| Edir Bisognin Goelzer (dona Edir) Crédito: ArquivoFamília |
À saída da missa de 7º dia da esposa Edir, no gelado sábado passado (9) no Santuário de Fátima, o dr. Jorge Lisboa Goelzer, ainda no interior da igreja - com os olhos marejados murmurou quase como um pedido de socorro ao meu ouvido: “não é fácil, não é fácil. Eu chego em casa e olho aquele sofá...’ Limitei-me ao abraço fraterno e solidário, como se isso pudesse dizer alguma coisa – porquanto falar – me foi impossível. Não encontrei nenhuma palavra. Fui um dos últimos a me achegar e depois dali cada um seguiu para seu sábado à noite. Para o dr. Jorge, assim aos seus filhos Jorge Luis e Paulo Roberto, às noras e netos, por certo, foi um sábado ainda de ausência – mas não deixou de ser um certo conforto, imagino, contar com a presença de muitos amigos.
Durante a semana em uma consulta médica, falei com o dr. Milton (Serpa) de
diferentes assuntos e, como não podia deixar de ser, um deles foi sobre e a
semana anterior – quando convivemos com inúmeras perdas de pessoas muito
conhecidas. Até onde me lembro, a cidade jamais tivera semana tão avassaladora quanto
à perdas - exceção feita à tragédia do ônibus que caiu na Barragem da Corsan
vitimando 17 pessoas em 2004.
Edir Bisognin Goelzer, mãe Edir, tia Edir, para mim, dona Edir.
Sou de um tempo onde as mães tinham 10 filhos, alguns casos duas dúzias,
ou... Alguém haverá de lembrar de uma mulher com até 15 ou sei lá.
Dona Edir (como a trato neste texto), teve uma história incrível, invertendo a
própria lógica que se historia tempos afora. Sim, porque não raro se ouve sobre
uma mulher que ‘teve 20 filhos... contando os adotivos’. Mas a inversão da
lógica pela dona Edir se dá na medida em que dezenas e dezenas de crianças viraram
adultos, e viam nela, sua mãe. Quer seja a principal, a adotiva, a mãe de fato
ou mãe da redenção, do sustento, da salvação... mãe de toda hora, mãe do amor.
Mãe para sempre. Entre essas, uma saiu do berço hospitalar para a residência
dos Goelzer. “Eu sempre chamei a dona Edir de mãe”, recorda Priscila. Enfim, todas
elas – privilegiadas.
Eu sei que a recíproca da dona Edir era a mesma para com suas crianças, mas
caso pode ter havido onde ela, em não conseguindo lembrar de todos – certamente
todos, um dia, uma hora, um tempo ou até hoje... ou por todo o tempo, dela se
lembram, lembraram ou lembrarão.
Filha de um médico afamado também por sua humanidade dr. Bisognin, dona Edir
saiu de Severiano de Almeida e, nas salas de aulas descobriu e lustrou sua vocação,
sua prioridade, seu destino, seu amor: as crianças.
Foram 33 anos na presidência do Lar da Criança e outros tantos alcançando cerca de 40
anos na instituição. Não por acaso o ‘lar’ chama-se já algum tempo ‘Lar da
Criança Edir Bisognin Goelzer’, um reconhecimento do qual sempre se orgulhou -
sem jamais deixar de reconhecer que a obra sempre teve muitas mãos.
Se o dr. Jorge fez fama e é
conhecido por sua eloquência ao ser inquirido a se pronunciar – para equilibrar
a gangorra no lar dos Goelzer, dona Edir anda em sentido oposto neste
particular. Lembro, se a memória não me trai, quando estive em sua casa à convite dr. Jorge, para com outros colorados assistir a caminhada do nosso Internacional na Libertadores de 2010. A cada pouco o dr. Jorge saía com um "mãe... olha quem chegou. O Ody, mãe..." e logo, "mãe... o pessoal quer bebericar mãe, mãe - quase gol do Inter... Ah, não Ody... fica... Mãe vem dar tchau, o Ody acha que está dando azar e quer ir embora, ahahahah". Ou seja: seu inconfundível 'mãe' - estava no dia à dia com sua Edir.
A mim ela sempre foi uma mulher simples, humilde, que atraía pelo carinho sem
abrir a boca. Sabia ouvir como poucos. Fitava como outros tantos poucos. Jamais
alguém lhe dirigiu a palavra, ou ao seu esposo, sem que dona Edir permanecesse
atenta e de olhos em quem falava. E isto se chama respeito. Educação. Prestígio.
Incentivo. Exibia um sorriso que, para não descrever muito, permaneço no meigo.
Sabia cativar. Na mesma balada me intrigava seu silêncio, absurdamente gritante
- barulhento.
Sempre muito bem vestida e arrumada – deixava escapar um sutil perfume das
mulheres de antigamente que escondiam a luxúria, como se numa caixinha, onde,
ao se abrir; o aconhego, um ar de admiração, o charme e a elegância que acompanham
as grandes de verdade – podiam ser quase tocados como numa valsa tendo por par, a discrição. Só não o eram, tocados, para não desfazer a doçura do semblante – quase uma
marca que dona Edir trazia consigo.
Difícil crer que poderia haver algo superior – muito mais, por trás daquela
fantástica mulher, de aparência quase frágil, como era possível notar num Baile
da Sobremesa no Clube do Comércio, ou à saída ao final de uma das missas na
catedral São José aos domingos pela manhã, quando raios do sol lhe pareciam cair e iluminar mais que bem – para si.
Pois, dizia, difícil crer que uma mulher assim tornar-se-ia ainda mais
fantástica ao abraçar com tudo que tinha e era – uma ‘Obra’ como ‘O Lar da
Criança’ onde tudo sempre necessita ser reposto. E se uma coisa não pode
faltar, por um dia sequer, é carinho, é presença, é mão estendida, é amor –
especialidades dessa grande mulher.
Longe de qualquer comparação, não obstante, me vem à lembrança, uma frase, um
conceito que se credita à Madre Teresa de Calcutá, como palavras suas: “Menos
lábios – mais mãos”. E, talvez nesta máxima, dona Edir virou ‘mãe Edir, tia
Edir...’ de um, dez, cinquenta, ou conte-se quantas dezenas se queira acrescentar ao
longo de quase 40 anos de comprometimento com essa causa que se coloca no altar
mais elevado, mais puro e santo, dentre todos que se possa homenagens render.
Há algum tempo saiu um livro sobre as 100 maiores personalidades de Erechim
– onde é resgatada, de forma objetiva pelo grande historiador Enori Chiaparini, a história de cada uma delas. Há pouco
tempo saiu outra obra sobre as mulheres de Erechim. Em ambas – encontramos
pessoas de feitos memoráveis para edificação desta terra. E isso é positivo,
pois em assim sendo, a história não desmaia em ‘definho’ pelos cantos da vida.
Sob este particular, observe-se a participação da Academia Erechinense de
Letras, no livro das mulheres, onde ali também está breve histórico da dona
Edir.
Como somos impotentes para mudar o curso dos fatos já ocorridos, diria ao dr. Jorge,
mesmo sentindo a dor da ausência da “minha namorada” ou "mãe" - como acostumou-se a
tratar ‘sua Edir’ por cerca de 70 anos – que resigne-se, juntando afagos de
seus filhos e netos, companheiros de Lions e amigos, resigne-se junto a Deus –
ao Criador como gosta de mencionar e, eleja o sofá agora vago, como um um templo
a expor não tão somente a lembrança da sua ‘eterna namorada’, mas que
identifique também ali a obra que a esposa Edir, a mãe Edir, a Edir vó, ou
simplesmente tia Edir ajudou a plantar, construir e manter – com dezenas ou centenas
de ramos que hoje adultos, um dia crianças que por lá passaram.
O tempo não fará parada e avançará sobre si mesmo.
E, um dia – chegará o dia -, onde Edir Bisognin Goelzer será vista, tratada e reconhecida
como uma lenda. Quem viver, verá.
Eu que não estarei mais aqui para tanto, já me antecipo e reconheço já hoje, nesta singela homenagem - esta
meiga, discreta e notável mulher – como uma lenda.
O tempo é inexorável.
Assim também a separação.
O adeus é para todos.
Privilégios são para poucos.
Dona Edir agora está nos braços de
Nossa Senhora do Desterro.