para Oficiais da Reserva) em Porto Alegre. Era dezembro. 17 de 1971.

 

A chuva transferiu a solenidade do Parque da Redenção para o salão de atos da UFRGS.

De madrugada já chovia como naquele ano nada parecido tinha havido. A formatura era às 9 horas no centro da cidade, e eu estava lá perto do campo do Grêmio. Na divisa da Azenha com o Menino Deus. Longe – muito longe da Reitoria da UFRGS.

 

Às 7 comecei a tentar um táxi. Pressenti que ia dar no que deu. Éramos eu, a madrinha de formatura, sua irmã e a dona da pensão e uma parente dela.

Não aparecia um táxi vazio.

 

Pegar ônibus nem pensar porque tinha de caminhar várias quadras, e como? – se não parava de chover e a mulherada de vestido longo e coisa e tal...!

 

Vrrrrrrrrrrr, vrrrrrrrrrrrr, todos os táxis já ocupados e eu na chuva e o tempo passando, correndo, voando. “Minha Mãe do Céu... e seu eu perder a formatura?”, me gritava o estômago e o fígado, o coração, o crânio, a alma e todas as vozes dentro de mim.

 

Não tinha celular naquele tempo, não havia telefone, ônibus só lá no fim, ou era o início da Azenha e era meio longe. Táxi? – como disse, todos, absoluta e rigorosamente todos ocupados. “Será que todo mundo tinha decidido ir de táxi naquele dia?”.

 

De repente passa por mim um automóvel de “saia larga”, tipo Ford Landau, um rabo de peixe preto. Quase me atropela e eu ali, fardado com a estrelinha de 2º tenente sobre os ombros, molhado como um cachorro guaipeca sem dono e sem casa. Um gauipeca daqueles azarados e pobres, malhado e molhado pela intempérie e má sorte.

 

O carrão preto parou uns 20 metros à frente e iniciou uma ré, e eu sinalizando para todos os táxis de Porto Alegre, ocupados.

 

O rabo de peixe preto parou do meu lado, abriram-lhe os vidros e quando vi, gelei. Quase desmaiei: ‘que estaixs a fazer aqui?’, perguntou a voz portuguesa de dentro do carrão.

 

Minha Nossa Senhora de Fátima e todas as outras Nossa Senhoras... era... era ele, era... não era sonho... era o coronel, o comandante do CPOR.

 

- Querexs perder a formatura moço! - gritou o comandante em tom de afirmação, de pergunta,  e de inquisição. E eu ali, duro de frio e de medo: “aluno 149... Ody... Infantaria do CPOR se apresentando senhor Comandante...!” falei, gaguegei, gritei, molhado agora como um pinto desenganado... como um recruta perdido.

 

- Encoxsta aí!, ordenou o comandante ao seu motorista. “Em quantox extão aluno?”, perguntou o coronel. “Sou eu... e aquelas ali... comandante”, e me virei apontando para o naco de mulheres rechonchudas, quatro mulheres de pensão, engachadas como se fossem uma só.

 

- Apanhe elasxxx e venham, disse o coronel, simplesmente o comandante do CPOR.

 

As quatro gordinhas (respeitosamente e sendo cavalheiro) correram com seus vestidos longos e saltos altos pelas poças, se acomodaram no banco de trás sei lá eu como. O comandante foi para perto do motorista, e eu, o aluno, o formando, o futuro oficial R2, o recruta, o 149, o ratão (como chamavam os alunos que tinham de fazer as refeições no quartel) fiquei na porta da frente do rabo de peixe do comandante do CPOR.  E lá fomos nós em direção ao centro de Porto Alegre, ao salão de atos da reitoria da UFRGS, sob chuva torrencial de acabar com todas as secas.

 

Eu tremia de frio e de calor. De medo e de nervosismo. Ninguém dizia nada. Ninguém piava. Eu rezava para que o comandante não me perguntasse nada, para que nem me olhasse... para que nenhuma daquelas mulheres gordinhas, gente de casa, se atrevesse a fazer o mínimo comentário.

 

E se uma delas pedisse se o comandante gostava de ver o Sílvio Santos ou a Hebe?

Ou se era do Grêmio do Inter?

Ou... se uma dela desandasse a comentar tipo “O Ody é da Infantaria – qual é a sua arma?” Ou... "ainda bem que um colega do Ody viu que ele estava aqui todo molhado”, ou – assim sem mais nem menos - “o senhor também vai se formar?” Meu pai. Meus dentes queriam morder se morder entre si. A boca ficou selada como um morto no caixão. O suor tomou conta dos pingos na testa e minhas orelhas ardiam. Parecia-me não sentir as pernas naqueles minutos - eternos. Quando insinuei me acalmar – lembrei da sogra do sujeito do carro que presenciou o acidente no início do filme “Deu a louca no mundo” que não parava de palpitar, ordenar e se tivesse de dar uma sacolada – dava.   

 

Que esquecessem que aquilo estivesse acontecendo. Que fechassem os olhos e contabilizassem tudo na pasta dos sonhos, dos equívocos, do impossível aquela fatia de realidade. Não. Aquilo não podia estar acontecendo.

 

Nunca vi uma reitoria, um salão de atos tão distante. Quanto mais o rabo de peixe preto andava mais longe me parecia a UFRGS. Se tivesse ido a pé chegaria antes – acreditava.

Quando íamos chegando, meu Deus do céu – o trânsito parando, monitorado por todos os policias de Porto Alegre e só passava o autão preto do coronel... comigo, a madrinha, sua irmã, a dona da pensão e a prima dela.

 

- Luvas de guardas mandavam que o rabo de peixe preto fosse passando, passando, passando; enquanto que para todos os demais... “não, não, não pode passar... não é permitido passar...”.

 

Os pingos da chuva e do suor mais nervoso que já verti me desciam por cima das calças e pelas pernas e me entravam até pelas meias. Sob o quepe de um verde oliva escurecido pela chuva e a umidade, um mar de suor me descia pelas têmporas.

A face era um vermelhão só e o carrão do comandante deslizava por entre barreiras e sinais que mandavam que avançasse.

 

Eu fechava os olhos e não queria nem que me vissem. 

Os joelhos me faltavam, os músculos das pernas queriam pular fora, eu tinha os braços,

 eu via, mas não os sentia. Por Deus aquilo não aconteceu!

 

O autão preto do comandante do CPOR mergulhou sob a marquise

 que dá direto para o saguão de entrada da reitoria da UFRGS.

 

Ali só entrava a diretoria, como diria o Mano!

Um batalhão de repórteres aguardava o comandante do CPOR.

 Eram gravadores, fotógrafos e TV. Todos queriam documentar a chegada do comandante. 

Guardas perfilados esperavam-no para apresentar armas.

Quando o carrão negro, o rabo de peixe finalmente parou, 

o batalhão da imprensa se concentrou na porta dele. 

“Ó pessoal... aí vem o senhor comandante do CPOR”. 

E então abre-se a porta e desço eu... isso mesmo... eu, molhado,

inundado de chuva, suor e de um nervosismo que até hoje me faz tremer 

sempre que me lembro do infausto.

 

Abri a porta de trás do Landau preto, tirei as quatro as mulheres, 

queridas amigas da pensão, que não entendiam o que se passava, e sumi. 

Consta que nunca mais fui visto nas imediações.

 

Era 17 de dezembro de 1971.

Onze anos depois, também num 17 de dezembro, nascia Elisa, 

minha filha, que hoje está de aniversário, a quem  reforço meu eterno amor.

E hoje, com chuva ou sem chuva, que dê tudo certo com ela... 

e comigo. Ela tenha um ótimo dia rodeada por sua família ed amigos  que a amam.

 

O Internacional estava diante do Barcelona.

O melhor jogador do time, capitão e símbolo dos colorados

 – Fernandão se lesiona e precisa sair.

Entra Adriano – o “Gabiru”.

Era uma troca quase que ficcional.

Gabiru faz o gol.

O inter vence o todo poderoso.

O Inter é campeão mundial de clubes.

E também era um 17 de dezembro.

 

Hoje é dia de São Lázaro, aquele que tinha por irmãs Marta e Maria de Bethânia, 

aquele que Jesus ressuscitou. Santo protetor dos enfermos, 

desamparados e animais doentes.

Lázaro também nasceu num 17 de dezembro.

Em 1936, nasceu o papa Francisco.

Era 17 de dezembro.

Em 1989 Fernando Collor vence Lula no 2º turno das eleições.

Era 17 de dezembro.

Sobre este último, perdi.

Mas 35 anos depois, observando o panorama,

ainda bem àquele resultado.

Esses 17 de dezembro com suas surpresas alegres, 

emotivas, apavorantes 

ou simplesmernte amorosas.

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 13 de outubro de 2024

Para não ignorar os pedidos de Fátima

  

Em meio à lama, Nossa Senhora reza pela limpeza da humanidade
.                                                          Crédito: Santuário de Fátima

 .                                                       

É domingo. Estou saindo de casa perto do Santuário. Incrivelmente, não chove depois de uma semana muito chuvosa e de previsões que falavam em mais chuva neste domingo. Céu limpo. azul. sol. É quase um milagre. Ganho a rua, dobro à esquerda que leva ao Santuário.

-  Tá pom assim. Tá pom. Seguuuura!

- Vem, vem... pode vir mais um poquinho. Isto, aí tá pom.

São Fuscas azuis, brancos e verdes, Brasílias amarelas, vermelhas e marrons, Gols, Corsas, uma Belina e Unos que vão procurando um lugar. Os motoristas são homens queimados do sol, de chapéu, calça frisada, de "bodegas" de botão, bolsos fundos quase até o joelho, com largas carteiras enfiadas lá dentro, camisas de mangas arregaçadas com o bolsinho no peito cheio de documentos, canhotos da Mega-Sena e a da Loteria Federal. Na cintura carregam grossos chaveiros, com canivete e um deles com corta-unhas daqueles largos. Do Grêmio. Nos bolsos traseiros aparece um pedaço de um lenço branco e um pente azul.  Alguns de sapatos de domingo, outros de sandálias. As mulheres, precavidas, que vão se desfazendo das blusas pesadas e coloridas. Das sombrinhas. Brigam com o fecho de metal que trancou numa sacola listrada, onde se vê uma cuca, bolachas, uma lata de leite e uma mamadeira. Paninhos, em caso de vômito. Adolescentes que não param de sair do fundo dos carros com os olhos esbugalhados. Impressionados. Estão na cidade grande! Num deles o homem que alisa seu cabelo com um pente de plástico briga com a porta do carro já fechado, porque a chave gira, mas não destranca. “E agora”, diz a mulher, o “nene” não pode ficá sem a mamadera. E também pega o bico dele que tá ali na gavetinha. Também tem um paninho. Precisamo cobri ele – o sol vai sair e hoje ainda vai esquentá bastante até de noite”. O homem começa a puxar a maçaneta, dá um chute na porta que desalinha seu penteado, mas a porta destranca. São carros com a ‘saia’ embarrada que saíram do interior de Severiano de Almeida, Carlos Gomes, São Valentim, Três Arroios, Viadutos, Mariano Moro, Campinas do Sul, Itatiba, Faxinalzinho, Benjamin Constant do Sul... Da linha São Roque. Da Escola Branca. Do bairro Pezzin, do KM-14, do Rio Tigre, Sede Dourado, da Linha Poço Grande, da Linha Pinga Alta e do Coan. De Santa Catarina e do Paraná. Já se ouve o som pelo alto-falante.

- A procissão nem saiu ainda lá da catedral e aqui no santuário já são milhares os romeiros...

Entro na Sete. Os táxis do ponto em frente ao Master foram colocados alguns metros à frente.  Para facilitar o fluxo de transeuntes.

-       Que horas vocês saíram, então, hoje.

- Nóis tiremo o leite das vaca, tratemo a criação... mais o menos 6 e meia nóis saímo! Mas tá boa a estrada. O prefeito tá trabalhando bem este ano. Eu pênso que com tánta chuva" comentavam entre si agricultores honrados que tem como orgulho suas famílias e como glória o suor dos seus rostos. Entre eles ainda prevalece a relação humana civilizada. Ninguém pega o que não é seu. Se acham alguma coisa de valor, procuram o dono. Avizinham-se na dor e na alegria. Socorrem-se nas secas e nas cheias. Presenteiam-se com melancias, uvas, figos e laranjas do céu. Quando abatem uma rês ou um suíno, mandam cinco, seis quilos de carne em troca pela que receberam há dois meses. Quando a pescaria rende – um piá vai avisar o vizinho pra aparecerem todos à noite porque terá polenta e peixe frito, vinho, sagu e creme. É, ou era, uma vida onde o celular ainda não chegou.   

O guarda municipal apita e faz sinal mandando que os carros parem para mais um grupo de fiéis atravessarem as duas vias da Sete pela faixa de segurança até o portão do Santuário. Vou junto. Meninas colam o emblema simbolizando a 73ª Romaria de Fátima na roupa,na altura do peito dos que chegam. Não me viram, porque era tanta gente, e segui ‘sem identificação’ - pela reta que leva à esplanada.

“Pedimos às pessoas que não deixem a carteira à vista porque no meio da multidão de fiéis que vamos ter hoje aqui, sempre pode ter alguém com intenções que não são as melhores. Cuidem das chaves, dos documentos, das carteiras e das crianças, principalmente. Quem perder alguma coisa, venha aqui na frente que anunciaremos. Estamos todos juntos, unidos em comunhão, procissão, romaria e intenção nesta grandiosa festa de Mãe.”

- Tec, tec, tec... senhor romeiro... uma esmolinha po pobre... uma esmolinha senhor romeiro...

“A procissão começa a se deslocar lá no centro da cidade. Vamos cantar: Muito obrigado, Mãe,/Mãe do Menino Deus,/nascido em Belém/há dois mil anos!”

De repente alguém pergunta: “aonde será que vendem a ficha pro churasco!’.

- Não por aí... a grama tá toda molhada. Olha o baaarro – pai!

- Será que lá também tem pom, cerveja, refrigente e cuca? Olinda, ô Olinda Santa Mãe, parece que tá surda: “quandas cuca tu troxe!?”

“O povo em romaria, de carro ou a pé,/ vem te pedir, Ó Maria:/ ‘Aumenta a nossa fé!’ E atenção romeiros: A coordenação da romaria avisa que apenas os objetos religiosos que são vendidos dentro do Santuário são autorizados pelos organizadores. O que é vendido fora do Santuário não é da nossa responsabilidade e não ajuda a igreja... Aqui em frente ao altar externo, à direita tem um local onde podem ser adquiridos todos os tipos de lembrancinhas da Nossa Mãe. Este ano tem até cevador para chimarrão, e o que é mais bonito, com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. E custa só dez reais. Podem comprar dois - uma para o vizinho ou até mais, para o nono, os irmãos que foram morar em Santa Catarina ou no Paraná. É um lindo presente e abençoado com a imagem da Nossa Mãe Querida. Uma lembrança da 73ª romaria de Fátima pra vida toda. Ali também encontrarão muitas outras sugestões de lembranças.

- Mãe, ô manhe....

- O que Jonhatann.

- O que que é 73ª.

- É.... é.... presta atenção no que o padre tá falando. Aqui não é hora de fazê pergunta. “Santa Maria, mãe de Deus? Rogai por nós/Agora e na hora da nossa..”, vamos Jonhatann, reza, reza, ô infeliz.

- Olha a medalhinha da Santinha. Olha a fitinha... cinco realzinho. “Nics – non, non, o padre disse que é pra comprar só lá dentro. Aquelas é que valem – são abençoadas.

De repente uma garotinha de 9 ou 10 anos, sei lá, me gruda um emblema da festa de Fátima no lado esquerdo do peito. Acho bonito e até ajeito melhor porque na pressa ficou meio torto. Agora sim, me sinto carimbado, autorizado para estar na grande romaria.

“Agora, a procissão já caminha duas/três quadras da catedral. Nesta segunda dezena do terço, vamos... Pai Nosso que Estais no Céu...”. Quem está aqui já no largo do Santuário, reze, responda, acompanhe a prece – não precisa esperar a imagem de Nossa Mãe Querida chegar. Vamos todos juntos: “Ave Maria cheia de Graças/O senhor é...”

Junto à imagem de Nossa Senhora de Fátima, toda engalanada com lindíssimas rosas e flores, o chão não arde como há três anos. As chuvaradas da semana amainaram o calorão. As velas derretem e se acendem uma atrás da outra queimando sobre a grama embarrada. Bouquês são depositados. Fitinhas amarradas. Terços desfiados. Gente de joelhos engolindo rezas e cânticos. Um homem fita o infinito por trás dos antigos eucaliptos lá pra baixo donde se dá a fronteira do terreno do Seminário com a URI. Todos rezam ou balbuciam quase como no automático. Um abre com ...‘Pai Nosso que Estais no Céu’ e o outro ao lado já vai no... ‘O Pão nosso de cada dia...’.

No altar os padres animadores não param de se agitar. Microfones são testados. Violão, guitarras, violino, órgão, um pequeno coro, botões da mesa de som... “baixa, baixa... levanta, levanta um ponto... Aí, aí tá bom...Nossa Senhora, Mãe dos peregrinos,/vem conosco caminhar!/:Eis aqui o teu povo, Maria de Nazaré!

Encostados num Gol sujo de barro – adolescentes de calça de Jeans com a barra arregaçada até as canelas acima dos grossos tênis brancos, acendem cigarros alheios à concentração das preces  e falam da matiné dançante marcada para o fim do mês no Tamanduá. Avanço até onde dá pelo asfalto, mas tenho que enveredar pela grama barrenta que nem a serragem resolve. Resolvo ver dentro da igreja do Santuário.

Todos os bancos estão tomados, a maioria – pessoas de idade com crianças que gesticulam, olham para os lados, choram de fome ou de sede ou por mal acomodadas em meio à multidão, ao ambiente tão inusitado.. Nas imagens espalhadas pela igreja, grupamentos de pessoas que não param de rezar. Pais se abaixam para que os filhos de colo toquem com as mãozinhas numa réplica da imagem daquela que vem a ombros pela Sete. Os adultos não saem sem também tocar a Santa. Flores, flores e  mais flores depositadas. Outros escolhem lembrancinhas em fitas coloridas e devidamente abençoadas. Saio da igreja e vou para os fundos do seminário. Mais gente. Filas num corredor. Alguém pergunta pelo banheiro!

- Senhor, senhor – quer confessar? Entre naquela fila ali e segue pelo corredor da reconciliação...

- Obrigado.

Retorno, atravesso a igreja, saio com pressa, mas agora sim, muita gente. Volto até o pórtico. A aglomeração de pessoas aumentou muito. O trânsito está fechado. Na frente do antigo Daer, área que trocou de dono, vem avançando a procissão. São cabeças, cabeças e mais cabeças.

“Em procissão, em romaria,/romeiro ruma para a casa de Maria./ Em procissão, feliz da vida,/ romeiro vem buscar a paz da Mãe querida!” – cantam e rezam.

- Para trás, para trás, por favor – vamos deixar a procissão passar, gesticulam alguns organizadores. Policiais militares também ajudam. Um câmera de uma TV sobe no pórtico. Quer a melhor imagem. A gurizada olha o cara da TV. “Vai caí, vai caí”, balbucia um deles.

A procissão troca a Sete pela reta de acesso à esplanada, fazendo a curva em boa velocidade. Ali muitos que estavam à espera juntam-se à multidão. E vão passando ignorando os desafortunados e os deficientes físicos que sentados rogam por uma moeda. 

- Quinze mil. Tem umas 15 mil – não mais que isso, comenta um brigadiano, sem saber que a procissão ainda se arrasta lá pelas Três Torres...

- Olha – daqui da entrada até lá na frente tem quase 120 metros. De largura são uns 8, contando os que caminham pela grama. Só aí dá 4.800 metros quadrados. Tu multiplica isso por nove, mas vamo deixa por oito pessoa em cada metro quadrado... só aí tem quase 40 mil. Má não leva a sério porque rodei três ano em Matemática, ajunta.

- Fora os que tão debaixo dos antigos eucaliptos, lembra rapidamente um jovem – daqueles curiosos e atentos sempre prontos a "ajudar" numa conversa.

- É... tem uns 40 mil... Quem teve aqui no ano passado... Hoje tem mais, muito mais.

"Atenção aos proprietários do Corolla cinza, placas JAO 1952, da SUV Toyotta branca placas GEE 1970 e ainda da Tracker também branca de placas EAO 0073. Favor retirar e, logo, estão estacionados aqui na frente onde será depositada a imagem de Nossa Senhora. E continuemos a cantar. Vamos animar povo de Deus: Quero te dar a paz/do meu Senhor/ com muito amor... Quero... Isso, agitem os braços".

- E pensa no que choveu e parô logo hoje! Isso é milagre de Nossa Senhora, acrescenta o curioso "ajudante de conversas", que no fim das contas me parece o personagem erechinense, Bota. Sempre palpitando onde não é chamado, mas ao ver uma deixa ele abre a boca.

A imagem da Santa vem sendo carregada nos ombros de quatro homens. Ela parece deslizar pelo alto das cabeças através dos pés daqueles encarregados e orgulhosos homens. Balança e balança de um lado para outro, parece que vai cair, mas mesmo que despencasse, nunca chegaria ao chão. São milhares os romeiros que a circundam e estão de olho Nela.

- Viva Nossa Senhora de Fátima, grita uma mulher com seios e barriga salientes, desajeitada, mas cheia de fé - concentrada na imagem e em lágrimas no rosto – postada atrás de mim ela recebe o eco de alguns. Percebe-se de cara que é devota, muito devota, de Nossa Senhora de Fátima.

“Ensina o teu povo a rezar, Maria, mãe de Jesus

Que um dia o teu povo desperta e na certa vai ver a luz

Que um dia o teu povo se anima e

caminha com teu Jesus

Maria de Jesus Cristo, Maria de Deus,

Maria mulher

Ensina teu povo o teu jeito de ser o que

Deus quiser

Ensina...”

Alguns se viram meio sem jeito, cheios daquela vergonha dos tímidos que acreditam saber tudo e não precisam manifestar sua fé com atos, rezas ou gritos, que acreditam que Nossa Senhora ouve seus corações, reconhecem sua fé, acolhe suas orações - sem dizer uma palavra. Sem mexer sequer os lábios como se estivessem no Centro Cultural 25 de Julho ou nas cadeiras de um determinado estádio de futebol.

Agora sim - um coordenador da romaria grita ao microfone: “Viiiva Nossa Senhora!” E a multidão no curso normal sobre o asfalto da esplanada, ou sobre a grama lamacenta responde, a pulmões de Tinga ou de Tomasi: Viiiivvvvvvva". E o padre prossegue: “A imagem da Nossa Mãe Querida, sim ela, a Mãe de Jesus Cristo, a Mãe do Santuário que é dela, a mãe dos devotos, a Mãe dos afortunados e dos esquecidos - é Ela, a Mãe de Todos Nós. Viiiiiivvvvvva Nosssa Senhora de Fátima!” 

- Um carro de som com o apoio da Brigada Militar vai abrindo espaço por entre o grupo que se espreme no portão para ver a imagem da Santa de pertinho. De pertinho porque o sentimento é de que está viva, ali, respirando e olhando para os lados suas criancinhas de um dia a 100 anos.

- Lá no altar – o animador também invoca e grita: “Repetindo. Já estamos vendo! Sim. Lá vem chegando Nossa Senhora. A Nossa Mãe já está entrando no Santuário neste momento, é Ela de novo em Sua Casa – o som se descontrola, há uma microfonia rapidamente controlada, e logo volta. “Nossa Senhora está entrando na Sua Casa... Vamos saudá-la. Levantem suas flores que trouxeram de perto ou de longe. Abanem seus lenços brancos”, grita o animador e logo milhares de lenços brancos se agitam num espetáculo, como direi, espetacular. Até quem acreditava que este ano o time da cidade subiria para a Série "B", se emociona, renova sua fé pra 25 - quase chora, chora; e agita seus braços porque nem conhece mais lenço. É emocionante até para quem é ateu.

“Nossa Senhora, Mãe dos peregrinos,/vem conosco caminhar!/: eis aqui o teu povo...”.

Lágrimas se confundem com orações. Olhos procuram o melhor ângulo. A multidão caminha até onde dá e depois se esparrama por sob as pequenas árvores, pisando o barro que se esconde sob o gramado fofo, fundo e molhado. São 10 horas e já há quem caminhe apressado no sentido contrário, com dois espetos à mão, abrindo caminho por quem acabara de chegar. Lá no canto, em cima de pelegos, uma família se acomoda. A mãe dá de mamar ao bebê. A imagem de Fátima é depositada no altar. É o ápice da Novena, da Romaria, do maior evento religioso que Erechim conhece no seu território há 73 anos. 

“Com minha Mãe estarei... na Santa Casa um dia... ao lado de Maria...”

O bispo é anunciado. “Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo – Amém!” Inicia a missa. Mais acima dele – fotógrafos e policiais com binóculos tem a visão do largo de Fátima. Conferem sensação de segurança. Pobres e ricos, brancos e pessoas de cor, gentes da cidade e da colônia, batedores de carteira, pagadores de promessa, festeiros, idosos, criancinhas, indigentes, freiras, vendedores de chapéu, brigadianos carregando mulher desmaiada, casais de namorados se enamorando  – tudo se agita, e se mexe, e se ajeita, e se acomoda do jeito que pode, que precisa ou que dá.

Me reencosto numa árvore para ouvir o bispo:

“Queridos romeiros de Nossa Querida Mãe – Nossa Senhora de Fátima. Hoje, depois de uma semana de muita chuva, mas que era necessária, a Nossa Mãe nos presenteia com esse dia... E nós, seus devotos, não a decepcionamos e que estamos em grande número, eu diria – uma multidão que há muito não se via. Isso nos revigora. É presença física, é a presença de coração – neste ano que a Tomaria tem como lema central a importância da Oração. Sim... a oração que tanto Fátima pediu aos pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta...”

 

Atrás de mim, alheios à homilia, dois coxixam:

- E o Polis, hein, credo. De lavada. No centro, nos bairro, nas vila... Acho que até a Nossa Senhora de Fátima se votasse ia votá nele. E ainda as oposição se bifurcaram. Uma pra cada lado das direita, diziam. Se enforcaram nas direita. Queriam sentar em dois onde só cabe um! Fizeram o que as oposição faziam pro Zanella nos anos 1970, 1980 e 2000. Atiraram a eleição no colo do Polis que, cá pra nóis, é um fenômeno. Tu não acha? Enquanto as oposição ficam se reunindo, e se reunindo nas poltrona dos escritório – o Polis tá lá nos bairro comendo mandolate feito por lá mesmo e chupando picolé de framboesa também de produção caseira. Sai de lá prometendo que um dia ainda vai relevá o mistério da Santíssima Trindade e é uma choradera só: chora o pessoal do bairro, chora criança e veio, chora o Polis – mais que todo mundo junto. O Polis/político 2000 e 2024 é a versão atualizada do melhor Ximit/1996. Ele sabia o que fazer e como fazer para conquistar a simpatia das pessoa. Em 1996 o Ximit tomô chimarrão com uma senhora de idade, quase sem dente - o que não é problema e deficiência -, numa xícara branca sem alça. Ela táva encantada. Quase babava pelo Ximitão, dividindo com ela aquele mate. E depois dau um beijão nela que a senhorinha nunca mais esqueceu. Isso é saber os caminho, pelo menos um deles, pra encher as urna. Me alembro: O Ximitão apertava mão suja de calceteiro. O Zanella faiz ou fazia isso? O Dexheimer faiz ou fazia isso? O Renan e o Ernani fazem isso? O Anacleto faz? Pode até fazer, mas não emociona a outra pessoa. Faz ao seu jeito e que é menos. O Anax faiz? O Polis pode não fazer bem isso ou bem assim, talvez faça até mais - mas ele não se constrange com o povo, povo - eu digo todo tipo de povo. Ele não agradece se leh oferecem o que estão comendo e bebendo lá aonde quase não mora ninguém. E isso o povo não esquece. Só adora. Se orgulha. Por quê. Por que ele fala com essas pessoa e na língua delas. Dá atenção. Deixa eles falá. Se solidariza. Promete resolvê o problema delas seja qual for. Se for preciso - chora antes que elas, penalizado. Depois saí de lá e vai se encontrá côs graúdo dono dos PIB da cidade. E olha – faz isso no mandato todo. É função de prefeito - não. Não é. Mas de candidato, ah, isso é. E como! Isso sim é que ser político – e não uns que caem de para-queda a cada quatro ano. Pra vereador então nem se fala. Tem uns que sem chance entra no partido do Polis e nem tão aí se se elege ou não. Tão é de olho é numa boquinha. Pra eles tanto faz o setor, se é na saúde melhor né, dá mais visibilidade...

“Maria, Ó Mãe Querida, saúde, saúde, saúde e dignidade para todos. Para os que precisam e para os que trabalham na saúde. Olhai pelo doentes, pelos cuidadores, pelos apoiadores, pelos que rezam por um mundo com mais fé e, rezemos até pelos que dela, da saúde como um todo, sofridos ou tão beneficiados são.” 

E a enfermera então? – prosseguem os dois em coxixo, fazendo número na Casa da Mãe. Tu viu a votação dela? Falam em 4 mil... e isso que os outros treis candidato bateram a campanha intera na saúde... alguma coisa tem. Será que os da oposição tavam tão mal informado? Não vivem falando por aí que o Santa tá um problema e, ela, a delegada, não, delegada não - a secretária faz uma votação dessas! A maior de um vereador em 100 anos de Erechim. Não entendi - afinal tá ruim ou tá estourando da boca do balão, a saúde! – e os cara só ficam batendo nela, na saúde, porque esse é um assunto que todos entendem fácil. Aliás, sempre foi assim. Com Santa ou sem Santa.

- Bah.. e lá em Aratiba então, Nossa Senhora!. Já tavam fazendo festa quando virou nos acréscimos. De novo me lembrei do futebol de campo e do Atlântico que ganhou do Fortaleza no Calderão faltando trêis segundo. Tu contá assim, nem é de acreditá. Mas é o futebol, digo, o futsal. Em alguns caso é o futebol de campo também. O Real Madrid não virou um jogo contra o Manchester City, fazendo dois gols depois dos acréscimos? Também vale. Olha só o que andô acontecendo por aqui... por perto! Jogo ganho e... tum! Caxa. Ninguém viu, quase nem acreditaram, mas gol. Tem até uns mal intecionado falando que o nosso time da cidade é o Tsunoda, aquele da Fórmula 1. Corre, corre todos os ano, mas nunca tá no pódium. Nunca ganha, má tamém não cai. Em 25 de novo. Quem sabe um milagre da Nossa Senhora faz o, o, o... Tsunoda ganhá, subi nos pódium. Crédo! E acaba com essa sina, porque o dono da equipe e os mecânico, barbaridade - trabaiam que nem os otro! Tem condição de tá até nas Ferrari ou nas MacLaren.

Não adianta: no futebol e na política tem cada jogo, cada lance, cada resultado que é de caí os butiá do bolso, as dentadura da boca. Acho que tamo é rezando pouco!

“Ó Maria, Mãe do silêncio da escuta e da oração. Façamos como a Nossa Mãe, não permitamos espaço a especulações, não falemos o que não deve ser dito. Sigamos o exemplo da Mãe Querida: Silêncio. Oração. Sempre com o rosário à mão. Sejamos obedientes ao pedido de Nossa Mãe. Rezemos: “Ave-Maria cheia de graça/O Senhor é convosco...”

Eu queria me virar e olhar, mas seria demais. E continuavam os dois: bah, me lembrei de um padre gremista lá do bairro Atlântico. Naquele domingo o Inter ia jogar com o Vasco. Não é que, assim contam né, que ele chegou na parte da missa onde fala em paz, ele disse: “A paz esteja com o Vasco! – ao invés de ‘convosco’. Eu não acreditei, mas contaram uma vez, isso na frente do padre, eu tava lá e ele dava risada.

Tu viu essa? Não é que é a 73ª romaria e tô com 72, eu bem burro pensei que ia alcançar ela, mas ano que vem quando chegar nos 73 ela vai pros 74. E o que tu achô da eleição da Câmera? Será que o Polis vai deixar quem se elegeu na Câmera ou vai puxa de novo uns pro secretariado? 

- Mas que que vô te dizê....

- E se ele puxar de novo o de Obras... que que tu acha?

“Ó Mãe - Tende piedade, tende piedade, tende piedade de nós, Ó Senhor, Ó Maria Nossa Mãe / Vosso povo é Santo, mas, aaahhhgggrrrr, cof, cof... desculpem a tosse - Vosso povo é Santo, mas também é pecador. Precisamos aumentar o sacramento da confissão. Até nós padres nos confessamos... Vamos todos juntos e peçamos confiantes a uma só voz: “Mãe – Lúcia, Francisco e Jacinta, rogai por nós!

Francisco e Jacinta  tornaram-se Santos pelo Papa Francisco. Ambos faleceram ainda crianças: Francisco aos 10 anos e Jacinta aos 9. Lúcia faleceu em 2005 aos 97 anos e é beata. Está a um milagre de ser canonizada. Rezemos por esse milagre e que ela se junte a Jacinta e Francisco na Santidade, explicou e pediu o padre.

- Deus que me perdoe, só vendo; má já tão falando que o Polis pode ficá só meio mandato e ir pra estadual com o Paparico a federal. Aí já acho que é coisa de quem tomou um tufo nas eleição. O que tu acha...? Hein, hein!

Bah cara – eu não, só sei que Polis e Paparico foram adversários, mas em política, o que não tem é santo.

“Céus e terra proclamam: Santo, Santo, Santo é o Senhor!/ Glórias, hosana e louvor.”

- Oi, senhor romeiro... uma esmolinha pra quem não pode caminhá. 

- Escuta aqui, tu já rezou ao menos uma Ave-Maria? É só prefeito, secretariado, vereador, saúde, Atlântico, Tsunoda... Para de encher o saco e reza alguma coisa - quem sabe, primeiro pra ti mesmo para não falar mais essas asneiras que tu vem me assoprar no ouvido. E apaga esse cigarro. Tu devia ir de joelho daqui até a imagem da Santa que o vereador Luiz Onhate deu e ninguém sabe, muito menos, reconhecem. Deixa o Polis governar, deixa o Atlântico em paz com as suas taças, os vereadores com os seus votos e reza para o secretariado que vier que faça um bom trabalho. Tu até parece aquele jornalista, um tal de Ody, que quando pegava pesado e fazia crítica nos anos 1990 e 2000 -, era por que não gostava de Erechim, queria o mal de Erechim, queria que tudo desse errado, como alguns achavam e diziam. Agora tá aí ó - se afundou, se deu mal, se enterrou. E a cidade tá que é um brinco. Vai que é um pix. Passa na 153 ou na 135 - é obra, obra e obra. Tá certo que derrubaram mato e mais mato - mas é o preço da prosperidade ou não. Bah - Deus que me perdoe, lembrei agora das enchentes. Esse negócio de prosperidade  tem seu custo. Mas olha bem – olha a votação. É a vontade popular, não adianta, e tudo tudo – limpinho como o manto branco da Nossa Senhora.  

“Maezinha do céu/Eu não sei rezar/Eu só sei dizer/Quero te amar/Azul é seu manto/Branco é seu véu/Eu quero te ver lá no céu/Maezinha do céu/Mãe do puro amor? Jesus é teu filho/Eu também o sou...” continuemos queridos romeiros. Nossa Mãe de Fátima quer ouvi-los”.

Saí dali e voltei para o interior da igreja. Dezenas de ‘ministros’ da igreja foram buscar a Eucaristia. Eram 35 mil hóstias. Me espremi o que deu – mas não consegui comungar. E se faltar hóstia!

“Quem não comungou, pode dirigir-se depois para o interior do santuário...” anunciava um padre.

E mais: "ainda temos fichas para churrasco que os churrasqueiros de Severiano preparam mais uma vez, e tem frangos, cucas, bolachas, pastéis, bolos. Tudo Aqui à minha esquerda. Também contamos com a valorosa Brigada Militar, uma tenda do HC, da Unimed... Quem precisar de banheiros, pode se dirigir pelo corredor ao lado da igreja, lá nos fundos e, por favor, mantenham o lugar limpo para que todos possam usá-lo dignamente. 

Era quase meio dia. Eu não aguentava mais aquele cheirinho de churrasco de igreja. Ele é diferente. Ele é insuportavelmente atraente. Assado com lenha - e espetado em espeto de madeira. Sozinho, fui almoçar em casa, segurando a saliva para não lambuzar os beiços enquanto passava pelas famílias que vieram dos cafundós da região para a romaria e agora repartiam o pão caseiro, a cuca caseira, a bacia de tomate com cebola e aquela carne que era quase um pecado cortar, ou talvez fosse, um prêmio a preencher o regaço de quem não medira esforços para àquela hora.  

O padre Sala (José Carlos), grande arquiteto da romaria deste ano estava por todos os lados.

“Olha que lindo Povo de Deus” (quase que se sai com "Filhos da Mãe", mas logo percebeu, ou é coisa da minha cabeça. Se se enganasse poderia seguir com um ‘Filhos da Mãe Maria..’ E prosseguiu: “Tivemos uma semana de muita chuva - muita chuva, mas a devoção à Nossa Mãe Querida é maior. Eis aqui teu povo, teus filhos, Ó Mãe. E para saudá-la rezemos:

Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, Vida, doçura e esperança nossa, salve. A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois Advogada, nossa, esses Vossos olhos misericordiosos a nós volvei: e depois deste desterro nos mostrai Jesus bendito Fruto do Vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus.

Para que sejamos dignos das promessas de Deus.

Amém.”

Parte inferior do formulário

À tarde voltei para benção da saúde. De novo a multidão em pé, atenta, cheia de fé. A benção da saúde é um dos pontos altos da romaria. Se a fé cura – muita gente vai ficar bem pelo que vi. Logo em seguida, o último passeio da imagem de Fátima por entre a multidão que arrancou as flores, enquanto   pequenos ramos de cipreste eram disputados mais do que algumas secretarias do governo Polis serão. Fitas eram recortadas em pedacinhos para quem quisesse levar consigo de lembrança. Sob as árvores, homens bebiam e jogavam. Um deles tinha dois garrafões de vinho aos pés e tentava um terceiro. Bebês dormiam indiferentes e nunca saberão que um dia estiveram ali. Fiz o sinal da cruz, beijei minha medalhinha que comprei de manhã e decidi ir embora. Faltam 5 para as 4.

“Logo mais às 18 horas teremos uma nova missa aqui no interior do Santuário. Que todos possam retornar para suas casas, levando no coração, as graças de Nossa Senhora de Fátima e vamos cantar para nos despedir dela nesta 73ª Romaria:

“Com minha mãe estarei/Na Santa Glória um dia/Ao lado de Maria/No céu triunfarei/ No céu, no céu/Com minha mãe estarei/No céu, no céu, com minha mãe estarei/... /Com minha mãe estarei/E sempre neste exílio/De seu piedoso auxílio/Com fé me valerei...”. Viva Nossa Senhora de Fátima. Viva os romeiros. Viva o nosso bispo. Viva a Santa Igreja Católica. Viva o Papa Francisco. Viva todos os padres da Diocese de Erechim. Viva todos os ministros. Viva os colaboradores que enfrentaram as noites de chuva durante a novena. Viva os festeiros. Viva os churrasqueiros. Viva todos, todos os colaboradores anônimos de mais esta Romaria de Nossa Senhora de Fátima. E obrigado às emissoras de rádio e demais plataformas que divulgaram este evento emocionante. Se Deus é por nós – quem será contra nós!’.

- Nossa Senhora de Fátima, é ela! Fazia horas que andava de olho numa "deusa" e que não via há tempos. No meio desse mar de gente, Nossa Senhora, sim é ela. Me apressei, mas quando vi bem, estava de mãos dadas com um desses que parecem morar em academia com os braços de anca de touro, cheio de tatuagens, de tudo quanto é bicho. Chega – vou embora. Mais de um milagre num só dia é demais. Abriu o tempo - chega.

Perto de casa uma Belina metido quase no meio de uma capoeira negou fogo. Não pegava. Quando o motorista, o Artêmio, se acomodou e acendeu seu cigarro, já meio torto, o arranque só fez tec. Tentou outra vez e tec. E foi tec, tec e tec. ‘Não vai me dizê que tamo sem gasolina’, gritou mulher. ‘Não é gasolina Olinnnnda”, gritou mais alto o homem que deu um pontapé no forro da porta que foi ao encontro de uma baita pedra, afundando a porta. Se o carro ia pegar ninguém sabia – mas o estrago estava feito. No meio do lamaçal, com as calças arregaçadas quase ao joelho, abriu o capô, mexeu n’alguns fios e vermelho de raiva retornou. Ao sentar no assento foi - crec. Quebrou um dos lados do encosto. Lhe caíram os documentos do bolso da camisa, o chaveiro com o corta-unhas do Grêmio e até o pente azul. E tentou novamente. Tec. tec e tec. Para pai – tu vai afogá a Belina, opinou o filho mais velho no assento de trás, espremido entre três irmãs. Foi então que o Artêmio, da Linha Poço Grande se lembrou: ‘barbaridade – o rádio ficô ligado na Aratiba e comeu a bateria. Quem sabe também as luz ficaram acesa’.

Mas então não era nada grave. Um vizinho viu a situação e encostou seu Gol, apanhou uns cabos no porta malas e prendeu na bateria dos dois carros. Toca agora, gritou. Na primeira tentativa – a Belina deitou as macegas com as pisadas do Artêmio no acelerador, e encheu o ar de fumaça. ‘Pisa pai, pisa – não deixa apagá’.  O Artêmio ainda teve tempo de gritar: ‘Fica queto. E vê se os garrafão de vinho que ganhei na roleta tão aí’. Olinda acomodou o nene no colo e a Belina saiu do meio das capoeiras e do lamaçal como um dos primeiros adversários do Mike Tyson, quando se levantava depois do primeiro soco. Mas – ao contrário – Artêmio ajeitou o chapéu escondendo a cabeleira esvoaçante e fez da Belina uma SUV 4 x 4. O crucifixo balançava pendurado no retrovisor interno. Pena que os pneuzinhos magros não colaboravam muito e iam suando uma barbaridade por causa do excesso de peso – mas a Belina foi vista na cidade pela última vez quando desceu pelos Balvedi abaixo, pela RS 420. Para garantia de todos, o vizinho com seu Gol bem mais novo, vinha logo atrás. A Belina veia ia joquiando de um lado para o outro - e seus ocupantes, todos sem cinto de segurança iam só no balanço. Lá pelo KM - 10 o Artêmio ameaçou levar a mão ao rádio para saber sobre o Grêmio e o Glória de Vacaria - mas dona Olinda lhe desferiu um tapão na mão. 'Já não chega que quase não saímo por causa da bateria seca e tu ainda qué liga o rádio! Pensa na estrada, vê se não pega no sono e em casa vamo vê se ganhemo ou perdemo!', disse decidida a mulher mostrando quem mandava nos filhos, na Belina, no marido, na família e em casa. Não rezô uma Ave-Maria. Passou só nas rifas, no cinquilho e nas barraca de bebida. Ano que vem tu já tá avisado. Eu vô sozinha de Van - e tu cuida das criança e dos animal e escuta pela rádio a romaria. Eu te avisei Artêmio - essa foi tua última viagem pra Erechim. Que pegá a Belina - pega. Mas que tu não me saia mais longe que Aratiba'.    

Na altura da Nossa Senhora da Santa Cruz ouviu-se um estouro seco, mas abafado. 'Sacramenha será que furô um pneu' pestanejou o Artêmio. Ao abrir a porta a Olinda e a filharda já gritaram: 'é o vinho pai. O cheiro forte e acre do vinho invadira toda Belina'. Ao levantar o Porta-malas o Artêmio deparou-se com um garrafão estourado. Tudo molhado de tinto. 'Esse garrafão fia duma p. não aguentou o calor', blasfemou outra vez. Bateu o porta-malas de novo e entrou na Belina: 'Agora temo que i assim. Não tem o que fazê', determinou. Uma das meninas atreveu-se: 'E se estourar o outro!'. Artêmio fez que não ouviu. Virou a chave e a Belina pegou na hora. E logo começaram a descer em direção a Aratiba. O velho ditado de que nada é tão ruim que não pode ficar pior logo apareceu. O vidro da porta da dona Olinda não abria, ia só até um pedaço e não descia mais. E ainda por cima a maçaneta estava quebrada ao meio. Ar condicionado - nem falar. A Belina toda invadida pelo cheiro de vinho se ia lançante abaixo. Dona Olinda queria dizer ou fazer um monte de coisa contra seu marido - mas logo pensou em Nossa Senhora. Puxou um terço e disse aos filhos: 'Vamos atender o pedido de Nossa Senhora e rezar um terço. Quem sabe a gente se distrai e até lá tamo em casa. Ave-Maria-cheia de graça, o Senhor é convosco e bem-dita sois Vós entre as mulheres; e os filhos: Santa Maria Mãe de Deus, Rogai por nós Santa Mãe de Deus, Agora e na hora da nossa morte amém. Antes da segunda-Ave Maria, o Artêmio se atreveu, vermelho de tanto vinho: Olinda - o terço começa pelo Pai Nosso e tu esqueceu. 'Cala essa boca!', explodiu a Olinda e recomeçou: 'Pai Nosso que estais no céu, Santificado seja vosso nome, vem a nós o vosso reino...'

Às 7 da noite – quando todas as Brasílias, Fuscas, Gols, Unos, Chevetes, ônibus, Kombis, Vans e Corsas estavam em suas garagens – e a chuva recomeçou. Mansa. Mansa, bem como o semblante de Nossa Senhora de Fátima. Lá na esplanada do seminário, sob cheiro intenso de flores amassadas e velas queimadas e algumas ainda ardendo; cansada a Mãe adormeceu sozinha onde sempre esteve e está – enquanto a água da chuva lhe escorria pelo rosto e pelo véu. Ou seriam lágrimas que Nossa Senhora de Fátima não conseguia segurar, porquanto retomava sua dor, penalizada com o caráter de seus devotos e, sabedora do amanhã deste mundo imundo, falso, hipócrita e mentiroso, lhe davam a certeza que serão necessárias ainda muitas romarias, e o desfiar de rosários e rosários, terços e terços - até a aceitação tranquila e a compreensão plena do porquê da sua aparição em Portugal e do seu pedido aos três pastorinhos, pedindo, indicando, implorando por paz e orações. Oremos, pois. Crédulos e incrédulos. Pelo visto é bem plausível como opção mais viável – o que nos resta. Do jeito que as coisas tem ido, aqui, ali, lá e pelo mundo afora – quem sabe outros pastorinhos de celular à mão terão de testemunhar uma nova visão da Mãe de Jesus Cristo e atender seus pedidos. E se isto não conseguir mudar o rumo da bola global – o Criador terá de enviar um novo filho. Mas Ele mesmo já sabe – que não poderá vir ao mundo numa estrebaria, muito menos onde caem bombas dia sim, outro também. Por que não no HC, na Unimed ou no Santa, isso; no Santa, onde tudo está na mais santa paz, onde tudo corre às mil maravilhas, onde tudo é do bom e do melhor. Seria a perfeição e, ainda, cem por cento SUS, graças ao agora também, nosso tetra-prefeito, Polis: o Santo Superior vindo ao mundo no nosso Santa.

Bota, observador da cena de Campo Pequeno, e que leu tudo e não via o final da crônica, não disse uma palavra, mas ao ouvir a última hipótese, não se conteve: “Ody – pelo amor de Deus. Hoje é o dia da Nossa Senhora de Fátima. Respeita Ela. Cristo nascer no Santa, no nosso Santa que o dr. Dexheimer municipalizou em 1992, tenha juízo, seeuuuu Odyyyy. Santa Mãe de Deus. Para com isso, ô infeliz!’.

 

Obs: Esta crônica é uma adaptação aos tempos de hoje,  de uma que fiz sobre a romaria de Fátima, ainda quando era bispo - bispo Dom Girônimo. Eram tempos em que a administração do Santuário tolerava jogos e bebidas de álcool na romaria. então as citei. Era – normal. Por fim, mesclando fatos e ficção – não visa, esta crônica, em momento algum; atingir, diminuir ou denegrir quem quer que seja. É apenas uma forma de tentar retratar o que se passa aos olhos de quase todos, e aos olhos dos que veem outros comportamentos em pleno ato litúrgico. Por fim – é um exercício da escrita que tanto me satisfaz e uma tentativa de levar à reflexão de todos que os pedidos de Nossa Senhora de Fátima estão caindo no esquecimento à grande maioria dos católicos que só lembram de rezar no período da Novena e da Romaria. 

Com sinceridade, dedico-a a todos conhecidos e anônimos que fazem acontecer há 73 anos anos, cada uma das romarias de Fátima, em especial, aos meus amigos padres Antoninho e José Carlos Sala. Também ao meu amigo João Kleber que desde o plantio das novas arvorezinhas na esplanada do Santuário, tem por hábito, regá-las com o auxílio de uma garrafa plástica, uma ou até três vezes por semana, acompanhado da esposa - Odete. Isso, sem contar o trabalho anônimo do amigo Neivo Zago, que amarrou as plantinhas mais de duas ou três vezes junto às estacas, para que crescessem o mais retinhas possível. Coisa que ninguém vê, mas admira quanto estão crescidas como devem, e não, tortas. Sem dúvida - um belo, oportuno e despretensioso gesto que só Nossa Senhora de Fátima e talvez o padre Sala; podem testemunhar todo santo dia. A Santa - com absoluta certeza observa tudo desde seu pedestal ou lá do alto dos céus - sua verdadeira residência fixa.. Portanto - Vivvva Nossa Senhora de Fátima! Vivvvvvaaaaaaa! 

 

domingo, 29 de setembro de 2024

Atlântico sendo sempre Atlântico

 

Todo mundo sabe que eu nunca me conformei com o fim do futebol de campo do Atlântico. Do CER Atlântico. Sim por que desde minha infância até adolescência minha diversão, meu divertimento, minha paixão era ver o Atlântico pisar no gramado.

Quando implodiram o estádio em 1991, estilhaçaram partes de mim. Do meu passado. Do meu então presente. Do que eu amava. Do que me fazia pensar uma semana inteira no jogo de domingo. Acabaram com meus Pai Nossos e Ave Marias que eu rezava ajoelhado nas missas do padre Rigoni, depois do padre Menegat, depois do padre...ali na São Pedro. Pedindo que protegesse o goleiro verde rubro e iluminasse nossos atacantes. 

Aí veio o futsal.

No início até me empolguei um pouco ao ver de novo a camisa verdade rubra, os calções branquinhos as meias vermelhas ou brancas. Mas aos poucos tudo foi esmorecendo dentro de mim. Um dia me peguei no ginásio, batizado de Caldeirão do Galo, pelo grande desportista Osvaldo Afonso Chitolina, mas desta vez vendo meu neto Benjamin, obedecendo ordens de um professor e com a mesma camisa verde rubra correndo atrás de uma bola. Mas também isso passou.

Vez por outra ouvia pelo rádio o Atlântico campeão disso, campeão daquilo... e, sem hipocrisia, alguma coisa me atucanava. Quem sabe um pingente cutucando minha alma verde rubra que ainda respirava, e respira, dentro dentro mim. Dorminhoca, preguiçosa, desinteressada – mas ocupando um espaço, o seu espaço que acalento desde 1958 quando meu pai Alberto começou a me levar pela mão para dentro da Baixada Rubra.

Ontem, 29 de setembro, o CER Atlântico virou notícia nacional. Levantou a Copa do Brasil de Futsal. Observe-se, pela segunda vez. E, claro, minha alma me chamou pelo nome e eu acordei. Até ouvi um “´psiu – Ade, Adelar, tu viu o nosso time!?”. Pela sonoridade era a voz do meu pai.

E assim como o presidente Julio Cezar Brondani, seus pares de dirigentes, comissão técnica, com destaque para o técnico Paulinho Sananduva e o "faz tudo", Elton Dalla Vechia e o grupo de atletas é claro; afora sua imensa torcida, comemoraram em êxtase mais esta gloriosa conquista do time do meu coração – eu também vi o entardecer de mais um domingo, geralmente com seus fins de tarde melancólicos -, me devolver à reverência de minha primeira paixão no esporte. Foi um entardecer como aqueles que eu vivi quando deixava a Baixada Rubra, feliz da vida, pisando sobre as cascas de amendoin, as carteiras de cigarro vazias, as tampinhas de garrafas vazias e o cheiro forte das folhas de eucalipto que começavam a se embalar, talvez também regozijosas, prenunciando a chegada de outra segunda-feira com sua rotina de escola, trabalho - mas com o sorriso da vitória do meu Atlântico.

O Atlântico do Futsal me lembra hoje o Atlântico do futebol de campo. Desafios grandiosos, difíceis, aparentemente insuperáveis – ainda mais com aquela camisa branca que eu tanto temia quando entrava em campo, digamos, contra um 14 de Julho de Passo Fundo que vinha de vermelho e, a "fair play" mandava o time da casa abrir mão do seu fardamento número um.

O Atlântico está noutro patamar. 

Noutra prateleira.

 É reconhecido num Brasil que é um continente. 

E a obra deste domingo, 29, não é suprema 

– se não que mais uma, tão importante quanto outras 

e as demais que enfeitam sua galeria de troféus.

Não é uma chegada. Não é um fim.

É uma caminhada. É um processo.

É uma trajetória.

É uma história que segue seu destino.

É a lembrança em ação de seu hino;

“Avante,

Vamos para a luta...”.

É a Societá Italiana Di Mutuo Soccorso XX de Setembre de 1915.

É a Societá Italiana Di Mutuo Socorsso Carlo Del Prete, de 1929.

É o Ítalo Brasileiro que o tempo aposentou para só apreciar..

É a Sociedade Recreativa e Beneficente Atlântico.

É o Atlântico Football Club de 1937.

Ambos conviveram como duas entidades entre 1937 e 1939 – mas tudo Atlântico.

E da fusão destes surge o Clube Esportivo e Recreativo (CER) Atlântico, em 1940.

E assim o tempo avançou, ou avançamos nós no tempo (?) – e o Atlântico segue na história fazendo história e a sua história.

O Atlântico sendo sempre Atlântico.

 

 

 

 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

De Antonio Carlos Macedo – Cidadão de Porto Alegre e queridos amigos

Macedo na Gaúcha. Crédito: Arquivo

 
Vou escrever umas linhas quase no meu estilo. Quase.

Primeiro num tom mais informativo e depois mais à vontade como se estivesse falando comigo mesmo. Provavelmente para os amigos da capital se constitua numa novidade, porquanto não é uma matéria. Minha vontade mesmo era escrever - mais solto. 

Pois, o jornalista Antonio Carlos Macedo recebe nesta terça-feira, 17, o título de Cidadão de Porto Alegre em sessão solene da Câmara de Vereadores.  A proposição partiu do vereador João Bosco Vaz. Macedo apresenta o “Gaúcha Hoje!” na rádio de mesmo nome. O programa vai ao ar diariamente das 5 às 8 horas e aborda temas de interesse do cotidiano de cidadãos e da comunidade em geral. Conta com a participação de uma equipe de repórteres e rápidos comentários sobre o tempo, futebol e comportamento. Fabrício Carpinejar é um dos comentaristas.  

No último dia 7, Macedo celebrou seus 50 anos de atividades ininterruptas no jornalismo. O evento foi realizado em Porto Alegre, quando recebeu dezenas de convidados entre colegas atuais e alguns de quando praticamente iniciou no jornalismo.

Sua trajetória na imprensa remonta ao ano de 1974 na Central do Interior da então Companhia Jornalística Caldas Júnior (CJCJ). Logo também ingressaria na rádio Guaíba. Mais tarde transferiu-se para a RBS onde passou a trabalhar na rádio Gaúcha, inicialmente como repórter de campo. Integrou a consagrada equipe que tinha Armindo Antônio Ranzolin, Lauro Quadros, Ruy Carlos Ostermann, entre outros. 

Demonstrando sua capacidade diversificada para atuar com alta performance em diferentes áreas, Macedo trocou o futebol por programas de notícias. Esteve por tempos no "Chamada Geral" e há anos apresenta o "Gaúcha Hoje". São programas que tem como público alvo, principalmente o cidadão comum da capital e suas demandas diárias. Seus programas primam pela objetividade atendo-se em primeiro plano aos fatos e suas repercussões na vida das pessoas.

Trabalhei com o Macedo de 1977 até 1981 na Central do Interior da CJCJ. Sentados frente à frente éramos responsáveis por cobrir o futebol do interior do estado para o Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde e rádio Guaíba. Por algum tempo também fizemos o "Tabelão/RS" para a revista Placar. Nesse período testemunhei de perto suas destacadas qualificações para o exercício da profissão em alto nível, tanto no jornalismo escrito/impresso, quanto no rádio.

Com ele logo aprendi quase tudo, mas algo não esqueço: se não for possível a perfeição, que pelo menos se minimize os equívocos na informação trazendo-a, se possível, a erro zero. Não havia meio termo. Extremamente exigente, como se deve, era colega que às vezes eu até temia; mas logo fui me habituando ao seu estilo. Era de poucas palavras, direto e sincero. Tudo em favor da melhor informação possível ao público consumidor. Ao final ganhava a admiração de todos. A escola que tive no jornalismo tem no Macedo o típico exemplo vivo. Rigoroso nas exigências profissionais, é um ser humano e amigo de enorme coração.

Macedo: Crédito: Arquivo

Qual não foi a minha surpresa quando recebi seu convite para estar na celebração dos seus 50 anos no jornalismo. Foi um desses eventos raros e únicos, onde diferentes gerações de profissionais tiveram a oportunidade de se conhecer ou reencontrar, relembrar e confraternizar.

Ser lembrado por ele para o evento, de certa forma despertou em mim um sentimento de reconhecimento num patamar também de alto nível, o nível que ele atingiu há muitos anos por méritos inquestionáveis.

O Macedo tem muito ainda a contribuir com a imprensa do nosso estado. É um dos nomes que honram as melhores tradições da imprensa gaúcha. Ao seu lado e espelhando-me nele, posso dizer que pautei e segui também por valores básicos, e inegociáveis, de busca e divulgação dos fatos de forma imparcial, sempre com responsabilidade, honra e paixão pela profissão e pelo público consumidor. Quem me conhece sabe que ao longo do tempo, em Erechim, também passei a escrever colunas de interpretação e opinião - mas esta já é uma outra história.

A homenagem que a Casa do Povo da capital do estado presta a Antonio Carlos Macedo, é sobremaneira, um reconhecimento oportuno e merecido a quem se dedica há meio século a ser um elo muito confiável entre a notícia, a fonte e o público.

Meus parabéns ao ex-colega e sempre amigo, de cinco décadas, por esta distinção que alcança tornando-se a partir do dia 17 deste mês “Cidadão de Porto Alegre”.

Alguns amigos na festa dos 50. Crédito: Bosco/Divulgação

Da esquerda para a direta em pé: José Adelar Ody, João Bosco Vaz, Gerson Silva, Marcelo Drago, Cláudio Brito, José Aldo Pinheiro, Marcos Antonio Baggio, Francisco Paulo Bisonho (Chicão), Antonio Carlos Macedo, Eduardo Gabardo e Oziris Marins. Mais atrás estão Luciano Périco e Alexandre Aguiar (MetSul). Sentados: Gustavo Manhago, Flávio Dutra, Sílvio Benfica, José Alberto Andrade, Diori Vasconcelos e Renato Matte.

Crédito: José Ody
 
Foto: Renato Matte, Marcos Antonio Baggio, José Adelar Ody e João Bosco Vaz.

Os quatro trabalharam com o Macedo na Central do Interior da Caldas Júnior entre 1977 e 1981 – Mais tarde Baggio, Macedo e Renato, em períodos distintos, transferiram-se para a RBS. 

Renato Matte seguiria ainda para a Globo/Rio onde foi Gerente de Projetos Especiais do Sportv e depois Chefe de Redação do Sportv. No cargo, esteve em 35 países. Sinto-me feliz com o sucesso do Renato, meu ex-colega de Faculdade, porquanto o indiquei para a Central do Interior da Caldas Júnior em 1977. No nosso reencontro ele fez menção ao episódio. Por indicá-lo à Caldas Júnior, no mesmo setor onde eu estava, enviou-me uma foto dos crachás de eventos internacionais e nacionais nos quais esteve envolvido pela Globo e um pequeno texto que reproduzo.  



RenatoMatte: "O resultado da dica tá aqui … tds os eventos esportivos em 35 países do mundo. Copa do Mundo, Copa Conf, Copa América, Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores,
Mundial de Clubes, Olimpíadas, Paraolimpíadas, Olimpíadas de Inverno, Champions, Euro … acho q não decepcionei a dica do amigo !!! Grande abraço", (numa referência a 1977).

A propósito Renato está de aniversário hoje, 16. Meus parabéns estimado amigo.
Não contei os crachás - mas não decepcionou não.


Marcos Antonio Baggio - Aposentou-se depois de uma grande e linda trajetória na imprensa  gaúcha. A propósito, Baggio conseguiu o meu primeiro emprego em Porto Alegre sem sequer me conhecer. Me "salvou" num momento decisivo. No ano seguinte - abriu-me as portas para ingressar na cobiçada Caldas Júnior. Sou eternamente grato ao meu amigo.  

João Bosco Vaz, pelotense e jornalista, ocupou minha vaga quando saí da Caldas Júnior em 1981. Político, está no seu 7º mandato de vereador em Porto Alegre. Foi responsável pela organização da Copa do Mundo em Porto Alegre (2014), na condição de secretário dos Esportes da capital. 

Nos reencontramos todos no evento do Macedo – também quase 50 anos depois. Sem dúvida um privilégio para nós, cada um com suas histórias de imprensa e de vida.