sábado, 17 de janeiro de 2026

Nelly - vive!

 

 

Nelly Therezinha Todeschini Cantele

Neste sábado do verão de janeiro de 2026, a pena da Nelly, da dona Nelly, da senhora Nelly, da poetisa Nelly, da Nelly da Academia Erechinense de Letras – da Nelly, que ao meu pouco qualificado conhecimento sobre esta arte tão profunda, com seus encantos e encobertos mistérios enfeitados de beleza e doçura – saiu de seus dedos e descansou. Como disse – entendo pouco sobre poesia – mas na minha sincera observação – a Nelly foi, e sempre será em algum sentido, em pele, alma e espírito - a própria poesia desta cidade.  

Pois, neste mundo da poesia que é para poucos, a obra da Nelly se acomoda na prateleira mais alta entre os erechinenses afortunados pelo dom. E assim, ela e os seus poemas ficarão para deleite de quem aprecia e se alimenta de versos elegantes e intrigantes – desta arte bela por seus mistérios, por suas entrelinhas desconcertantes, por seus versos quase sempre envoltos de um ar ‘não aparente’, do desconhecido, discreto e quase quieto – mas sempre doce por seu todo. Da primeira à ultima palavra. Enquanto ser humano - Nelly foi seu melhor poema. O poeta não morre - sobrevive nos seus versos. Nelly - vive!

 

    

 

 

 

domingo, 9 de novembro de 2025

Jerzy Daniel Cieslak – um gigante!

 

 


Às 9h30min da quinta-feira (6/11) levaram o Daniel. 

O Danielão.

O carro fúnebre seguiu pela BR 153 até encontrar o Cemitério da Escola Branca.

Ele nasceu naquela comunidade há 82 anos.

Foi zagueiro que o Internacional não tem hoje.

Centroavante não se criava na área do Daniel.

Nem na Escola Branca, nem no Altântico, nem no 14 de Julho, nem no Corinthians de Santa Cruz, nem no Cruzeiro, nem no Avenida, nem no ‘futebol de salão’. Foi campeão universitário metropolitano, estadual e brasileiro pela Ufrgs/Esef. Ajudou a fundar o CMD, atuou como árbitro e fez palestras em escolas e clubes sobre o desporto, conduta e caráter.

Na cerimônia religiosa de despedida cantaram do padre Zezinho ‘Senhor, quem entrará no Santuário pra Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração puro/Quem não é vaidoso e sabe amar...’.

Aí pensei: ‘mas o Daniel abriu canelas com sua chuteira 44, e com os punhos, reagiu a desaforos contra seu Atlântico.

Me falou de uma história onde, tendo perdido um Atlanga no campo – ao ser gozado no bar depois do jogo -, empatou e virou a partida. Seu adversário ainda anda ainda hoje pelas ruas. Então suas mãos não são limpas..!’.

Mas o cântico não tem nada a ver com uso das mãos em supostas agressões gratuitas. Daniel sempre foi um pacifista. Um pacifista com limites. E ele sabia como poucos a divisa das fronteiras.

E logo me dei conta: a prece cantada do padre Zezinho ‘mãos limpas/coração puro’, não é sobre amor de carne e osso e muito menos sobre sujeira na palma ou nos cinco dedos.

É sobre integridade moral, sobre pureza de intenção, sobre retidão. É sobre... caráter.

Quem conheceu o Jerzy Daniel Cieslak, ou Danielão; homem ou mulher, criança ou idoso, desportista ou político, familiar ou parente, vizinho ou amigo – é testemunha de que estamos diante de um ser humano de caráter inatacável e exemplar.

Um ser humano de um coração igual aos seus 105 quilos (chegou a 130), pé 44 e 1,89 metro de altura. Em 9 de dezembro faria 83 anos.

Ele, a esposa Roselane (falecida) e os filhos Tiago (falecido), Daniela e Rafael moraram por anos na Jerônimo Teixeira. Éramos vizinhos de janela. A ‘Rose’ passava tardes com minha mãe.

Um dia ele conseguiu comprar um terreno e fazer uma bonita casa na esquina próximo ao presídio, onde passou a morar por muitos nãos até fechar os olhos para sempre.

Quantas vezes levantou sua voz e levou às autoridades seu pleito de preocupação com a casa prisional onde ainda se encontra... Em mais de 30 anos nunca teve retorno. Morreu tendo por vizinho a Casa Prisional.

Por 15 anos fomos colegas no JB. Eu em sala de aula e ele como recepcionista/atendente e uma espécie de ‘fiscal’ dos corredores da escola. Para mim – porteiro, vigia, segurança. Hoje dizem - inspetor de escola. Quem sabe, recreacionista.

Quantas vezes, no recreio à noite, ambos fumando na portaria, ele deixava algum aluno escalar sobre o muro até... e... “escuta... sim, tu mesmo... aonde tu ia. Pra casa? Pelo muro? Que cinema que nada. Volta aqui... Na, na, na - não. Que nada. Já lá pro pátio”. Alguns o ‘tio Dani’ conduziu pelo braço.

Hoje, imagino que figuras como o ‘tio Dani’ não teriam mais vez. Talvez só lhe restasse atuar na Educação Física, titulação do magistério que obteve ainda jovem na Ufrgs e Esef (Escola Superior de Educação Física) em Porto Alegre.

Como era bom quando dava o último sinal às 22h50min. Mais cinco períodos que se foram. Mais uma noite. Uma semana. Um ano. Descida abaixo pela Nelson Ehlers em direção ao Atlântico e aí às nossas casas. Quantas vezes ficamos de papo sempre sobre futebol e política até meia noite...

Daniel foi até goleiro. Arquivo/Família

O Daniel foi um grande atlantista. Um dos maiores que conheci. Jogou na zaga do verde-rubro e dirigiu o time. Na verdade foi de tudo um pouco. Dirigente, fisicultor, treinador... Transitava livre e com desenvoltura pela Baixada. Quando precisava fazia massagens ou ia buscar algum contratado.

Como técnico disputou dois Atlangas em 1971, ambos no Colosso da Lagoa. Derrota de 2 a 1 em 10 de setembro, quando a direção tentava montar uma equipe com vários nomes de atletas amadores. Em 31 de outubro, vitória, acabando com um tabu que vinha desde a inauguração do Colosso. 1 a 0. Gol do lateral Euclides.

Em 1977 o Atlântico parou com o futebol. Em 1981 a direção formou às pressas uma equipe semi-profissional para atender convite na ‘Taça Cinquentenário de Carazinho.’ Quase com 40 anos e uma barriga de treinador, acabou jogando no miolo da zaga verde-rubra. Foram dois Atlangas. Um 0 a 0 no Colosso e outro 1 a 1 na Baixada. No empate do Colosso a torcida do Atlântico arremessou dois galos vivos por cima do alambrado quando o time pisou no gramado.  

Em 1992 quando Atlântico FC tentou ressuscitar no ‘Bosque do Galo’ – o Danielão entrou de cabeça no projeto. Ajudou no que pode e virou treinador do time. Amargou o testemunho de ver o projeto apagar-se como uma vela que vai queimando até o fim.

Liderou uma vaquinha junto ao grupo atlantino para levantar dinheiro, que garantiu a festa de casamento de um afamado centroavante verde-rubro, segundo ele me contou.   

Mas, o meu amigo tinha outra paixão. A política. Ou melhor: a política e o PDT. Sempre trabalhista. Aos 20 anos carregou a bandeira do PTB de José Mandelli Filho.


Até onde sei ou me lembre, sempre votou em Luiz Francisco Schmidt. Foi de Antonio Dexheimer, a quem admirava, em 1992 por que Schmidt era o vice.

Como forma de contribuir com os candidatos às instâncias superiores, concorreu inúmeras vezes a vereador pelo PDT. Nunca se elegeu – mas vitoriou-se com Schmidt, em 1992, 1996 e 2016 - então no PSDB.

Nunca ouvi ele falar ‘odiosamente’ dos governos Eloi Zanella, Jayme Lago ou Paulo Polis. Mas – nunca ouvi dele, manifestações favoráveis a seus governos. E a razão era simples. Ele tinha lado. E o seu lado era o outro.

Da última vez que falamos, em sua casa, há 15 dias ele alertou: ‘José Adelar Ody (saudava com pronúncia aguda no y)’. Puxando uma cadeira e escancarando as portas – “tu tá acompanhando as pesquisas? Olha... vai dar a minha candidata. Já tô em campanha... Óóóó... vamos ganhar a eleição!’ – referindo-se à Juliana Brizola ao governo do estado em 2026.

Pois é.

Levaram o Daniel agora, nessa quinta-feira, para deixá-lo junto à sua esposa ‘Rose’ e o filho Tiago, que já descansam lá no Cemitério da Escola Branca.

Me pergunto: ‘Como assim. Levar uma obra?

A sua história?

A sua paixão pelo Atlântico?

A sua paixão pelo PDT?

Pelo trabalhismo?

Pelo jogo do bicho?

Como podem sepultar seu sentimento anti-PT?

Sua posição de indiferença ao rival – o Ypiranga?

Não – isso tudo ficou por aqui... na cidade, na Escola Branca, no JB ou no porão da casa onde recebia de manhã ou à tarde, com educação e atenção cavalheiresca; seus amigos ou quem apenas quisesse ali fazer hora, bater um papo, jogar conversa fora ou mostrar um dedo destroncado.

O Daniel cultivou o hábito de uma espécie de atendente de ‘primeiros socorros’. Volta e meia recebia alguém com ombro deslocado, joelho dolorido, calcanhar inchado – enfim... Suas mãos e dedos, e seus óleos; ajudavam quem podia e jamais o vi fazer qualquer preço. Eram massagens corretivas. Certa feita relatei ao acaso dores nas pernas. Quando saí ele pegou uma garrafa pet de dois litros, dobrou-a quase em ‘V’ e mandou que enchesse de água e deixasse no congelador. ‘Quando atacar – coloca a garrafa em cima’. Pois é – bingo. Seu prazer estava na ajuda, e felicidade ao ouvir (da maioria), que tinham melhorado ou resolvido. Coisa de coração – do padre Zezinho.

Um homem que saiu da colônia.

Um homem de família grande.

Um homem que foi atrás de uma formação.

Um homem de princípios, mãos limpas e coração gigante - nos quase 50 anos de amizade que tivemos – foi um sujeito com seus equívocos circunstanciais ou de época, como o prazer que dividimos pelo copo e, depois, igualmente na sobriedade; mas voltado a contribuir para que o seu entorno ou ambiente – sempre fosse o melhor possível. O melhor possível para todos.

O Daniel passou pela perda um filho, já moço, para um câncer.

Perderia a esposa.

Saiu do aluguel para sua casa própria.

Leitor voraz de jornais.

Telespectador e ouvinte de rádio, igualmente apaixonado.

Notícias, interpretações e opiniões, eram seu chão.

Ouvinte paciente e concentrado.

Não tinha pressas.

Adorava conversar.

Quando chegava no meio da tarde, chamava ‘Rafaaaaa – vai fazer um joguinho pra mim’. E podia contar: era o número da placa do meu carro, ou da minha casa ou algo a ver com quem pisou no seu pátio. Qualquer sonho, recorria à interpretação numérica, e lá se ia algum na cabeça ou do primeiro ao quinto. Isso sem contar as loterias de todas as ordens. Até onde sei – a sorte em apostas lhe negou sorte. Mas, era o prazer.

Capaz de conviver de modo surpreendente com o contra-ponto em todas as áreas da atividade humana, especialmente nas mais apimentadas como política e futebol, o Daniel, foi sobretudo um sujeito muito, mas muito inteligente. Não para ganhar dinheiro fácil, não para negócios, não para comércio e, muito menos para lucrar em cima de qualquer ilegalidade.

O Daniel era mestre em ‘ler’ feições e posturas. Pegava as coisas no ar, como se diz de alguns poucos com tal talento, e isto, é uma virtude que pessoalmente aprendi a respeitar por demais – especialmente na vida profissional. O Daniel tinha isso.

Dono de um bom humor, quando queria - flertava entre a irreverência e a ironia, com tiradas certeiras, impensadas e espirituosas – próprias de alguém com inteligência acima da média. Sabendo quando era compreendido, numa ironia proposital - deixava escapar uma risadinha ainda mais provocativa ou soltava aos ares uma gargalhada, digamos, assim do seu tamanho.     

Levaram o Daniel às 9h30min da quinta-feira.

O dia estava claro como os princípios, as idéias e ações dele.

O sol se fazia queimando.

Assim como sua paixão pelo futebol e pelo Atlântico.

Pela política e pelo trabalhismo.

E assim como um corpo que se deixa em sua última morada, quando falece e teu tempo de vida nesta terra se acaba – bem assim, a sua obra e a sua história, entre todos aqueles que o conheceram e com ele de alguma forma e tempo conviveram, permanece e como tal através dos tempos - só se fará maior.

Na reta final de seus dias de ‘pó em pé’, largou o cigarro e ganhou a atenção dos seus mais próximos. Seu filho, Rafael, que vem abraçando a profissão de ‘Cuidador’ – mais que cuidar do pai, foi seu assistente em casa ou no hospital – no banho, nas refeições e na administração dos medicamentos. Foi presença física e companhia afetiva. Foi ouvido, boca e espírito. Assim como sua filha Daniela, genro e netos.

Por derradeiro, e deixo isso de propósito, para quem sabe sublinhar a maior virtude do meu amigo – no meu entender: O Daniel jamais - jamais deixou de dizer o que pensava. Não mandava dizer. Não pegava trajetos mais longos para fazer chegar o que pensava - por vias transversas ou tortas. Escondido. Não. Sua posição, seu pensamento, sua reação ou sua opinião – ele mesmo a comunicava. Podia-se não concordar – mas ele a dizia. E a defendia. E digo isso, sem dar a conotação que agia assim, como alguém reacionário ou agressivo. Nada disso. Mesmo que sua figura grande, às vezes de cabelo ou barba por fazer e bigode por aparar - o Daniel sabia das coisas, onde se encontrava, e era polido na fala. Na defesa do que entendia certo – era respeitoso. Quando convencido – mudava.

Em tempos onde a clareza e a sinceridade parecem morrer, a cada dia um pouco, disfarçadas dentro das fantasias das falsidades, que andam desfilando e ditando modas nas mais diferentes passarelas da vida em sociedade, pois isto; o dizer o que se pensa – sem ofensa, de modo respeitoso e sincero, claro e sereno, mesmo se sabendo ‘voto vencido’, soa como algo estranho. No mundo das relações humanas – quase uma benção.  

Última visita que fiz ao meu amigo

Integridade moral, pureza de intenção e retidão. Um sujeito de princípios e caráter. Um cidadão acima da média – que merecia ser melhor reconhecido pelo menos no seu adeus – especialmente a quem tanto dedicou. Esta lacuna não foi preenchida como devia. Que o tempo lhe faça este jus.

‘Senhor, quem entrará no Santuário para Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração puro/Quem não é vaidoso...’.

Levaram o Daniel... 82 anos depois - de volta à Escola Branca.

Sua obra ficou - habita entre nós.

Jerzy Daniel Cieslak – um gigante!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

Dos figos do tio José à descendência Ody

 

Da semente dos avós Mathias e Ana Catarina, o tronco dos Ody de Sede Dourado.


José, Aloísio, Augusto, Alberto, Pedro, Lino, Guido e Lauro
Maria, Ana Catarina, Imelda, Mathias e Lidvina (Vina)


Foi um sábado especial.
11 de outubro em Sede Dourado 
- no Boteco do Alemão.  
Encontro da Família Ody.
Mais de 150 descendentes deste verdadeiro 'tronco' 
que se fez pela semente dos avós Mathias e Ana Catarina.
Quantas lembranças vieram à tona.
Cada primo ou prima que encontrava, 
reavivava a memória de momentos inapagáveis.
E eu tive esse privilégio de reencontrar tanta gente querida.
Que os 'galhos' desta árvore, que são todos os que lá estiveram - exceção à tia Erica que permanece entre nós como única representante ligada ao tronco; possam levar adiante a geração 
dos Ody que, um dia, povoaram as roças de Sede Dourado.
Na organização Carlos e Delcio Ody e outros.
De minha parte entro no túnel do tempo e me transporto ao que segue, como uma homenagem a todos: de avós a pais, de tios a parentes, de primos a netos. De anteontem a ontem. De hoje ao amanhã.


1

Naquele tempo quando eu tinha de 10

a 12 anos e aos sábados ia com meus pais

para Sede Dourado onde residiam

todos os seus irmãos,

quase sempre

dormíamos no tio Guido.

De lá estendíamos as visitas.

Ora no tio Arno, no tio Pedro, 

no tio Aloísio, ora no tio João

Todos hoje residentes no céu.

Nos fevereiros como agora,

não podíamos deixar de ir no tio José,

o irmão mais velho

do meu pai.

Por vezes de Jipe ou Barata Ford, 

por vezes numa

Vemaguete ou num fusca.

Saindo da geral entrávamos numa

estradinha sem saída.

O ponto final dela

dava na casa do tio José.

À esquerda uma sanga

falava - protegida por folhas

de Costela de Adão. 


Na chegada à casa do tio

era aquela correria. 

Toda vez uma galinha

se atravessava e se metia embaixo

do carro e saía perdendo as penas,

cacarejando em reclamos.

O tio José

e sua esposa Suzana Brígida

(apelido de Khita ou de acordo 

com a pronúncia alemã, Khida)

tinham muitos filhos. 

Era uma alegria contagiante.

A tia Khita ou Khida (Suzana Brígida) 

era uma dessas mulheres

baixinhas, gordinhas e “elétricas”.

Fazia duas, três coisas ao mesmo tempo

e não parava de falar um minuto. 

E era só “mein Gott”,

pra cá e “mein Gott” pra lá. 

A simpatia em carne e osso. 


Na chegada logo uns dois ou três primos

e primas sumiam. Onde teriam ido!?

Um outro de espingarda  perseguia

um galo, pé por pé – pobre galo

que à noite seria nossa carne no risoto.

2

Nas cadeiras de palha em círculo

sob pés de caqui e bergamoteiras,

começavámos a ganhar pratos e facas.

Eram para os figos.

Logo os primos e primas

que tinham sumido reapareciam.

Traziam dois, três cestos de vime,

desse vime envernizado.

Cada um deles derramando figos.

Eram os figos mais bonitos que 

me lembro até hoje,

quando aqui tento revivê-los no

Youtube da minha cabeça,

reativando lembranças que

me marcaram quando criança.

Os figos “gordos” e meio “rachados”

vinham de figueiras que se

enfileiravam morro acima, costeando

o caminho que levava à roça onde só

com carroça se podia passar ou a pé.

3

Eu gosto de figo.

Sempre gostei.

Demais!

Leva um tempinho pra descascar,

mas quando bem maduro, grande e doce

vale sempre à pena.

Também gosto das folhas das figueiras.

Sua ramagem transforma-se em ornamento 

que nunca sai de moda.

E foi por aquela lembrança

dos sábados de figo na casa do tio José,

lá aonde o “diabo perdeu as botas”

na Linha Poço Grande

- é que num sábado desses de 2018 ou 2019

fui a uma dessas casas que vendem mudas

de tudo que é fruta, e achei e comprei,

uma mudinha de figueira.

Estava na calçada da revenda.

Parecia uma criancinha abandonada

à espera de 'adoção.'

Achava  difícil vingar, mas 

a vontade de rever um pé

de figo e, ainda mais, no meu pequeno lote

de casa seria como com um número só –

em cem - ganhar uma rifa.

Com o tempo a figueira meio que caiu 

no esquecimento. 

Deixei ao Deus dará, depois de plantá-la

como o vendedor aconselhara. 

Mas, tinha poucas esperanças.

4

Com o passar dos meses a figueira

pareceu querer seguir seu curso natural,

e crescer.


Tive mais sorte que juízo porquanto

a natureza fez tudo por mim,

ou pela figueira - e ela começou

a ganhar corpo e expandir-se

para os lados. 

Se fez notar até tornar-se jovial.


De criança à adolescência a figueira levou

uns três anos – mas da adolescência

à fase adulta foi um pulo.


Hoje ela é um ser vivo que respira,

se alimenta, toma muito banho de sol,

e se refresca com a chuva. Nunca se queixa

e, ainda por cima, desde o ano passado

vem ensaiando dar frutos. Imagina só.

Talvez queira retribuir quem

a recolhera numa calçada.

Eu a trouxe,

plantei e lhe dei um pouco de terra fofa.

Recém plantada não deixava passar sede e,

o resto ficou por conta do tempo e dela.

5

De outra sorte, ou azar; quando já tinha

então meus 12 a 13 anos e passava as férias

de verão em Sede Dourado, na casa

do tio Guido, num fim

de tarde fomos em quatro

ou cinco para a fileira de figueiras 

(lá também havia ) - que

ornamentava com sua ramagem e folhas

carnudas os altos de um potreiro.

As figueiras se escoravam na taipa

de pedra erguida à mão sabe-se lá quando. 

A fartura era tanta que cada um tinha

seu pé de figo preferido e, ali mesmo,

ia tirando, abrindo e comendo. 

Não precisava nem descascar

porque os figos eram tão maduros

que a casca saía com as unhas.

Era só shheeelllllléééppp, sheellléepp e 

shhheeeeeeeellllllééééééépppp!

Crianças!

6

Fora um dia muito quente.

O sol bronzeara muitos figos.

Cada um dos primos num pé e eu

no meu, escalando cada vez mais alto,

metendo a mão, o punho, o braço,

o ombro, a orelha, a cabeça por entre

aquelas folhas verdonas.

Ah... e aquele aroma das folhas.

Eu não sei por que os figos mais bonitos

se fazem mais altos.

Na ponta dos pés na taipa,

quase querendo escorregar, eu ia

puxando os galhos, as ramagens

da figueira para perto e tirando

figo por figo. Quem me tentasse ver

– se visse, me veria vestido de figueira.

Eu ia e ia. Eu tinha que chegar à copa,

porque lá estavam os figos mais atraentes.

E pra chegar era só puxando

mais e mais as ramagens para baixo,

e elas dobravam e dobravam

- mas não quebravam.

7

Puxei, puxei, puxei, a ramagem cedeu

e cedeu sem quebrar até os figões

estarem ao meu alcance.

Quando eu levei a mão para apanhar

três figos de uma vez só, Meu Deus!

Eu sei que você também vai gritar.

Ali – a dois dedos da minha mão

e a um palmo do meu rosto,

na minha cara

– uma cobra.

“Meu Deus.

Meu Deus!”

Isso – não segure. 

Grite. 

Me ajude a gritar. Eu estou ouvindo.

Ela estava na copa da ramagem

mais alta, aquela que eu havia puxado

pra pertinho de mim.

Estaria guardando os figos

ou apenas tomando banho de sol!?

Não sei.

Era grande.

Toda enrolada.

Segurando a si mesma

– mas com boa parte do seu dorso

e a cabeça toda à luz do sol.

Confundia-se com o verde escuro

das folhas,

com as folhas mais desgastadas

– queimadas pelo sol

e com o roxo escuro dos figos.


Quando apanhado por aquela cena,

a cobra pertinha das minhas sobrancelhas

– num ato instintivo

e, surpreendentemente calmo

abri a mão e a ramagem voltou

para seu lugar.

Levou consigo os figos grandes e negros

e, ela, Graças a Deus - a cobra.

Quando me dei conta e a ficha caiu

– eu já estava no chão, na soleira da taipa

A vontade e a volúpia

por mais figos desaparecera como

num choque. Nunca mais me embrenhei

em figueiras, ainda mais sobre taipas

de pedras ardidas de tanto sol.

8

Mais de 50 anos depois continuo

gostando de figos.

E mais – admiro a árvore, as folhas carnudas

e seu verde escuro.

Das ramagens então – nem se fala.

Me encanto quando um figo

está ensaiando amadurecer.

Gosto de conferir nos fins de tarde,

se um ou outro já bronzeou o suficiente.

Me aguça a lembrança vendo os pingos

da chuva fazendo barulho sobre

as folhas da figueira e o escorrer da água.

Sinto um pequeno concerto da natureza.

9

A figueirinha que levei para casa,

hoje enfeita meu pedaço de lote.

Com sua beleza, permite apreciar mais

que uma árvore

– uma paisagem inteira que se fez

lá atrás no tempo. E se por entre as folhas

da minha figueira já adulta 

me ecoa a lembrança daquele dia

aterrorizante, deleto aquela imagem e reabilito 

uma nova,

abrindo a pasta das maravilhas

inesquecíveis onde me reencontro

em memória;

com a inquietude da tia Khita ou Khida,

com o esvoaçar das penas da galinha 

que se atravessava embaixo

do carro do meu pai

e, com a doçura, dos figos do tio José.


10

No último fevereiro,

minha figueirinha decidiu me presentear

de verdade. Quem sabe por tê-la recolhida 

junto ao meio fio de uma revenda de mudas.

É claro, não são como os do tio José.

Tios José e Suzana Brígida ou - como pronunciava minha mãe - Khita ou Khida e seus 13 filhos.

Enfim, saudades daquele tempo, 

daquele ambiente. 

Dos primos e parentes.

Do meu pai e minha mãe.

Do tio José e seus figos.

Tudo se foi.

Se foi como se aquilo,

que um dia se fez real,

não passasse de pó.

O tempo soprou as páginas da vida.

Até o pânico da cobra quase roçando 

meu cílios

-  evaporou, assim como os sonhos 

que nos fazem viver durante um bom sono.

Por acaso você lembra do que

sonhou - e pode pegar qualquer noite...

Pois é. O tempo. O tempo!

Figos iguais àqueles

do tio José e do tio Guido - nunca mais.

Me conforta, não obstante,

poder tocar a minha figueira,

sentir o perfume das suas folhas, 

sorrir ao descobrir um maiorzinho

e escuro de tão maduro.

Me conforta ainda, e, por que não; 

como o tio - também sou um José.

Ambos - Ody.

Nelci, Lisete, Cecília e Lisete Eismann
Liane, tia Erica, Marelena (Meri) e Leci (Ina)

            Que bom que a gente pode se reencontrar

Vanderlei, Carlos, Leomar, Laércio (Ike) e Leodério;
Querino, Liane, tia Erica, Lisete e Leci (Ina)




 

 

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

O último café

 

Roberto (Beto) Hachmann


- Que café é esse, Enori (Chiaparini)?

- Mas não sei... hein Cacá. Que café é esse que eu e o Beto estamos tomando?

- É um Capuccino. Capuccino da casa. Bom né!

- Baahhh! - muito bom, emenda o Beto.

Eu já estava pela metade da minha água mineral com gás. Preciso controlar a glicose.

- É, Zé (como o Beto me tratava). Tu te cuida. Diabetes... Olha... Cuidado!

De repente entra o dr. Antonio (Dexheimer).

- Mas... Olha só. Que trio!

Nos cumprimentamos e ele senta-se com a filha dra. Nicole, que o aguardava.

Na mesa voltamos ao nosso assunto.

- Hein Zé, retoma o Beto e estende: começamos bem né?

Voltávamos de um encontro com o presidente do Ypiranga, Adilson Stankievicz e da residência do senhor Aníbal Morganti.

Aníbal tem 97 anos. Seu pai, José Morganti, fora jogador do Ypiranga na década de 1930.

Uma de suas filhas nos conduz até a sala onde Aníbal nos aguardava. Era 22 de julho, uma terça-feira.

Nosso encontro tinha uma razão: buscar informações e fotos inéditas sobre o Ypiranga. Nosso projeto: reviver em um livro, à base de fotos/legenda, a história do Ypiranga. 

Depois iríamos ao presidente do Atlântico, Julio Brondani.

As obras contariam com fotos de Beto Hachmann, pesquisa de Enori Chiaparini e textos (enxutos), meus.

Enquanto o Enori e eu íamos perguntando e o Aníbal lembrando - o Beto com a câmera sobre o tripé defronte ao entrevistado, registrava.

Aníbal Morganti relatou que seu pai fez uma casa onde hoje encontra-se o Centro Espírita Caminhos da Luz, na rua Polônia. Aquela casa, na parte superior serviu de concentração do time das cores nacionais na década de 1920/30 – logo depois da fundação em 1924.

Uma das filhas ofereceu café, gentileza que aceitamos.

- O do Zé sem açúcar, orientou o Beto.

A conversa sobrevoou os anos 20, 30, 50, 1970... assim como se fizéssemos uso de satélites e equipamentos, desses que vemos pela televisão, ou em filmes, quando militares de países entram em ação para localizar possíveis alvos.

O Beto ia fotografando tudo: quadros antigos da família e até, de nós, tirou uma foto. Hoje, acredito que aquela pode ter sido a última ou das últimas que ele fez.

O café estava quente e amargo, pois, sem açúcar.

Aníbal foi o primeiro ‘camaramen’ da TV Erechim no condomínio. E depois foi cinegrafista da RBS na cidade. Lembrou que na inauguração do Colosso da Lagoa, em 1970, levou a família na Rural Willys que tinha. “Na saída do estádio, onde estava a camionete? Não é que a roubaram”, contou. (Mais tarde a polícia localizaria o veículo).

O Beto quase não falava, mas atentava a tudo.

Saímos agradecidos e meio eufóricos. Estávamos começando bem.

No dia seguinte, quarta-feira, 23, recebi do Beto várias fotos que ele garimpou no seu fantástico acervo. Eram fotos sobre Ypiranga e Atlântico que eu desconhecia até então.

“Zé... achei a foto, achei a foto da casa dos Morganti onde o Ypiranga concentrava. Eu sabia que tinha essa foto. E encontrei também a foto da primeira sede do Ypiranga que foi destruída por um incêndio na rua Alemanha na década de 30...”, me avisou o Beto. Puxa – era demais!

Dia 25 o Beto mandou áudio: “Estive fora hoje. Depois comento!”.

Dias 26 e 27 não nos falamos.

- Estou formatando o projeto, quero te apresentar durante a semana’, foi a mensagem que me enviou às 14h47min. E era segunda-feira, 28.  

Na manhã seguinte, 29, no grupo da Academia Erechinense de Letras, cumprimentavam a confreira Neusa Garcez que estava de aniversário. De repente a Lucia (Balvedi Pagliosa), postou o inacreditável. Desabei no sofá na casa da minha filha, não acreditando naquele... “faleceu o Beto”.

Mas que Beto, qual Beto? 

tantos Beto! – logo me socorri.

Não podia ser o Beto do nosso projeto, o Beto com o qual eu vinha me reunindo há três semanas. Não podia ser o Beto que ao parar o carro em frente de onde moro, quando eu e o Enori o esperávamos para ir na casa do Morganti, e ao aproximarmo-nos, abriu um sorriso e... “só tem lugar pra um”. Não. Não podia ser o Beto que ontem (28) me avisou...“quero te mostrar (o projeto) durante a semana”.

Mas não.

Não – sim... era ele mesmo... 

o Beto Hachamn.

Na tarde daquela terça-feira, 29, alguém me tocou no ombro na entrada da Capela B do Hospital de Caridade. Era o Mozart Lago: “Morreu hoje, o maior artista de Erechim”.

Não vou aqui resgatar todas as obras emolduradas pelas fantásticas e históricas fotografias do Beto Hachmann.

Elas, como um sol que nasce e se põe, iluminaram livros e publicações magníficas sobre empresas, instituições, entidades de classe... sobre educação, cidades e países mundo afora.

No cinema inscreveu o seu nome em obras de Osnei de Lima.

Quase na ante-sala dos anos 2000, numa tarde de 1990, me detive como se alguém me puxasse pelo ombro, defronte ao Castelinho. O prédio símbolo sofria e gemia, com as agruras das intempéries e pelo esquecimento. Ameaçava desabar. Quase como hoje.

Procurei o melhor fotógrafo.

O Beto fez as fotos.

Elas ilustraram matérias no Correio do Povo.

As fotos, tocantes sobre o estado degenerativo do Castelinho, desencadearam uma CPI na Câmara de Vereadores.

Três anos depois, no governo do prefeito Antonio Dexheimer, o prédio seria restaurado ganhando quase uma ‘vida nova’.

Residindo na mesma cidade por décadas, minha aproximação com o Beto Hachmann ganhou musculatura há cerca de um mês.

Foi algo impressionante.

Quando o sol já se punha, à saída do Crematório Anjos da Luz, terça-feira, 29; a esposa Kéti, num longo abraço me falou: "O Beto estava muito feliz, Ody. Ele me falava que nunca tinha feito um trabalho contigo e, nos últimos dias ele estava muito empolgado".

Eu retribuí, porque havia anos que, parado por aposentadoria, ao descortínio de voltar a fazer algo que gosto e, sobretudo com um profissional renomado como o Beto – sentia o prazer de renascer dentro de mim mesmo.

Se nosso relacionamento profissional foi fugaz, não menos verdade é que - como um ‘clic’ da sua máquina – rápido e certeiro – foi também amistoso, comprometido, honesto, tranquilo e prazeroso.

Depositava nele o melhor da fotografia.

Junto ao Enori confiávamos promissora expectativa.

Não sei se daremos continuidade ao projeto.

O que eu sei é que desfrutei e vivi nas últimas semanas, dividindo cara a cara em mesas de café – algo como fotogramas de luz, inspiração e confiança -, planos e bate-papos com um sujeito educado, ético, inteligente, receptivo, criativo e apaixonado pelo que fez, como talvez ninguém em sua área, nesta cidade.

Um profissional de elite.

Um ser humano – humano, quando o termo se pretende contemplado e civilizado -, de princípios e, como a maioria dos artistas, com uma alma extremamente sensível.

O que eu sei é que no ainda recente 22 de julho, felizes e empolgados – tomamos um café na Cacá.

Ocorre-me agora: parecíamos três iniciantes, ‘loucos’ para fazer acontecer, ‘bêbados’ diante de um desafio que sabíamos – tínhamos plenas condições de fazer, e fazer bem. Muito bem.

Depois de bons 40 minutos, instintivamente, levantei da cadeira e pedi a conta.

O Beto e o Enori reagiram: “Baahhh... mas o que é isso Ody... deixa que nós pagamos. Vamos dividir”.

Lembrei do áudio que o Beto me mandou dia 8 de julho às 18h55min sobre o trabalho que iniciávamos:

“Zeca,... Zé... eu tô indo... amanhã eu vou tá com o meu dia assim... fechando uns trabalhos pra levar lá (se não me equivoco falou algo sobre São Paulo) quinta-feira né, vou ter ainda trabalho para terminar... é um evento bem grandioso, depois vou te falar. Mas nós podemos fazer os dois juntos, tranquilamente... na volta falamos... só pra te dá mais um toque assim... que realmente é Atlântico e Ypiranga...e... beleza guri!

Abraço...até...

e tu vai pagar o próximo café, tá...” risos.

O nosso próximo café estava pago.

O último café.

Nota: Roberto Hachmann (Beto) - faleceu na madrugada de terça-feira, dia 29 de julho, aos 70 anos.