| Turma do Futsal da Fapes, há mais de 30 anos, sob comando do Professor Cabral Foto: Equipe do Evento |
Ody: Ei, tu aí!
Fulano: Eu... eu?
Ody: Quantos amigos tu tens?
Fulano: O quê? Ué... Passa de 2.000
Ody: Não. Não... Estou falando de... amigos. Ninguém tem
2.200. Tu tem... teu tem meia dúzia?
Fulano: Tô te falando. Deixa eu ver no meu
Face... Bah... Quase na mosca. São 2.226 – cara.
Ody: Tu sabe o que é uma amigo?
Fulano: São esses que falei. Tem gente da
minha turma que tem até mais.
Ody: Escuta... Tu confia nesses teus....
‘amigos’!?
Fulano: Bah... Em todos, assim, não... Tem
uns que nem conheço bem... Tem uns que nunca vi... ‘má tão na lista’.
Ody: Presta atenção: amigo – é uma pessoa com quem tu tem relações de afeto, de benquerença, de estima, de confiança
plena. Com ele tu se abre, fala sobre intimidades, troca até segredos que às
vezes nem com a família tu fala. Amigo, é com quem tu desabafa e ouve, chora e
ri de fatos... adormecidos... Tá me entendendo!?
Fulano: Bah... tô sim. Mas amigo assim –
deixa eu ver, se for assim – eu só tenho o Beltrano, o Sicrano, o, o... o Zé... Bah, o Zé não... Mixaria... Cara assim... de eu emprestar dinheiro, de ‘resolve’,
uma situação... Falar ‘das minha intimidade’, bah... acho que é só o Beltrano e
o Sicrano, mesmo.
Ody: Isso... Estou falando de você saber
quase tudo da vida do outro e o outro – da tua. Tomar partido em situações
complicadas, colocar-se à inteira disposição e saber que pode contar com o
mesmo. Entregar a chave do teu carro, da tua casa... enfim... Quando isto é
possível entre duas pessoas – aí temos uma amizade de verdade. E mais: sentir-se
útil ao poder ajudar, sentir-se feliz. Amizade – é um envolvimento de tal sorte
que se revela inclusive um aporte à saúde -, porquanto com o mesmo vem, ou
melhor, na amizade de verdade – reside um apoio afetivo, emocional. Trata-se de
um pilar ou ‘pau pra toda obra’, sem custo; que não seja o sentimento de prazer,
de alegria, de felicidade em saber-se tão importante para alguém e, este alguém
para com a gente.
Fulano: Bah... seu Odyyy. Acho que dos 2.226
do meu ‘face’, 2.224 são mais - é meus ‘conhecido’. Como é que ‘vô tirá’ a
camisa e dá ‘p’rsses’... 2.224...ou dá a chave do meu Chevete! – eu fora.
Eram exatamente 19h44min da noite de sábado, 15 de abril, quando
o elevador dos próprios do ‘Baita’, ali na Quintino Bocaiúva – Erechim, abriu
sua porta, e apoiado pelos filhos Renan e Cassiano, e, pela esposa Tânia –
apareceu o Cabral – o ‘Professor’, o conhecido, o amigo, ou amigo/conhecido ou o conhecido/amigo de aproxidamente 60 a 70 pessoas lá estavam à sua espera. Num
repente - setenta bocas começaram a gritar Cabral/Cabral/Cabral e, ele,
aparentando um certo ‘patetismo’, pois fora tudo de surpresa -, não
conteve o ‘marejo dos olhos’ e, com uma das mãos, buscou segurar as lágrimas.
Não posso aqui afiançar que na relação do
Cabral, do Professor – para com aqueles setenta de seus ex-alunos de Fapes e de
Categorias de Base do Ypiranga, os requisitos e adjetivos que rodeiam a
definição de rigor para uma amizade - tenha existido ou se mantenham na estrita
conceituação do termo. Mas – posso dizer, que o contrário também nunca existiu.
Com a mais cristalina das convicções, pode-se concluir sem medo de estar
errado, que o Cabral/Professor, em algum momento da sua caminhada de vida,
tornou-se, fez-se, foi sim, um dileto amigo de toda aquela gente presente ao
evento.
| Ex-atletas do Ypiranga de 1994 a 1998 sob o comando do Professor Cabral Foto: Equipe do Evento |
Regado a assados em tiras, pão, chopp e refrigerante, a recepção foi um momento único e histórico na vida não só do Cabral/Professor, mas também para todos que lá estiveram e confraternizaram. Não faltaram manifestações ao microfone, invariavelmente girando em torno de lembranças de times de futsal da Fapes e das categorias de base do Ypiranga. Todos destacando as relações e aprendizados recebidos do grande Cabral - tendo na bola o elemento central da relação. Na abertura, um dos pilares da organização, Fernando Piran, deu uma bela panorâmica sobre o Professor Cabral e o grupo que o estava homenageando.
Por evidente, avesso a microfone em público, não
falei. Preferi guardar alguma referência sobre minha convivência com o
homenageado, por aqui - onde o teclado ouve minha ‘voz’ através dos dedos. Eu,
assim como o reitor da URI, Luiz Mário Spinelli, presente com sua esposa
Roseana, nos acostumamos a tratar o Cabral, o Professor dos ‘boleiros’, por seu
nome – Glenio. O Glenio da reitoria. O Glenio chefe de gabinete de quatro ou
cinco reitores, desde o primeiro. O Glenio dos churrascos da reitoria. O Glenio
das viagens em direção aos campi da Universidade. O Glenio dos protolocos
precisos. O Glenio das falas pontuais em eventos solenes. O Glenio das risadas.
O Glenio das gargalhadas a quase sufocar e salvar-se em tosse. O Glenio que
sei, me defendeu e apoiou em salas fechadas, em reuniões acirradas. O Glenio
que sempre me incentivou, me transmitiu confiabilidade e, por que não, o Glenio
um confidente recíproco, onde a lealdade, o afeto e a confiança foi se
construindo dia após dia, semana após semana, mês depois de mês, ano a ano –
por mais de 21 anos. Como o Fulano, posso contar nos dedos os amigos que fiz durante
a vida, seguindo a regra exigida para uma amizade de verdade. Mas, nesta
exigência, o Glenio, o Glenio Cabral que tão lindamente foi homenageado esses
dias – está em lugar onde os amigos estão. O mesmo posso dizer do Paulinho
Rodrigues – que também lá esteve. Ambos em lugar elevado e distinto.
Núcleo familiar
| Cassiano, Tânia, Glenio Cabral e Renan Foto: Equipe do Evento |
Se eu fosse falar, mas a língua me atravanca desde criança, recolheria a bola que era tocada de fala em fala. Viraria a página, para abrir um capítulo sobre o núcleo familiar. Para quem conviveu com o Glenio longe das quadras e dos campos de futebol – posso dizer que conheci um amigo que, por mais amante que tenha sido, e é, do futebol e do Grêmio, nada, rigorosamente nada suplantou,e nem é superior, ao seu amor pela família. Sei que estou cem por cento certo no que digo. Tânia Disemon Cabral, Renan e Cassiano Cabral, estão na prateleira da vida deste meu amigo – no lugar mais alto e com maior destaque, como sempre estiveram. E, sejamos francos – assim também é com todos os demais -, que tem consciência do que significa ‘relação familiar’, ‘núcleo familiar’, ‘esteio familiar’, ‘amor familiar’. Testemunhei isso por mais de 21 anos. Testemunhei isso por quase todos os dias da semana de trabalho neste período.
É com alegria que recordo o Glenio subindo à minha
sala, ou me chamando à sua – para me confidenciar que o Renan tinha passado na
medicina. D’outra sorte, para revelar que o Cassiano havia passado no concurso
da polícia. Mais tarde – virando delegado. “Ele e o Gustavinho (dizia
carinhosamente), sobre Gustavo Vilasbôas Ceccon. A dupla inclusive me ensejou
escrever um pequeno texto sobre a aprovação de ambos – enquanto delegados de
polícia, filhos de Erechim. O Glenio falava como se os dois, hoje delegados, fossem seus filhos – tamanho o reconhecimento.
A mesma caminhada e com avanços impressionantes, o
Glenio me transmitia sobre o Renan na medicina. Nos dois casos – meu amigo
falava com a boca, mas como jornalista atento e observador que sempre procurei
ser, o brilho nos olhos do Glenio me dizia mais que seus lábios. Era um esforço
reconhecido. Um sonho se concretizando. E – nos avanços profissionais dos
filhos, na segurança e na medicina, o pai Glenio se deixava transbordar em
alegria e honroso orgulho, afinal eu era, e sou, um amigo unido por laços de afeto
e plena confiança.
Se eu fosse falar, diria isso e muito mais. Daria testemunho
de viagens – onde a distância era engolida pela conversa prazerosa. Certa
feita, ao retornar de Frederico Westphalen, depois de uma parada numa bodega de
beira de estrada – surpreendentemente ele me passou o volante. Eu me apavorei... com a tranquilidade do
Glenio. Era noite e chovia toda chuva que havia no céu. Não se enxergava pintura
alguma no asfalto. Nem a linha divisória e, menos ainda as laterais. E o Glenio
dormindo – ou fazendo de conta quê! Ali vi que não só o que dizia, mas o que
fazia, podia ser transmitido - pela singela razão que confiávamos um no outro, afinal
éramos amigos – e plenos.
Se fosse
falar na recepção ao Cabral – não poderia contar, mas aqui posso, reconhecendo que este não é o tema e, que o meu amigo vai entender. Todos sabem
que o Glenio é uma pacificador – até... assim... deixar de sê-lo. Um dia – na Maurício Cardoso,
em frente ao Magazine Luíza, um outro veículo quase nos bateu. O cara parou o
carro e passou a proferir um monte de palavrões. O Glenio baixou o vidro do
carro, e quando tentava devolver os impropérios – o outro motorista (que não era
daqui), começou a gargalhar e, imaginem - levantou uma barra de ferro, agitando-a contra o nós. Mas pra quê! Os dois carros arrancaram como se fosse
um arrancadão. O outro na frente e o Glenio ‘voando’ em perseguição Maurício a
baixo. Ali eu vi a coisa preta. Rezei para não alcançarmos o cara, porque o
desfecho era imprevisível. Menos mal que sujeito se sumiu pela Pedro Pinto de
Souza afora. O auto da reitoria suava. O Glenio bufava. Não – bufava é pouco.
Espumava. Outra vez, saímos num domingo à tarde de Erechim rumo a Porto Alegre.
Depois de Getúlio o tempo desandou. Chuva, chuva e chuva. Quando entramos na
386, pegamos uma carreta à nossa frente. E o Glenio: “não quero nem saber Odyyy.
Vou me enfiar atrás desse trem – só cuidando as sinaleiras traseiras dele e vanos até Porto Alegre”.
Dito e feito. Isso foi num domingo onde o Grêmio jogava em Caxias (do Sul) e no
final deu briga fora do estádio, até tiros pelas ruas foram registrados, segundo
a transmissão que vinha pelo rádio.
Uma vez houve um fato que sempre que o mesmo
vinha à tona – o Glenio tinha de ser socorrido pela tosse para não engasgar - de tanto rir.
Era véspera de Natal e da parada que a Universidade fazia até o ano novo. Eu
desci para o meu carro e, na calçada, encontrei uma colega. Era um período onde
os funcionários do câmpus e da reitoria eram brindados com chocolates e alguma
ave. Foi quando ela se saiu: “heinn Odyyyy – O Julio (diretor do campus à
época) é um amor né. Todos os anos ele nos dá um ‘Al Capone’”. Eu me segurei e
concordei: “é verdade. Ele nunca esquece. Todos os anos ganhamos um Capone...”.
Depois da virada do ano, contei ao Glenio. Daquela vez pensei que ele não recuperaria
o fôlego.
| Em pé: Casal Nite e Joel Costa, André Rodrigues, casal Paulo e Celi Rodrigues. Sentados: Casal Tânia e Glenio Cabral Foto: Equipe do Evento |
Nove vez fora todas as incursões que só digo aqui porque não preciso usar a boca – retomo sobre o evento do último sábado. A ideia surgiu com o ‘eterno capitão’ do grande Ypiranga de 1989 – Joel (Costa). Ele passou alguns dias com o casal Cabral e Tânia na praia e voltou decidido a prestar uma homenagem ao homem que foi importante também na vida dele. Passou a ideia ao Fernando Piran e André Rodrigues – ex-atletas que foram pupilos do Cabral.
Fernando e André - abraçaram o pleito do Joel e
organizaram o evento, como se diz, de cabo a rabo. De forma magnífica. Foi bonito demais.
Ex-atletas do Ypiranga e da Fapes, guris de ontem - hoje empresários e
profissionais liberais, se reencontraram ao lado de médico, delegados, professores e pais
aposentados. Deixei o local por volta das 22h45min, mas no outro dia o dr.
Baccin, comentou que o evento estendeu-se até por volta da meia noite. “Ainda
bem que não abriram o último barril – se não ia madrugada adentro”, disse ter
ouvido.
Fulano: Mas... seu Odyyy. Não vai querê me
dizê que aqueles sessenta, setenta... eram assim, amigo do Cabral, como você rotulou.
Amigo de dar até as chave da casa...
Ody – Pois é, Fulano. Na realidade o
termo amigo admite variações e classificações – digamos. Mas aqueles que lá estavam,
por algum momento de suas vidas, consideraram-se sim, amigos de verdade do
Professor e, ele, deles. Mas, como se diz, o tempo rola.
Fulano: É, isso é verdade. A gente via só
pelos gritos, pelos cumprimentos, pelas falas e vídeos, e pelos espremimentos
(?), de sair numa foto com o Professor. E além de tudo, né seu Odyyy – também
foi legal por que tinha alguns amigo que não via mais ‘otros amigo’, nem os
‘amigo’... Ih – me perdi. ‘Dexa’ assim.
Ody: O Cabral, o Professor, o Glenio – não deixa de ser
um privilegiado. Sim porque a esta altura da vida de todos nós, poder contar com amigos que
se mobilizam para reunir outros amigos, e ser reverenciado por aqueles a quem
tanto ajudou como Professor, chefe e, sobretudo, como amigo, não é para
qualquer um. Evento por demais merecido, pois nas lidas de Cabral com aqueles
que o recepcionaram, a bola pode ter sido o objeto , mas o sujeito da história
sempre foi a formação final, de homens honrados, e, por que não – azeitados em amizade. Enfim - é a vida como uma bola: gira, gira,
circula e sempre pode voltar. O tempo com suas cinzas pode encobrir amizades - mas quando verdadeiras, como brasas, elas estão ali - vivas. E este foi o caso da recepção a Glenio Renan Cabral.
| Foto: Equipe do Evento |
Ainda em tempo, com o advento das novas tecnologias, sei que este grupo está nas relações quase diárias do Cabral. O mesmo acontece entre ele e eu. Em noites de futebol - comentamos lances e jogos por mensagens - como forma de continuar com nossa amizade acesa. Agradeço ao Paulinho, ao André e ao Fernando pelo convite estendido a mim pois, assim, também tive a oportunidade de abraçar novamente meu querido amigo Glenio - o Cabral.