sexta-feira, 24 de maio de 2019

Ypiranga: tudo passou por Vacaria!



 A conquista do pentacampeonato da Divisão de Acesso pelo Ypiranga percorreu um caminho, que os colegas da rádio Difusão, Amilton Drews e Edilon Flores, há muito tempo denominaram de “inferno”. E, tropeçando nos próprios problemas, o Ypiranga arrancou muito mal na Divisão de Acesso, inclusive correndo graves riscos de não ficar sequer entre os quatro para os mata-mata.

As coisas começaram a mudar, quando a direção buscou o técnico Fabiano Daitx, e, claro, alguns jogadores que deram uma estabilidade ao grupo e ao time. Na esteira destes – outros já acostumados ao vestiário verde-amarelo, também subiram de produção. E foi daí, que praticando um bom futebol, assustando seus concorrentes até fora de casa, que o time encorpou, ganhou confiança e chegou para decidir a vaga com o sempre respeitado Glória.

Depois de uma recaída, em casa, quando perdeu para o Glória; o Ypiranga controlou seus nervos, aproveitou-se de um ar de “já ganhou” instalado em Vacaria e, voltando a praticar um bom futebol, devolveu o 1 a 0. Nos pênaltis os deuses do futebol que apareceram em Rio Grande, mostraram que este ano estavam com o Canarinho.

Mas não se iludam.
Tudo, mas tudo poderia ter ido por água abaixo, e seria visto como algo normal – porque a Divisão de Acesso é mesmo muito difícil, se o Ypiranga não tivesse a segurança, a qualidade e a garantia de um árbitro como Leandro Vuaden em Vacaria. Não que os demais fossem comprometer – mas Vuaden era a garantia que permitia respirar tranquilidade com o foco apenas na partida - para os dois times. Como foi. 

Este singelo detalhe foi decisivo. Por que a partir da certeza de uma arbitragem experimentada – e que não teve nenhuma influência no resultado -, o Ypiranga entrou contra o Glória com a certeza de que seu sonho era perfeitamente viável. O resto seria com o time. E aí, até mesmo uma derrota poderia ser vista como algo normal, porquanto o adversário era do seu nível.

Portanto, no meu entender, reconhecendo claramente os méritos da direção, da comissão técnica e dos atletas nas duas conquistas – voltar à Série “A” e o pentacampeonato diante do bom Esportivo -, tudo passou por Vacaria. E aí, méritos a quem conseguiu a garantia de uma arbitragem com muita experiência no futebol, reiterando, que Vuaden na oportunidade, arbitrou propiciando a Glória e Ypiranga, as mesmas possibilidades, deixando tudo por conta do futebol praticado e, das circunstâncias que sempre estão presente, especialmente nas decisões.

Não se trata de resumir, de sintetizar, de diminuir as conquistas do Ypiranga em 2019. Trata-se tão somente de lembrar, que, no futebol – os detalhes podem e, geralmente fazem a diferença, especialmente quando eles aparecem para quem observa futebol com a atenção que ele merece ser observado e tratado. Sempre.

Por isso concluo: tudo passou por Vacaria! 
Assim como eu e minha irmã Maria Ceci (neste 24 de maio de 2019 completa 44 anos de seu falecimento), em 1972, fomos a Caxias do Sul e Porto Alegre, com o Cesar Sandri, passando por Vacaria - a porteira do Rio Grande.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Ypiranga estreia no Colosso e bate o Esportivo


O Ypiranga fez da sua primeira partida no Colosso da Lagoa uma bela vitória. Bateu o Esportivo – na época um dos times mais fortes do Estado – por 3 a 2. Preliminar de Inter e Botafogo, um domingo à tarde de tempo chuvoso. O gol surgiu aos 12 minutos da fase inicial. Aos 43, Marcos cabeceia uma bola vinda de um escanteio. Alcino – um dos maiores goleiros da história do Ypiranga – escorregou e a bola entrou.
 
No 2º tempo o Esportivo fez 2 a 1 logo aos 3 minutos com o artilheiro Lairton. O técnico Abílio dos Reis então decidiu poupar alguns jogadores e fez várias trocas no excelente time de Bento Gonçalves. O Ypiranga se aproveitou para crescer. Borjão, de novo, aos 15 empatou e, aos 32, Ademir Galo confirmou a vitória do Canarinho, a primeira em seu novo estádio.
 
Os times
Ypiranga: Alcino; Oscar, Mujica, Plínio e Cláudio; Arli e Ariovaldo; Remi (Téio), Borjão, Cafuringa e Ademir Galo.
 
Esportivo: Edgar (Vilmar); Adair, José (Hélio), Ademir e Rômulo (Marcos); João Carlos (Sérgio) e Paulo Araújo; Gonha (Ronaldo), Neca, Lairton e Décio (Ivo Cabral).
 
Arbitragem: Hélio Nepomuceno, auxiliado por Salvador Fossati e Vilson Cagliari. 


Borjão na história do Colosso
Era 6 de setembro de 1970.
Um domingo de muita chuva sobre Erechim. Na preliminar de Inter e Botafogo, o Ypiranga fez sua primeira partida oficial em seu grandioso estádio.
O adversário era o Esportivo de Bento Gonçalves, à época, a terceira força do Estado. Seria um encontro inesquecível. Pena a chuva.
Transcorriam 12 minutos de partida quando Celso Tadeu Carpegiani, o Borjão, abriu o marcador. Era o primeiro gol do Ypiranga F.C. em seu novo e grandioso estádio. “Eu só lembro que apesar da chuva, foi um jogo muito pegado”, conta, com a simplicidade dos grandes. A partida acabaria 3 a 2 para o Canarinho com dois gols de Borjão: o primeiro e o segundo do Ypiranga F.C. em sua nova casa - no Colosso são dele.

Nesta quinta-feira à noite, 16 de agosto, Ypiranga e Esportivo, começam a decisão sobre quem será o campeão da Divisão de Acesso deste ano. Ambos conseguiram o acesso à Série "A" do gauchão de 2020. Quarenta e nove anos depois daquela partida "festiva", os dois tradicionais clubes do interior, agora se reencontram no mesmo palco para uma decisão.
 
 
 
 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

YPIRANGA DOS YPIRANGUISTAS!








O Ypiranga F.C. tem 94 anos.
Fechará 95 em 18 de agosto.
Qual dirigente do clube tem mais 90 anos?
FOI fundado no Hotel de Lourenço Antunes de Oliveira.


O Ypiranga foi fundado no dia seguinte a uma partida entre o Ítalo-Brasileiro (mais tarde Atlântico) e o Douradense, num campo na Praça Julio de Castilhos.

UM grupo de recém chegados a Boa Vista do Erechim, e hóspedes do hotel, foram ver a partida. Como a torcida era quase toda do Ítalo, os ‘visitantes’ juntaram-se a outro pequeno grupo de "boavistenses" e resolveram gritar Douradense.
O Ítalo venceu o jogo, mas até hoje não se sabe quem ganhou a briga depois dos 90.
Futuros atlantistas e, ainda não sabidos futuros ypiranguistas, engalfinharam-se num sururu.

DEPOIS que os últimos chapéus foram juntados do chão, e o que restou de sobrinhas foi acomodado sob braços, enquanto cavaleiros montavam e sumiam seguidos por carroças que quase arrancavam os trilhos, a noite caiu e com ela veio o silêncio. Estava lançada a semente da rivalidade – e do Ypiranga.

O ÍTALO ganhara mais uma.
Sua sociedade haveria de comemorar noite adentro.
O Douradense recolhera-se ao interior dos matagais que levavam ao Dourado.
Segunda-feira o arado esperava.

EM MEIO aos curativos e falações sobre a grande briga, brotou o sentimento de fundar uma oposição ao Ítalo, hoje Atlântico, enfim, ao Galo.

DE modo que, tendo como inimigo - como rival, como adversário um ente externo (Ítalo-Brasileiro) a comuna desde a noite de 18 de agosto de 1924 passaria a ter dois polos esportivos, que, arredondando para os dias de hoje atendem por Atlântico e Ypiranga.

COMO foi sadia essa rivalidade. Como ela ajudou a desenvolver o esporte e a sociedade local. Como ela fez e faz falta!

O YPIRANGA nasceu com um rival identificado e, é aqui que o Canário de quase nove décadas e meia, sacode as penas da incompreensão: o rival, o adversário, o ‘inimigo’ não pode, ou não devia; ser aludido ou conjecturado dentro da sua ‘gaiola’ ou da sua trincheira, do seu Conselho, da sua direção, da sua casa. Dentro do Colosso.

E QUANDO alcança idade esplendorosa para um clube movido à paixão, eis que de bocas e línguas Canárias vazam desconfortos, como se o clube dependesse mais de um, do que de todos. E, isto não pode deixar de ser enfrentado – pior seria varrer para debaixo do tapete – mas, urge, encontrar um meio de superação que priorize acima de qualquer inteligência ou visionário – o clube.

SEI que abordar este tema em dias de festa pode parecer ‘intriga’, - mas, creiam, não é. Por isso toco, de novo, de leve na ferida – antes que ela contamine todo o corpo. A hora é de festa para lá de justa, merecida e oportuna. Mas - é uma hora, onde o alívio da pressão para sair do "inferno" como dizem os amigos Amilton Drews e Edilon Flores da rádio Difusão sobre a Divisão de Acesso, pois é a hora exata para repensar o clube, enquanto busca um bom desempenho na série "C" do brasileiro. 

É UMA excepcional oportunidade para colocar as coisas em pratos limpos, sob os auspícios, inapagáveis, de como o clube foi fundado.

RECORDO aos incautos ou de pouca memória: o Ypiranga FC foi fundado com um único fim: fazer frente ao seu oponente e ‘rei da bola’ em Boa Vista do Erechim, hoje – Atlântico -, que também ao futebol “foi falecido”. O resto é reles perfumaria da vida.

VEMOS com frequência quedas de braço, em ritmo crescente, pelo poder em grandes clubes do estado. E sob este aspecto é até natural que também dentro do Ypiranga vozes divergentes se façam ouvir.

MAS ‘divergência’ não pode significar a implantação do neologismo ‘eumismo’, dando a entender que quando o clube estava sob ‘o meu comando...’, ou ‘o meu Ypiranga...’. Não. O Ypiranga FC é maior, mas muito maior do que qualquer presidente que tenha segurado uma onda, duas, dez, vinte ondas.

É MUITO MAIOR também do que qualquer dirigente que tenha conquistado este ou aquele título, pela singela razão de que o clube em não tendo dono - de todos (os ypiranguistas) é. Logo, suas conquistas não têm pai – mas família. ‘... é mas na hora de fazer, se não fosse...’.

SEM ESSA. Foi porque quis. Está porque quer. Pode vir a estar porque assim é do seu desejo.
O Ypiranga não precisa de quem que seja, se não for por amor, fim único e soberano dos que assinaram a ata de fundação depois da briga contra o Ítalo.

OS YPIRANGUISTAS sabem do que aqui se trata e o que se passa. E, creiam, aconteça o que acontecer o clube não desaparecerá – ao contrário de ypiranguistas mais ou nem tanto vitoriosos, abnegados ou ‘ambiciosos’, de tino pessoal ou coletivo... Não existe o meu, o teu, o nosso, o deles. Existe – Ypiranga!

O QUE NÃO pode é o clube, um bem intangível, ser confundido como um bem que estaria mais seguro com este ou aquele; como se sua saúde e alegria não estivessem na razão direta da soma de todos – jamais da discórdia insensata, pequena, perigosamente venenosa – submetendo um sentimento plural a processos de gestão singular de quem quer, e o que, tenha sido em qualquer tempo.

EM 2014 o Ypiranga F.C. conquistou pela quarta vez o direito de voltar à elite do futebol gaúcho. Para meu gosto, o que não diz muito, o momento seria de discutir a estruturação do clube para fazer futebol com saúde e tranqüilidade – sempre. Não uma ou três ou quatro temporadas. Mas... sempre. Ou quase sempre. E agora a oportunidade se oferece novamente, por que, tentar isso - organizar o clube fora das quatro linhas em pleno Acesso quase obrigatório -, é muita coisa. 

E NESTE MOMENTO mais que o goleiro ou o atacante, mais que o técnico ou o preparador físico, mais que a torcida e até a imprensa, o fundamental seria entregar-se a um debate sobre como pavimentar o futuro do clube para que o Canário possa voar pelo verde das matas e o amarelo do sol, respirando ar puro, longe do risco de estilingues traiçoeiros.

O YPIRANGA jamais foi fruto da própria costela. Coloque o hino na vitrola/2014: ‘O Ypiranga surgiu para a vida/
Com a missão de trazer pelo esporte/
A pujança corpórea reunida/
A beleza do espírito forte/
O valor alcancemos confiantes/
E sejamos, portanto, esforçados/
Vencedores, fiquemos constantes...’.

O YPIRANGA só nasceu por causa de um rival e ele era – externo. Externo.  

ENTÃO, homenageando a "família ypiranguista" pelo presidente, Adilson Stankiewicz e vice-presidente José Scussel, aproveito o momento de mais uma histórica conquista do Canarinho - o retorno à Divisão Principal do Campeonato Gaúcho 2019/2020 - para sugerir: botem a bola no chão (fora de campo também). E chega de bico e balão.



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

(Dedicado aos ‘grazziotineiros’ e inspiradores da ideia: Helena Confortin, Vanda Krepinski Groch, Neusa Garcez e Ademar Brum. E ao historiador e animador Enori Chiaparini)




Devia ser fevereiro quando num dia de sexta-feira de calor que me fazia andar só de calçãozinho, sem camisa e pé no chão, e a dona cujo nome não me lembro mais – mas era a mulher do Zamprogna, do Ivo Zamprogna, isso mesmo – me chamou.  -    Ô guri, ô Adelar - vem aqui, gritou ela da varanda da sua linda casa.



Ela tinha fama de grande costureira de vestidos na cidade. Costurava para os ricos de Campo Pequeno, para quem morava ‘no centro’ e tinha também fama de ser uma mulher fechada, que detestava barulho, especialmente de piazada correndo, brincando de pegador e odiava os gritos: ‘Um, dois, três – peguei, peguei o Adelar. Um, dois, três – me salvei, me salvei!’.
Ela resmungava – Úúúte piazada -, e abaixava a janela de vidro quadriculado, se fechando ainda mais em si mesma – com suas magníficas obras em vestidos.

A grande costureira morava ali na Amintas Maciel, 616, na quadra entre a Cantina do Mandelli e onde hoje está o Colégio Mantovani. Na época, onde hoje é o Mantovani, tudo era um terreno baldio que servia para acolher algum circo, parque ou acampamentos de ciganos e, claro, as nossas ‘peladas’ inesquecíveis de futebol. E depois do campo do Atlântico e o terreno baldio, vinha a Legião. Era o bairro mais carente de Erechim. Trezentas casinhas de 25 a 30 metros quadrados, se tanto, pintadas a óleo cru e com uma ‘patente’ no fundo do lote. Água? – Só na bica coletiva da Legião ou lá nos tanques do Mato da Comissão. Luz? Só de lampião.

Ali na Jerônimo Teixeira era quase o ‘fim da cidade’. Dali para ‘baixo’ (centro direção bairro) vinha então a Legião, o Grupo Escolar Campos Sales, depois o presídio e... mato e mato. Já era quase... quase – ‘área rural’. De lá vinha o leite em litros esverdeados de vidro. Litrões grossos. Falando em mato, o Mato da Comissão (Parque Longines Malinowski), na entrada que existe até hoje pela Comandante Kraemer, havia uma dezena de tanques coletivos. Ali corria água transparente e as mulheres da Legião deixavam seu estresse (se é que isso existia) naquele local, ‘surrando’ as roupas contra uma laje e mergulhando-as na água limpinha. Aquelas calças brincoringa, molhadas, pesando... cinco quilos, erguidas pelos braços das mulheres da Legião, e vaaaappppppppppp – tuuuummmmmmmmmmmm, contra a laje. A sujeira saía não por causa da água limpinha e do sabão gorduroso – mas, provavelmente, penso hoje, de medo. Do estalo inapelável contra a laje de pedra. E era – vaaaaaaaaaaaaaaaaappppp- tchaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn. A brincoringa depois descansaria ardendo ao sol no varal dos fundos das casinhas até secar - de ficar em pé. Lá - mato adentro a gente tomava banho e pescava.

II


Um dia preguei uma latinha na ponta de uma ripa e passei o braço esticado por cima da cerca entre o lote onde nós morávamos e que dava de fundos para o lote da dona... a mulher do Zamprogna. A costureira. A ripa que tinha ‘pegado’ lá das sobras de madeira e serragem do Madalozzo - era comprida o suficiente para alcançar com a latinha os pêssegos que avermelhavam, apodreciam e caíam no lote da vizinha costureira – mas se ela visse aquilo, aiaiaiaiiii. Era o que se dizia. Dar, ela não dava. Pedir? - se tinha até medo. Além do que – não adiantava. E como a gente não queria que os pêssegos ‘morressem’ daquele jeito – o jeito era chegar até eles e, no caso, a ripa com a latinha resolvia, e ainda nos livrava de sermos apanhados em lote alheio. Naquele tempo isso era um pecado – quase mortal.

A vizinha não falava com os vizinhos e se consumia costurando, dias e noites adentro, enquanto os pêssegos, as peras, as laranjas, os limões e as canas nasciam, cresciam, amadureciam, apodreciam e caíam no fundo do lote comprido. A menos que a latinha na ponta da ripa ou do bambu ‘recolhesse’ a fruta. Mas, e se ela contasse as peras? – ia dormir eu carregando todo o dia o pecado daquele ‘furto’ na consciência. Furto de um pêssego ou de uma pera que apodreceria no chão, se eu não a ‘roubasse’ e comesse. Agora, qual criança daqueles anos, não se arriscaria por uma fruta, ainda mais – ‘roubada’? Quem, com 10 anos ou menos, naqueles anos, tinha um níquel no bolso? Quem tinha bolso?


III


Pois, naquele dia de sol de rachar, brincava eu com a piazada pelas redondezas, quando a dona... a mulher do Zamprogna, do Ivo Zamprogna, a costureira, gritou de novo: - Ô guri. Adeeeellllar - vem aqui.
- Meu Deus – ela sabe o meu nome. Então deve saber sobre os pêssegos, as peras, as laranjas...

Por puro impulso, quando me vi, estava eu na frente da temida mulher que ‘não falava com ninguém’.
Tu sabe onde fica o Café Grazziotin?
Não senhora.
-  Tu já foi pro centro alguma vez?
Já.
- Tu sabe onde fica o cine Ideal?
- O Cinema ‘de Cima’ – retruquei -, pois o Cine Luz era identificado como o ‘de Baixo’. Tanto que na época se dizia: ‘o Ari foi no cinema. No ‘de Cima’ ou no ‘de Baixo’? – No ‘de Cima’. Ah – então no Ideal, geograficamente falando. O Ideal era onde está a Ponto Frio. O Luz – onde fica a Renner. Depois de cinema já foi... de Bingo à Igreja e agora...

- Pois então se tu sabe onde fica o cinema Ideal, você vai mais um pouco pra cima, pela calçada, e quase do lado do cinema, o ‘de Cima’ como tu diz é o Café Grazziotin.
- Não é na frente da banquinha de revista do pai da Salete onde vendem gibis, figurinhas e tem os engraxate,? – perguntei.
Isso mesmo. Quase em frente da banquinha. (A banca existe até hoje).

No cinema eu já tinha entrado para torcer pelo Johnny Weissmuller, o meu Tarzan preferido, e na banquinha eu já tinha até engraxado sapatos. (Hoje, se me pegassem lustrando sapatos com aquela idade – dava Conselho Tutelar, MP, polícia, BM, BO... Se duvidar - cadeia). Mas, enfim, voltando – situando um, eu sabia onde ficavam os outros. O centro, a ‘avenida’, o cinema ‘de Cima’, a banquinha... o Café Grazziotin.

Ela então, sem me perguntar se eu levaria ou não, me alcançou um pacotão, um embrulho de papel, esses de rolo grande e disse: - Leva esse vestido lá e entrega pra dona, para dona do Café que eu te dou um dinheiro. (Imagine hoje – confiar a um guri, de 10, 11 anos.. um vestido, o vestido que uma madame esperava! Um piá, de calçãozinho, pé no chão... com um pacotão nos braços, subindo a Jerônimo Teixeira, a Nelson Ehlers, a ‘avenida’ Maurício Cardoso, pela calçada, no meio de gentes grandes... Hoje... bem – esquece. O mundo não mudou. O mundo apenas é outro.


IV


Apanhei aquele embrulho enorme para o meu tamanho, e só fiquei com a cabeça acima para ir desviando as pedras ponteagudas que nasciam do chão, assim como línguas traiçoeiras brotam hoje em dia, que rachavam unhas mal nascidas e compridas ou faziam sangrar o couro fino da parte interna do tornozelo. Punhais – traiçoeiros.

Subi pela Nelson Ehlers afundando as canelas no pó fofo, arriscando a cada pisada - rasgar o pé. Parecia uma missão como essas que se vê em filmes mais antigos, onde alguém tem de atravessar terras, mares e céus para levar uma mensagem.

Quando cheguei no calçamento, já estava em frente do  Samdu e do Saps – Santo Deus, Nossa Senhora de Fátima, como era ‘grande’ o Saps – a gente até podia escolher os produtos! Ficava ao lado de onde hoje é a Loja do amigo Zucchi e o Samdu onde está o Belas Artes.

Depois de passar na frente da padaria ‘Sem Rival’, desviei os olhos para ver os sonhos, os folhados e os caros amarelados. O cheirinho de pastel feito na hora me invadiu as narinas que até hoje sinto aquele ar de massa frita na banha. Sem pastel - as pedras quentes do calçamento me fritavam a sola dos pés – como a banha fritava a massa.

Depois do Bar Arthur, o Bar Das Vitaminas (quanto bar!), dobrei à direita e subi pela ‘avenida’. De calçãozinho e pé no chão. Passei pela interminável escadaria da Delegacia Regional de Polícia que parecia levar aos céus – ou seria aos infernos – quase em frente à também hoje extinta A Voz da Serra. Lá em cima estava o delegado Rômulo Monteiro – pai do meu grande amigo Feliciano, o Fifa, hoje, baiano por adoção e opção.

Obstinado pela obediência à confiança recebida que me distinguia como alguém acreditado de fé -, incrivelmente nem parei para olhar os cartazes do Cine Ideal, o ‘de Cima’, e quando vi, estava em frente ao Café Grazziotin.


V


Fiquei deslumbrado quando entrei.
Aquelas mesinhas rodeadas de cadeiras bem desenhadas e de madeira com corte confortável. Como devia ser bom e importante poder sentar numa delas.

Homens altos que nunca vira antes, mas decerto importantes, enfiados em paletós e fumegando cigarros sem-fim, bebiam café em minúsculas xícaras, ou levantam à boca mais um gole de Serramalte ou Caracu. O café estava esfumaçado. Era chic – fumar... Hollywood, da caixinha vermelha, branca e com uma faixa azul, ou Minister então, da caixinha branca com a faixa azul acima e o ‘M’ em dourado, nossa - nem me fale.

Caminhei com o pacotão me cobrindo a parte da frente, (graças a Deus... e se me conhecessem... mas quem haveria reparar num fedelho daqueles!) sem camisa e de pé no chão até o balcão. Pensa só: pé descalço, calção e sem camisa – mas não por moda, mas por...


VI


De longe, uma senhora logo imaginou o que eu fazia naquele lugar, e mais; o que trazia e mandou que eu fizesse rapidamente a volta pelo balcão onde tinha um motor... gggggggrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr... barulho que até hoje não me abandona os ouvidos. Era o motorzinho que tocava a máquina de fazer sorvete.

- O que tu tem aí, menino!, adiantou-se a senhora, já suspeitando o que trazia.
- A dona... a costurera lá do ‘Seu Zamprogna’ me mandou... Eu...
-        Eu sei. Eu sei. Pode deixar aqui.
E sem identificações, desconfianças ou garantias de estar entregando o pacote para a pessoa certa – deixei aquele enorme embrulho nas mãos dela. Devia mesmo ser um vestido novo para um baile de sábado para aquela senhora, legítima proprietária do vestido, segundo deduzi e conclui pela sua intimação.
Grrooooonnnnngggggrrrrrrr. Grrroooooonnnnnggggrrr. Grrrrrggggooooonnnnnnnrrrrnnrrrr, rosnava em incansável rotina a maquininha do sorvete.


VII


Entregue o pacotão, e ainda complemente deslumbrado com aquele cenário que nunca tinha visto antes, pois, quando eu alcançava a porta da saída e o sol de rachar, de novo me batia nos olhos, aquele sol que vinha por detrás da rua Alemanha, da banquinha do pai da Salete...
- Ô - guri! Ô menino! – alguém gritou.
- Me virei e a mulher disse de novo, lá do fundo do Café Grazziotin, quase encoberta pelo balcão aonde o ar era fresquinho...

Volta aqui guri, disse ela e ordenou: - pega aqui!

Caminhei até o balcão, e aquela senhora, a dona do vestido, me alcançou por cima daquele motorzinho, o maior, o mais lindo porquanto inesquecível, o melhor sorvete que eu já tomei em toda minha vida.

Toma aqui. E diz obrigado lá pra costureira.
O sorvetão de uva, chocolate e creme me escorria pelos dedos, pela goela e pelos beiços, derretendo de calor assim como eu quase derreti quando subi correndo a Nelson Ehlers até o centro levando o pacotão com o vestido que nunca haveria de ver na minha vida.

O ‘pazinha’ de madeira, (como eram bem cortadas, torneadas e delicadas aquelas pazinhas dos sorvetes), guardei na gaveta das minhas preciosidades de criança por meses a fio – mais de ano. Misturou-se, e perdeu-se entre as figurinhas, o bodoque, as bolitas, o bilboquê e gibis.


 VIII

Que tempos eram aqueles que se guardava uma ‘pazinha’ de madeira, essas de tomar sorvete – como se fosse um bem precioso, sem preço - nem venda!?
Hoje, quando não se tem sorvete em casa – minha nossa!
Onde estará aquela costureira, a dona do café? 
O que foi feito daqueles frequentadores daquelas mesinhas?
Gentes grandes, tão independentes que era difícil acreditar que um dia teriam fim.
E aquele ‘ô guri – pega aqui!’ este eu nunca esqueci, até por que, acho que foi o maior sorvete que o Café Grazziotin serviu em toda sua rica história de 25 anos entre 1946 e 1971. E foi de graça. E foi para mim. Quem era eu!

O pacotão com o embrulho de papel grosso, entre um vermelho e um rosa - cor de telha - devia mesmo conter algo importante. Um vestido. Onde estaria aquele vestido e que histórias, poderia ter ele presenciado – além desta do meu primeiro sorvete!?

Se a vida passa rápida, mais depressa ainda se vão os estilos de vida, levando consigo os vestidos, as casas de comércio, os cinemas, as pedras de punhais escondidas sob o pó, as modas, os cafezinhos, as Serramaltes, o chão de pedras decoradas do café - com suas mesinhas e cadeiras de corte fino, as ‘pazinhas’ em madeira, os sorvetes... e tudo mais.

Aonde foram parar aquelas pessoas?
Sei, não sei... certamente – a maioria sabe, sabemos todos.
Os avanços voam.
O mundo quando não muda – vira outro.
Comparando-se tempos e suas coisas, concluir que os tempos mudaram soa inocente, quando não - ingênuo.
Os tempos não mudaram. É pouco. São outros.
E neste outro tempo, quem só conhece o hoje, custa a crer no ontem com suas gentes, idiossincrasias e modos de vida.


IX


Neste novembro, sei lá, 55 anos depois daquele do sorvete da minha vida; só o sol parece o mesmo. Abrasador, insuportável e imponente. E, claro, a tentativa de reconstituição do Café na Frinape/2018 com o debate de diferentes temas – pautas dos tempos do Café -, elaboradas por uma comissão especial.
Os cinemas viraram lojas. Sucursais de rede.
O ‘Grazziotin’ de ontem – hoje é farmácia.
Os sorvetes atendem filas nas calçadas.
Tudo pago.
Nada dado.
No chão – tudo é outra coisa.
No alto, o sol, ninguém toca.
E hoje, quando me deparo com alguém de pé no chão – sinto arder a sola do pé, e como se fosse ontem - desvio no chão para não ser surpreendido por uma pedra ponteaguda escondida sob o pó, que também já não existe mais entre o Mantovani e a ‘avenida’.

Preciso de sapatênis.
Vou comprar,
quem sabe,
no ‘Cinema de Baixo!’.
Preciso de remédio?
Vou comprar,
quem sabe, no antigo Café Grazziotin de hoje.
Preciso de celular novo.
Vou comprar,
quem sabe,
no ‘Cinema de Cima!’.
Que calorão – Meu Deus!
Preciso de um sorvete.
Vou comprar
quem sabe (fossem outros tempos – até ganharia um) na calçada ou num super.
Mas – pra que,
Santo Deus,
 – se nem devia tomar! Estou pré-diabético.

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