domingo, 9 de novembro de 2025

Jerzy Daniel Cieslak – um gigante!

 

 


Às 9h30min da quinta-feira (6/11) levaram o Daniel. 

O Danielão.

O carro fúnebre seguiu pela BR 153 até encontrar o Cemitério da Escola Branca.

Ele nasceu naquela comunidade há 82 anos.

Foi zagueiro que o Internacional não tem hoje.

Centroavante não se criava na área do Daniel.

Nem na Escola Branca, nem no Altântico, nem no 14 de Julho, nem no Corinthians de Santa Cruz, nem no Cruzeiro, nem no Avenida, nem no ‘futebol de salão’. Foi campeão universitário metropolitano, estadual e brasileiro pela Ufrgs/Esef. Ajudou a fundar o CMD, atuou como árbitro e fez palestras em escolas e clubes sobre o desporto, conduta e caráter.

Na cerimônia religiosa de despedida cantaram do padre Zezinho ‘Senhor, quem entrará no Santuário pra Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração puro/Quem não é vaidoso e sabe amar...’.

Aí pensei: ‘mas o Daniel abriu canelas com sua chuteira 44, e com os punhos, reagiu a desaforos contra seu Atlântico.

Me falou de uma história onde, tendo perdido um Atlanga no campo – ao ser gozado no bar depois do jogo -, empatou e virou a partida. Seu adversário ainda anda ainda hoje pelas ruas. Então suas mãos não são limpas..!’.

Mas o cântico não tem nada a ver com uso das mãos em supostas agressões gratuitas. Daniel sempre foi um pacifista. Um pacifista com limites. E ele sabia como poucos a divisa das fronteiras.

E logo me dei conta: a prece cantada do padre Zezinho ‘mãos limpas/coração puro’, não é sobre amor de carne e osso e muito menos sobre sujeira na palma ou nos cinco dedos.

É sobre integridade moral, sobre pureza de intenção, sobre retidão. É sobre... caráter.

Quem conheceu o Jerzy Daniel Cieslak, ou Danielão; homem ou mulher, criança ou idoso, desportista ou político, familiar ou parente, vizinho ou amigo – é testemunha de que estamos diante de um ser humano de caráter inatacável e exemplar.

Um ser humano de um coração igual aos seus 105 quilos (chegou a 130), pé 44 e 1,89 metro de altura. Em 9 de dezembro faria 83 anos.

Ele, a esposa Roselane (falecida) e os filhos Tiago (falecido), Daniela e Rafael moraram por anos na Jerônimo Teixeira. Éramos vizinhos de janela. A ‘Rose’ passava tardes com minha mãe.

Um dia ele conseguiu comprar um terreno e fazer uma bonita casa na esquina próximo ao presídio, onde passou a morar por muitos nãos até fechar os olhos para sempre.

Quantas vezes levantou sua voz e levou às autoridades seu pleito de preocupação com a casa prisional onde ainda se encontra... Em mais de 30 anos nunca teve retorno. Morreu tendo por vizinho a Casa Prisional.

Por 15 anos fomos colegas no JB. Eu em sala de aula e ele como recepcionista/atendente e uma espécie de ‘fiscal’ dos corredores da escola. Para mim – porteiro, vigia, segurança. Hoje dizem - inspetor de escola. Quem sabe, recreacionista.

Quantas vezes, no recreio à noite, ambos fumando na portaria, ele deixava algum aluno escalar sobre o muro até... e... “escuta... sim, tu mesmo... aonde tu ia. Pra casa? Pelo muro? Que cinema que nada. Volta aqui... Na, na, na - não. Que nada. Já lá pro pátio”. Alguns o ‘tio Dani’ conduziu pelo braço.

Hoje, imagino que figuras como o ‘tio Dani’ não teriam mais vez. Talvez só lhe restasse atuar na Educação Física, titulação do magistério que obteve ainda jovem na Ufrgs e Esef (Escola Superior de Educação Física) em Porto Alegre.

Como era bom quando dava o último sinal às 22h50min. Mais cinco períodos que se foram. Mais uma noite. Uma semana. Um ano. Descida abaixo pela Nelson Ehlers em direção ao Atlântico e aí às nossas casas. Quantas vezes ficamos de papo sempre sobre futebol e política até meia noite...

Daniel foi até goleiro. Arquivo/Família

O Daniel foi um grande atlantista. Um dos maiores que conheci. Jogou na zaga do verde-rubro e dirigiu o time. Na verdade foi de tudo um pouco. Dirigente, fisicultor, treinador... Transitava livre e com desenvoltura pela Baixada. Quando precisava fazia massagens ou ia buscar algum contratado.

Como técnico disputou dois Atlangas em 1971, ambos no Colosso da Lagoa. Derrota de 2 a 1 em 10 de setembro, quando a direção tentava montar uma equipe com vários nomes de atletas amadores. Em 31 de outubro, vitória, acabando com um tabu que vinha desde a inauguração do Colosso. 1 a 0. Gol do lateral Euclides.

Em 1977 o Atlântico parou com o futebol. Em 1981 a direção formou às pressas uma equipe semi-profissional para atender convite na ‘Taça Cinquentenário de Carazinho.’ Quase com 40 anos e uma barriga de treinador, acabou jogando no miolo da zaga verde-rubra. Foram dois Atlangas. Um 0 a 0 no Colosso e outro 1 a 1 na Baixada. No empate do Colosso a torcida do Atlântico arremessou dois galos vivos por cima do alambrado quando o time pisou no gramado.  

Em 1992 quando Atlântico FC tentou ressuscitar no ‘Bosque do Galo’ – o Danielão entrou de cabeça no projeto. Ajudou no que pode e virou treinador do time. Amargou o testemunho de ver o projeto apagar-se como uma vela que vai queimando até o fim.

Liderou uma vaquinha junto ao grupo atlantino para levantar dinheiro, que garantiu a festa de casamento de um afamado centroavante verde-rubro, segundo ele me contou.   

Mas, o meu amigo tinha outra paixão. A política. Ou melhor: a política e o PDT. Sempre trabalhista. Aos 20 anos carregou a bandeira do PTB de José Mandelli Filho.


Até onde sei ou me lembre, sempre votou em Luiz Francisco Schmidt. Foi de Antonio Dexheimer, a quem admirava, em 1992 por que Schmidt era o vice.

Como forma de contribuir com os candidatos às instâncias superiores, concorreu inúmeras vezes a vereador pelo PDT. Nunca se elegeu – mas vitoriou-se com Schmidt, em 1992, 1996 e 2016 - então no PSDB.

Nunca ouvi ele falar ‘odiosamente’ dos governos Eloi Zanella, Jayme Lago ou Paulo Polis. Mas – nunca ouvi dele, manifestações favoráveis a seus governos. E a razão era simples. Ele tinha lado. E o seu lado era o outro.

Da última vez que falamos, em sua casa, há 15 dias ele alertou: ‘José Adelar Ody (saudava com pronúncia aguda no y)’. Puxando uma cadeira e escancarando as portas – “tu tá acompanhando as pesquisas? Olha... vai dar a minha candidata. Já tô em campanha... Óóóó... vamos ganhar a eleição!’ – referindo-se à Juliana Brizola ao governo do estado em 2026.

Pois é.

Levaram o Daniel agora, nessa quinta-feira, para deixá-lo junto à sua esposa ‘Rose’ e o filho Tiago, que já descansam lá no Cemitério da Escola Branca.

Me pergunto: ‘Como assim. Levar uma obra?

A sua história?

A sua paixão pelo Atlântico?

A sua paixão pelo PDT?

Pelo trabalhismo?

Pelo jogo do bicho?

Como podem sepultar seu sentimento anti-PT?

Sua posição de indiferença ao rival – o Ypiranga?

Não – isso tudo ficou por aqui... na cidade, na Escola Branca, no JB ou no porão da casa onde recebia de manhã ou à tarde, com educação e atenção cavalheiresca; seus amigos ou quem apenas quisesse ali fazer hora, bater um papo, jogar conversa fora ou mostrar um dedo destroncado.

O Daniel cultivou o hábito de uma espécie de atendente de ‘primeiros socorros’. Volta e meia recebia alguém com ombro deslocado, joelho dolorido, calcanhar inchado – enfim... Suas mãos e dedos, e seus óleos; ajudavam quem podia e jamais o vi fazer qualquer preço. Eram massagens corretivas. Certa feita relatei ao acaso dores nas pernas. Quando saí ele pegou uma garrafa pet de dois litros, dobrou-a quase em ‘V’ e mandou que enchesse de água e deixasse no congelador. ‘Quando atacar – coloca a garrafa em cima’. Pois é – bingo. Seu prazer estava na ajuda, e felicidade ao ouvir (da maioria), que tinham melhorado ou resolvido. Coisa de coração – do padre Zezinho.

Um homem que saiu da colônia.

Um homem de família grande.

Um homem que foi atrás de uma formação.

Um homem de princípios, mãos limpas e coração gigante - nos quase 50 anos de amizade que tivemos – foi um sujeito com seus equívocos circunstanciais ou de época, como o prazer que dividimos pelo copo e, depois, igualmente na sobriedade; mas voltado a contribuir para que o seu entorno ou ambiente – sempre fosse o melhor possível. O melhor possível para todos.

O Daniel passou pela perda um filho, já moço, para um câncer.

Perderia a esposa.

Saiu do aluguel para sua casa própria.

Leitor voraz de jornais.

Telespectador e ouvinte de rádio, igualmente apaixonado.

Notícias, interpretações e opiniões, eram seu chão.

Ouvinte paciente e concentrado.

Não tinha pressas.

Adorava conversar.

Quando chegava no meio da tarde, chamava ‘Rafaaaaa – vai fazer um joguinho pra mim’. E podia contar: era o número da placa do meu carro, ou da minha casa ou algo a ver com quem pisou no seu pátio. Qualquer sonho, recorria à interpretação numérica, e lá se ia algum na cabeça ou do primeiro ao quinto. Isso sem contar as loterias de todas as ordens. Até onde sei – a sorte em apostas lhe negou sorte. Mas, era o prazer.

Capaz de conviver de modo surpreendente com o contra-ponto em todas as áreas da atividade humana, especialmente nas mais apimentadas como política e futebol, o Daniel, foi sobretudo um sujeito muito, mas muito inteligente. Não para ganhar dinheiro fácil, não para negócios, não para comércio e, muito menos para lucrar em cima de qualquer ilegalidade.

O Daniel era mestre em ‘ler’ feições e posturas. Pegava as coisas no ar, como se diz de alguns poucos com tal talento, e isto, é uma virtude que pessoalmente aprendi a respeitar por demais – especialmente na vida profissional. O Daniel tinha isso.

Dono de um bom humor, quando queria - flertava entre a irreverência e a ironia, com tiradas certeiras, impensadas e espirituosas – próprias de alguém com inteligência acima da média. Sabendo quando era compreendido, numa ironia proposital - deixava escapar uma risadinha ainda mais provocativa ou soltava aos ares uma gargalhada, digamos, assim do seu tamanho.     

Levaram o Daniel às 9h30min da quinta-feira.

O dia estava claro como os princípios, as idéias e ações dele.

O sol se fazia queimando.

Assim como sua paixão pelo futebol e pelo Atlântico.

Pela política e pelo trabalhismo.

E assim como um corpo que se deixa em sua última morada, quando falece e teu tempo de vida nesta terra se acaba – bem assim, a sua obra e a sua história, entre todos aqueles que o conheceram e com ele de alguma forma e tempo conviveram, permanece e como tal através dos tempos - só se fará maior.

Na reta final de seus dias de ‘pó em pé’, largou o cigarro e ganhou a atenção dos seus mais próximos. Seu filho, Rafael, que vem abraçando a profissão de ‘Cuidador’ – mais que cuidar do pai, foi seu assistente em casa ou no hospital – no banho, nas refeições e na administração dos medicamentos. Foi presença física e companhia afetiva. Foi ouvido, boca e espírito. Assim como sua filha Daniela, genro e netos.

Por derradeiro, e deixo isso de propósito, para quem sabe sublinhar a maior virtude do meu amigo – no meu entender: O Daniel jamais - jamais deixou de dizer o que pensava. Não mandava dizer. Não pegava trajetos mais longos para fazer chegar o que pensava - por vias transversas ou tortas. Escondido. Não. Sua posição, seu pensamento, sua reação ou sua opinião – ele mesmo a comunicava. Podia-se não concordar – mas ele a dizia. E a defendia. E digo isso, sem dar a conotação que agia assim, como alguém reacionário ou agressivo. Nada disso. Mesmo que sua figura grande, às vezes de cabelo ou barba por fazer e bigode por aparar - o Daniel sabia das coisas, onde se encontrava, e era polido na fala. Na defesa do que entendia certo – era respeitoso. Quando convencido – mudava.

Em tempos onde a clareza e a sinceridade parecem morrer, a cada dia um pouco, disfarçadas dentro das fantasias das falsidades, que andam desfilando e ditando modas nas mais diferentes passarelas da vida em sociedade, pois isto; o dizer o que se pensa – sem ofensa, de modo respeitoso e sincero, claro e sereno, mesmo se sabendo ‘voto vencido’, soa como algo estranho. No mundo das relações humanas – quase uma benção.  

Última visita que fiz ao meu amigo

Integridade moral, pureza de intenção e retidão. Um sujeito de princípios e caráter. Um cidadão acima da média – que merecia ser melhor reconhecido pelo menos no seu adeus – especialmente a quem tanto dedicou. Esta lacuna não foi preenchida como devia. Que o tempo lhe faça este jus.

‘Senhor, quem entrará no Santuário para Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração puro/Quem não é vaidoso...’.

Levaram o Daniel... 82 anos depois - de volta à Escola Branca.

Sua obra ficou - habita entre nós.

Jerzy Daniel Cieslak – um gigante!