A essas alturas o que importa é ser
companheiro
(27 – 9 – 2006)
Dona Nina quando desceu do Corcel II, foi logo pedindo as chaves do apartamento para o marido. Seu Armindo espichou o que deu a perna direita apertando fundo o pé no freio, para que a mão entrasse no longo bolso da calça frisada.
Apalpou a carteira polpuda de documentos e papeizinhos, passou por dois bilhetes do jogo do bicho, se desvencilhou do chaveiro da empresa e do lenço cinza, até que conseguiu arrancar a chave da casa para fora do bolso. Na manobra, forçou demais o costado e o banco do Corcel II fez crec, quebrando a tranquinha que regula o assento. Que... que essa, essa... tinha de pedir as chaves?! – praguejou em silêncio. Mas era normal – afinal as chaves estavam com ele. Ainda esfregou o dedo que lhe doía – pois ao forçar a retirada da mão do longo bolso da calça frisada – enroscou a grossa aliança de fio cortante - que lhe provocou um vergão no anelar.
Dona Nina ao sair do carro já foi avisando: ‘não te demora Negro (forma carinhosa como dona Nina habituou-se a chamar seu amado e ele gostava disso), porque eu vô já tomá café. Hoje quero me deitá cedo!’, e desapareceu no corredor.
Seu Armindo ainda foi conferir por vício a caixa de luz, a torneira geral do prédio e deu uma olha nos latões de lixo. Juntou uns saquinhos que a vizinhança mal cuidada atirara num canto, e colocou-os direitinho, lado a lado no reservatório grande de lixo. Que barbaridade – gente porca, praguejou.
Quando chegou ao apartamento a porta estava aberta, e a sua Nina já havia esparramado sobre um canto da mesinha da cozinha, pão, margarina, doce de uva, salame, queijo de colônia, café e leite. Também dispôs umas bolachas que comprara na feirinha do Mato da Comissão.
Dona Nina passava a margarina no pão e já ia com a mesma faca no pote de uva. O que sobrava ela lambia, enquanto seu Armindo fora ao banheiro tirar a água do joelho, como tinha o hábito de dizer. Lavou as mãos, viu que o anelar tinha inchado um pouco e avermelhado, e quando chegou à mesa, dona Nina já estava à frente da televisão para Cobras & Lagartos da qual não perdia capítulo. Aliás – de novela nenhuma perdia nada.
Seu Armindo fechou a porta, pois não que não suportasse a novela, mas o que ele não aguentava mais eram os palpites desastrados da esposa, algo que lhe martelava a cabeça e amassava a relação, afinal havia 44 anos juntos.
Ele fechou a porta, ligou seu rádio e foi ouvir o Amilton Drews – bem melhor que a Nina na novela – respirou aliviado.
Na cozinha seu Armindo espichou para ficar o que deu, arrumando desculpa atrás de desculpa para a companheira que de três em três minutos o chamava para a sala. ‘Negro... ô negro... vem vê o que o Foguinho tá aprontando!’, dizia ela, não, dizia é pouco; gritava a Nina lá da sala, entre uma e outra risada pra vizinho nenhum botar defeito – e tratar de trancar portas e janelas.
Meia hora depois, Nina irrompeu na cozinha! ‘Tá começando o jornal!’, disse, e logo foi tirando a mesa. Enquanto ela se ajeitava em torno da pia para lavar as duas xícaras, colherinhas e facas – seu Armindo sumiu na contramão com seu radinho em direção à TV.
- Negro, ô negro... gritou ela de novo lá da cozinha. ‘Eu ainda vô torcê umas ropa!’, o que encheu de alegria seu Armindo enquanto escutava o Atlântico contra a ACBF e acompanhava o Chico Pinheiro que faz o JN aos sábados. Tudo sem a veterana companheira por perto.
Dona Nina demorou-se como de hábito, porque ao lavar a louça, limpar a pia e torcer algumas roupas, decidiu botar a mão nas batatas já cozidas para a maionese de domingo – trocando o JN para estar livre em ‘Páginas da Vida!’.
Seu Armindo, só,
na sala; era um homem tranquilo e feliz naquele momento. Não por ser ela, mas
pelo jeito que não caía mais nas emoções do homem, agora, simplesmente ‘companheiro’.
Depois do jornal veio outra novela, e veio também, dona Nina. Ela ajeitou as ancas descaídas de celulite no lado direito do sofá, como sempre, afundado de tantos assentos; enquanto que seu Armindo foi se desculpando, com um ‘eu já volto!’.
- Aonde é que tu vai agora Negro! Vê se sossega num lugar, reclamou a companheira. Seu Armindo queixou-se que talvez o salame pudesse estar meio estragado e que precisava ir ao banheiro. Levou junto o rádio – e lá ficou ouvindo o Amilton e os ‘nossa! Virgem - Nossa Senhora de Fátima!’ da companheira que se emocionava e torcia com mais um capítulo inédito e quente de ‘Páginas da Vida!’.
Controlando o tempo, mais que outra coisa, seu Armindo deu descarga para nada – e Santo Deus, pensou, onde haveria de se enfiar agora?! ‘Tá melhor agora negro?’, gritou a sua companheira, que logo emendou uma risada como ainda não dera naquele sábado! Aiaiaiaiaiai, pensou seu Armindo, que só desviou o pensamento porque o Amilton acabara de gritar gol do Atlântico, mas, infelizmente, restavam apenas 23 segundos... e então, depois, o que haveria de fazer?!
-
Negro, toma uma Olina... pega aí na despensa que tu vai vê
que vai te fazê bem, gritou outra vez a companheira, e quando seu Armindo
preparava-se para mentir que estava melhor (até porque não tinha nada!), tocou
o telefone.
Dona Nina pegou o sem fio e desviou a atenção da televisão. Só a sua Bea, com os netos, Jonathan e Maicon para tirar-lhe olhos e ouvidos da novela. ‘Sim já tô cás batata descascada. Não precisa trazê nada... só se o Benhur (o genro) quiser uma sobremesa diferente – só tem creme e sagu amanhã (como sempre) -, e o resto nós temo aqui. O pai vai bem cedo pegá refrigerante e o vinho dele... Vê se não vem muito tarde’, emendou, ordenou e reclamou dona Nina.
Quando desligaram o telefone já entrava no ar Zorra Total! ‘Senta aqui Negro – vamo dá umas risada e depois vamo se deitá porque amanhã a Bea vem mais cedo côs piá!’. Seu Armindo apanhou as chaves do carro penduradas no chaveiro de parede na cozinha e desconversou dizendo que achava que havia esquecido de trancar o Corcel II – ou deixado os faróis acesos.
‘Se tu demorá eu vô me deitá - ói!’, lembrou dona Nina, o que fez seu Armindo melhorar o astral. ‘Ainda bem... Graças a Deus!’, enquanto batia a porta em direção ao seu Corcel que tinha certeza estar trancado. Ademais – pensou -, e se não estivesse! - quem haveria de querer levar o seu carro, se é que pegaria no arranque.
Lá embaixo seu Armindo ficou tentando as portas num faz de conta – caso alguém o observasse e depois confirmasse à esposa. Encontrou um paninho para limpar os vidros e assim foi ficando 5, 10, quase 15 minutos – até que viu-se obrigado a subir porque nada justificaria tanto tempo assim para ver se o Corcel estava ou não estava trancado. Os faróis tudo desligado. Tudo em ordem - como já o sabia.
Na volta passou pelo 7º andar, onde morava ela, a sua paixão de sábado passado lá no Seminário de Fátima. Ele, por instinto, apertou o sete e quando o elevador parou, abriu a porta e ficou uns 40 segundos no escuro, só; pensando... Nossa Senhora de Fátima... ela está aí dentro, atrás dessa porta... tão perto e tão distante de mim... quando ouviu a voz da companheira lá do nono: ‘Negro!... ô Neeeeegro... aonde tu anda? Apaga as luz que tô indo me deitá!’ e blaaaammm, fechou a porta.
Seu Armindo subiu pela escada os dois andares até o seu apartamento, o 909, entrou, colocou as chaves do Corcel II no chaveiro e sentiu um mau cheiro na sala. Só podia ter sido ela, a velha companheira com seus hábitos irrecuperáveis a infetar o ambiente. Mas ele já estava acostumado – e no fundo -, estava menos aflito do que quando chegara em casa, pois o pior, pensava, já tinha passado naquela noite de fim de semana.
Depois de meter-se em seu pijama listrado, seu Armindo depositou seu relógio de pulseira de metal sobre o cômodo lateral. Percebeu que dona Nina estava com seu copo com água ao lado da cama – onde a ponte móvel que usava, descansava. Dona Nina rezava a dezena do terço. Logo a seguir ela repetiu o que dizia há anos todas as noites: ‘Negro... vamo descansá. Amanhã vem a Bea e os neto... E agora quem não tá boa sou eu... Acho que o salame também me feiz mal. Até dor de cabeça tá me dando...’, e virou-se dando a corcunda para o seu companheiro há 44 anos. Era mentira – sabia seu Armindo -, mas que alegria ver a companheira adormecida. Ele esticou o braço em direção ao fio que descia pela parede e desligou a luz. Boa noite – disseram quase juntos, os dois.
Mas ele logo levantou-se à procura os chinelos. “O que que tem Negro – ainda o salame te incomodando?”, virou a esposa. ‘Nada, nada disse seu Armindo. Tu não táva dormindo?’. Foi até a pia do banheiro e ensaboou bem as mãos, tentando tirar a aliança. Mas que nada. Quanto mais tentava – mais o anelar ficava vermelho e inchado. ‘Dessa aqui eu não vô consegui me livrar tão cedo’, pensou e balbuciou: ‘acho que é pra vida toda...’ e voltou tateando no escuro com as mãos - a ponta da cama para então se acomodar com a aliança a lhe latejar o dedo.
‘Que vida!’, pensava seu Armindo, mas no fundo não lhe havia raiva ou desamor pela companheira, porque, bem o sabia, era apenas o peso da rotina, dos anos, das décadas, das mesmas coisas. A vida tinha se acomodado. Mas será que assim haveria de viver o resto dos seus dias? E a vizinha do 7º andar, se ela lhe atiçava todos os atiços era por que ele ainda estava vivo, e com vigor, se conformava. Mas o que haveria de se fazer, se os seus dias e as suas noites pintaram-se de incolor a gosto de chuchu! Assim devia ser com todos que conhecia - se conformava. Só lhe sobrara a rotina da Nina, a alegria da filha, dos netos, e ela, a vizinha com quem nunca trocara sequer um bom dia, um ‘oi’, embora ela lhe fizesse tocar a vida, com algum sabor, em frente.
Assim também tem sido também a campanha política de 2006. Ela não tem cor. Não tem sabor. Não há ar de esperança, nem ânsia de vingança. Só se quer que ela venha logo, para que logo se vá. Ganhe quem ganhar – nada haverá de mudar na vida de quem realmente precisa de um novo porvir, de um novo alento, de um novo ânimo.
Ah, e se a campanha eleitoral de 2006 tivesse ao menos netos ou uma vizinha alta, bonita, de pernas longas - que vestisse saia negra e justa, que calçasse saltos, uma vizinha de braçinhos crispados de pelinhos, uma vizinha discreta, porém insinuante; uma vizinha de corpo firme, de aparência independente e cheia de mistérios... Uma vizinha que justificasse todas as tentações, sem o que, tudo o mais seria puro e só, companheirismo a essas alturas do campeonato da vida. E no fim de todas as contas – isso também conta, afinal, tem algum barulho dentro de casa, tem alguém para ‘ter de ouvir’ - tem alguém que pode nos indicar, mesmo quando mentimos, onde se encontra a Olina.
Obs: Nomes fictícios. A história – nem tanto.

