domingo, 15 de maio de 2022

Quando os filhos renovam nossos sonhos

 

Dr. Alfredo Canali, presidente da SBU e Dr. Renan Cabral

Chega um determinado momento na vida de cada um de nós, onde os nossos sonhos, anseios e objetivos vão arrefecendo. Dá a impressão que envelhecem conosco. Não se criam mais dentro de nós porque, aparentemente, reconhecem que o que foi feito foi feito e agora é hora de desacelerar, desapegar-se da pressa ou na necessidade como obsessão. Isto porém, não significa o nosso fim. Acontece que no horizonte do que ainda nos resta de vida nasce uma nova claridade que ao levantar-se, coloca-se à altura do que ontem era a nossa determinação, a nossa motivação, a nossa correria e, uma vez alcançados, faziam a nossa felicidade.

Nesta altura da vida o que nos mantém com os olhos no horizonte é a vida dos filhos, seus sonhos, seus objetivos, suas metas, suas conquistas. E é exatamente por isto, que um amigo especial que guardo há anos quando nos aproximamos e estreitamos laços de amizade trabalhando na reitoria da URI, pode dizer que vive seu novo tempo de pai e avô em júbilo, com as recentes conquistas de seus dois filhos.


Dr. Renan Cabral em São Paulo
Recentemente o filho, Dr. Renan Cabral, coordenou em São Paulo Comitê Nacional de Certificação em Cirurgia Robótica da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e passou a integrar o Departamento de Laparoscopia de Robótica da SBU/RS. O convite foi feito pela diretoria da SBU Nacional.

O Dr. Renan é médico urologista e tem sua base de trabalho em Porto Alegre, mas como se observa, sua competência e talento ultrapassaram o Mampituba e ganharam reconhecimento no centro do país. O currículo do Dr. Renan se agiganta – mas não só pelas deferências reconhecidas -, mas também porque em todos os eventos e troca de experiências; se transferimos conhecimentos, também oportuniza-se agregar novos conhecimentos. Além disso nos deparamos com “sarrafos” que permitem melhor nos localizar a que altura estamos em termos de qualificação ou onde podemos chegar. E pelo que se depreende, por uma questão racional e de lógica, considerando os recentes movimentos do Dr. Renan Cabral, pode-se chegar a uma dedução ou conclusão que não basta estudar e formar-se, mas continuar “treinando” para marchar ao lado dos avanços mais modernos da ciência médica.


Não bastasse esta alegria experimentada pelo amigo Glenio e sua esposa Tânia Cabral,  o outro filho do casal, Dr. Cassiano, delegado de polícia em Porto Alegre – recebeu há poucos dias a Comenda Metropolitana, pelos relevantes serviços prestados à Brigada Militar e ao Comando do Policiamento Metropolitano (CPM). A honraria foi assinada pelo Comandante do CPM, Leandro Oliveira da Luz e, destaca ao delegado homenageado que a mesma se dá por “suas atuações profissionais e sociais, em prol, da comunidade Riograndense.

São estes novos raios da alegria e júbilo, que quando nascem nos confins de um novo horizonte na vida de quem é pai ou mãe, que sopram para baixo dos ombros, o pó do tempo que aos poucos vai deixando na saudade nossos próprios sonhos pessoais – independente de ter ou não ter filhos e netos. A conquista destes ou deles; transforma-se em orgulho, quem sabe, ainda maior se fosse uma conquista nossa, pessoal, lá no passado. E a razão é simples: ali, no conjunto familiar, batem corações que se irrigam do mesmo sangue, do nosso sangue e da nossa determinação em ser decente, gente do bem, e que, através dos seus feitos – desejam sim progressos pessoais -, mas que em um olhar mais amplo e desapegado, mostram a dimensão de propugnar por um mundo melhor, com mais qualidade de vida, com maior identificação de seres humanos que todos somos ou deveríamos ser.

Parabéns Renan, parabéns Cassiano, parabéns Gustavo (se me permitem no texto informal omitir o termo Doutor). Parabéns Glenio e Tânia. Seus objetivos, suas metas, seus sonhos antigos podem ter sido engolidos pelo tempo, mas novos tempos – lhes presenteiam com conquistas, que por certo, sem medo de errar lhes marejam os olhos de alegria, mais do que se fossem avanços apenas particulares.


Delegados Renan Cabral e Gustavo Ceccon em 2010

E para finalizar, não posso deixar de passar em branco a conquista do Delegado Gustavo Villasboas Ceccon, que, por absoluto mérito de seu trabalho, foi conduzido à Delegado Regional de Polícia em Erechim. Tive o prazer de publicar em outubro de 2010 a conquista de ambos (Cassiano e Gustavo) - como novos delegados de polícia. Assim como os méritos do Delegado Cassiano foram reconhecidos pelo Comando do Policiamento Metropolitano, a qualificação do Delegado Gustavo Ceccon e sua consequente designação ao comando da 11ª DRP,  leva o reconhecimento da comunidade erechinense.

É evidente que nem tudo sempre são flores. Os desafios são diários, com seus contratempos e circunstâncias, que também apressam o branco tomando conta dos cabelos que nos restam. Não obstante, quando a intenção visa o bem, quando a vontade se transforma em ações que conduzem ao aprimoramento humano – no balanço geral, fica comprovado que, a aparente evaporação dos nossos sonhos, apenas troca de identidade e pode se materializar na vida dos nossos filhos e netos. E para quem sabe o valor destes feitos, isto significa muito, porquanto reconhece nas conquistas da extensão da prole, algo muito próximo, se não além, dos nossos  próprios sonhos de outrora. 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Histórias do Benjamin (8)

 

Benjamin no barbeiro

19ª –O Benjamin no barbeiro ao lado do prédio onde reside na Carlos Kehlers. O barbeiro (um jovem) corta daqui, corta dali e, de repente, quebra o silêncio e pergunta ao Marcelo, pai do Benjamin, que está ao lado assistindo e esperando: 

“E daí, como estão as coisas?”. 

Quando o Marcelo vai responder, o Benjamin, envolto num avental e com a cabeça baixa na cadeira se antecipa: “tudo bem – não fosse a chuvinha de ontem!”. 

O barbeiro: “o que é isso!? 

Mas bah; mas é ligado esse piazinho, hein! Nossa....!”.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Historias do Benjamin (7)

 

17º – Musiquinha que o Benjamin cantava enquanto andava de balanço – incentivado pela vovó Sonia: “na casa da vovó tem cipó; na casa do vovô tem um cocô; na casa da vizinha tem uma galinha; na casa do papai tem tênis; na casa da mamãe tem um coração e na casa do Benjamin tem – fu-te-bolllll!’. Penso que o... “na casa do vovô tem um cocô, referia-se aos dejetos dois cachorrinhos que temos – Kenzo e Napoleão” que o Benjamin via eu recolher toda hora.


18ª – Em setembro de 2020 fomos buscar a Sonia na fisioterapia ali no Centro Clínico do HC. 
E Sonia atrasou e não vinha. E nós já meio impacientes até que eu disse: “essa vovó...”. 
E ele "é mesmo; essa vovó me mata!".



sexta-feira, 6 de maio de 2022

Historias do Benjamin (6)

 

Imagem Nossa Senhora de Fátima/Assessoria 

16ª – O Benjamin tinha em torno de dois anos. Estávamos na frente da imagem de Nossa Senhora de Fátima e comecei a rezar, pedindo que ele repetisse. 

Eu: "... Ave Maria... 

Ele: Ave Maria...

Eu: Cheia de graça...

Ele: Cheia de Graça...

E assim avançamos... 

até...

Eu: Santa Maria Mãe de Deus...

Ele: Santa Maria Mãe de Deus...

Eu: Rogai por nós pecadores...

Ele: Rogai por nós pecadores....

Eu: Agora e na hora... 

E o Benjamin: Agora e na hora... de nós ir embora".

Eu: Quase me rindo todo. "Que é isso Benjamin!". 


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Histórias do Benjmain (5)

 

Krakatoa

12ª – Uma vez mostrei no celular um vulcão em erupção. Era o Krakatoa. Dali em diante ele começou a pedir para ver o vulcão "o krakatoa vovô Ody!”.


13ª – Quando o Benjamin tinha dois anos, o Marcelo, pai dele me contou. “Estava com o Benjamin ontem de noite e de repente ele jogou alguma coisa no chão (não lembro o que era...) E segue o Marcelo: “O que é isso Benjamin! Você pode jogar isso no chão!?” E o Ben: “Certamente que sim – papai!”. (2018)

 

14ª – Quando fez 3 anos o Benjamin foi na bisavó Melita Ody (falecida em março último/2022) buscar seu presente. Ganhou uma nota de R$100. Ele jogou a nota no chão. “Isso não é presente. Eu não quero um bilhete. Eu quero um presente de abrir”. (abril/2019).

 

15ª – Quando a bisavó Melita fez 88 anos, o Benjamin com sua acompanhante das manhãs, foi levar um presente a ela. Era um cartão e não lembro mais o quê. Alguém perguntou: “Benjamin, quantos anos a bisa está fazendo?”. E ele pensando: “... ahmmm, não sei... é velha!”.

 


 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Histórias do Benjamin (4)

 

9ª – Retornando do São José, passando pela Casa das Carnes, na Henrique Schwering, cedo – o Benjamin aprendeu o que era um porquinho, um cavalo, um boi, uma ovelha. Tem na frente umas reproduções. E antes mesmo de dobrar a esquina ele já avisava: “Estamos chegando ...”.  “Estamos chegando aonde Ben?”; “nos bichinhos!”. (2018).

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10ª – Ainda na volta do São José a Sonia contava uma historinha de uma cachorrinha que teria se perdido no Mato da Comissão. Muito cedo (na vida dele) – quando o Benjamin via o mato ele já pedia: “Conta a história da cachorrinha vovó!”. (2018)

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11ª – Ainda no Natal de 2019. O Benjamin ganhou um microfone com pedestal do Papai Noel. Pois, bem mais tarde depois do Papai Noel sair, o BeN resolveu pegar o microfone e cantou uma parte da música de Luan Santana “Era uma vez”. E ele... “É que a gente quer crescer/E quando cresce quer voltar do início/
Porque um joelho ralado dói bem menos/
Que um coração partido”...

Ficamos nos olhando.

(Natal de 2019).


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sábado, 30 de abril de 2022

História do Benjamin (3)

Benjamin 

 

6ª – Depois de brincar na minha casa, sugerimos aos Benjamin dormir com o vovô.

Ao que ele reagiu: “Não posso”.

E nós: “Por que não?”.

E ele: “tenho compromisso amanhã!”.

E eu: tu tá querendo me enrolar...

E ele: Sim, to querendo enrolar! (20/8)

 

7ª – No Natal de 2019 o Benjamin tinha dois anos e oito meses. O Papai Noel (André) veio aqui em casa entregar os presentes. O André é o legítimo Papai Noel. Paciente e simpático. Depois da entrega dos presentes, acompanhamos o Papai Noel à saída. Mas não foi tão fácil ele se levantar da cadeira de descanso. Quando saíamos, o Papai Noel que já é grandão, ficou ainda maior com aquelas roupas. Foi então que o Benjamin saiu-se com a pergunta: “Papai Noel, como você faz prá passar na chaminé?”. Todos se olharam e o Papai Noel teve que improvisar uma resposta adequada. (12/2018).

 

8ª – Todas segundas-feiras eu e a Sonia buscávamos o Benjamin no São José. Para sua idade, dois anos, ele começava a falar – mas mais que isso – a se expressar. Um dia a Sonia disse que. “Que tal, quando chegarmos em casa, a gente fazer hoje pipoca...”. Aí ele deixou escapar: “Boa ideia vovó!”. (2018).


(Estou recuperando algumas lembranças do meu neto neto Benjamin. Não é prá aparecer. quem sabe um dia ela possa se deliciar com isso. E, ademais, uma homenagem aos avós. Quem é - sabe).

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Histórias do Benjamin (2)

Benjamim

Dando seguimento às respostas, perguntas, "tiradas" e "sacadas" do meu neto quando tinha uns dois anos. Vou publicar algumas para ele ler quando crescer. E não deixa de ser uma homenagem aos avós. 


3ª – No mesmo dia da resposta sobre o 'banho relaxante'.

Eu: hoje brincamos bastante Benjamin. Tu vai dormir bem...

Benjamin: "sim, sem pânico". Era 10 de agosto de 2018/19 não lembro.

 

4ª -  Com um ano e cinco meses... !

Sonia ao telefone falando com sua mãe, dona Terezinha: "mãe... parece que a vó Geni não está bem. Estaria nas últimas..".

Benjamin ouvindo atrás:  "é! Tá nas última".

No dia seguinte a senhora Geni viria a falecer. Se não me engano foi no dia em que Bolsonaro levou a facada. (Conto não querendo destacar como se ele fosse uma "adivinho", mas porque achei engraçado o modo como ele caminhava atrás da Sonia e repetia. E eu perdi uma expectadora fiel do programa Painel).

 

5ª – Benjamim com três anos em 2020

Era o Grenal da Libertadores na Pandemia

Eu: hoje tem Grenal, Ben. 

Quem vai ganhar... Inter ou Grêmio?

Benjamin gremista como o pai e a mãe: "o Grêmio – moleza". 

Deu Grêmio 2 a 0.

 


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Histórias do Benjamin (1)

 

Benjamin - com 2 anos (2018)

Meu neto Benjamin Ody Chinazzo completou cinco anos terça-feira, 27. Foi uma festinha de aniversário simples, mas bem frequentada por amiguinhos e amiguinhas dele. E, também dos pais, sem os respectivos diminutivos.

Houve um tempo, lá quando ele tinha seu um ano e meio ou um pouco mais, quase dois; algumas frases, perguntas, respostas, “tiradas” ou “sacadas”, começaram a chamar minha atenção. Provavelmente eu não estivesse pronto para ouvir e perceber como são “as crianças de hoje”. Mas, enfim, certa feita comecei a guardar de memória (perdi algumas) ou a anotar suas reações. Hoje, sei claramente, que devia ter começado antes.

Então, guardei algumas, e depois, também disto descuidei. A pandemia nos distanciou. Abriu um buraco nos nossos encontros. Foi como um tempo que sonhei, malgrado as irreparáveis perdas. Ficou como um daqueles fatos impossíveis de serem recuperados. Mas, o Benjamin nesses seus cinco anos, muita coisa deve ter dito em outros encontros, lugares e com outras pessoas, sem que eu estivesse presente, e isso é óbvio.

Vou começar a contar algumas. Se possível, a cada dia uma ou duas, que denomino “Histórias do Benjamin” – (Hoje - 1ª e 2ª).


"Atrás da minha casa, sob um pergolado tem (ou mlehor - tinha), uma cascatinha com água e umas pedrinhas com uma tartaruguinha de metal. (Hoje em dia não sei mais onde foi parar aquilo em função de reformas). Funcionava com um motorzinho sob a superfície que ia tocando a água que dava voltas, passando por vários espaços, até derramar de uma jarrinha de volta para o recipiente. O Benjamin adorava brincar ali e dizia que a água salvava a tartaruguinha. Certo dia, como estava frio, recomendei: “cuidado, não vai se molhar. Tá frio e a água mais ainda”.

E ele: "Vovô - era só o que me faltava!"

Era 9 de agosto de 2018 ou 19. Não lembro. Ele nasceu em abril de 2017.


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2ª – Um dia desses lá em casa (quando digo um dia desses foi lá por 2018); depois de jogarmos bola no pequeno espaço dos fundos, andar de balanço que colocamos na garagem - sugeri: “agora chega. Vamos tomar um banho (o velho vô estava ficando cansadinho) e depois...

Benjamin: "Sim vovô, um banho de chuveiro bem relaxante". Era 10 de agosto de 2018.-


quinta-feira, 24 de março de 2022

A noite que dormi na Capela Mortuária

 

Melita Ody

Dia 5 de março de 2022. Sábado.

1

Decidimos - meus dois irmãos Gilberto e Vanderlei e eu - que não precisava mais reabrir o caixão para um último adeus à minha mãe Melita. Já nos despedíramos na capela. Estava sim – morta. Não havia o que reconferir. Era hora de irmos embora. Os pedreiros fecharam o que ainda supúnhamos – vida e fomos para casa.

O carro fúnebre já estava na porta do cemitério quando cheguei. Foi um deslocamento rápido do Pio XII até a Capela B do HC.

Na capela todos nos despedimos dela, familiares, parentes, vizinhos e muitos amigos. A tampa do caixão saiu do encosto da parede e encobriu a mãe com sua medalhinha e flores.

O diácono emérito da igreja São Pedro, Almeri Borneli, conduziu as preces e disse palavras simples, rápidas, importantes e reconfortantes. Sem firulas falou o essencial.

Antes das 10 horas a capela foi enchendo. Parentes vindos de cidades vizinhas chegavam. O irmão dela, Rainoldo, de 93 ou 94 anos veio de Aratiba, alquebrado pelo tempo e trazido pelas filhas. Outros vieram de Santa Catarina. Às 10 horas a capela B do HC ficou pequena. Às 9 horas começaram a chegar e chegar. Às 8 horas meu irmão Gilberto estava na Catedral para pegar um documento para o sepultamento. Meu irmão Vanderlei fora na São Pedro acertar a vinda do diácono.

2

Às 6 horas já havia quem corresse em volta do Parque Longines Malinowski. Mais mulheres que homens inspirando o perfume das árvores.

Abri a capela às 5h10min e tudo estava dormindo como a quietude do Mato da Comissão. Eram as quietudes de quase 90 anos: do mato e da mãe com seu modo de ser.

Às 5 horas levantei tirei uma manta com a qual me cobrira. E levantei do sofá da capela. Era mais cochilo do que sono.

Meu irmão Gilberto ainda tentou se remexer no outro sofá – mas logo decidiu também levantar.

Às 4 horas abri os olhos. Às 4h30min eu levantei. Dei um volta pela capela. Não havia calor nem frio. Só silêncio com suas mil perguntas.

Ali deitada quieta como fora em vida – minha mãe descansava no caixão emoldurado por flores, luz de vela à energia e o crucifixo atrás. No canto da capela o tampão esperava por seu papel.

Às 3 horas me acordei e com a cabeça recostada num travesseiro que meu irmão trouxera de casa, abria os olhos, vira o olhar à esquerda e via a primeira parte do caixão. Era o rosto da minha mãe. Mudo. Pálido. Sereno. Tal qual fora assim lá acomodado.

Olhava e olhava, fechava os olhos, tomado por um misto de sonho e realidade. Mas era esta é que era.

Pensei comigo: dormi em muitas camas, dormi na casa de parentes, amigos, dormi em bancos de rodoviária, em carros, em poltronas, até em casas de má fama, – mas nunca em uma capela mortuária.

Pouco antes das 3 horas, meu irmão Vanderlei e sua esposa Cecília foram para casa descansar. Todos os demais também já tinham também se retirado, afinal... Decidimos que Gilberto e eu ficaríamos à noite.

Fechados à chave na capela mortuária com minha mãe e seu sono eterno.

No dia 4, na noite anterior, sexta-feira, portanto, alguns vizinhos e conhecidos mais próximos apareceram. Surpresos com o falecimento da dona Melita – residente há 65 anos ali na Jerônimo Teixeira, defronte ao antigo portão do Mantovani. Antigo e primeiro.

3

Voltando ainda no tempo – às 21h30min o carro fúnebre chegou na capela para depositar o caixão. Minha mãe estava vestida com a roupa que pedira e discretamente maquiada.  Maquiada?

Antes disso saímos a providenciar questões burocráticas (porém necessárias): como qual funerária, o que forneciam, documentos para identificar quem partira, informar a imprensa, disparar mensagens pelo WhatsApp, definir horário do velório, fecharíamos ou não a capela, missa ou encomendação, horário de sepultamento, avisar parentes, vizinhos e amigos, etc. Essas coisas que a gente vai fazendo, passando por cima, superando uma a uma sem se dar contar. Não há tempo para pensar em nada. Só em ir fazendo.

 

Eram 17h10min daquela sexta-feira, 4, quando meu celular tocou com um número não identificado. Só me lembro que disse: “Ai!”. Era o Moacir – enfermeiro com uns 30 a 35 anos de HC. Figura afável. Estava agora lotado há tempos na UTI. Com voz pausada apenas disse: “Seu Ody... a dona Melita... a sua mãe... (fez uma pausa)... (não precisava dizer mais nada)... não conseguiu resistiu. Ela acabou de falecer”. Não posso definir o que senti. Agradeci. Liguei para meus irmãos.

4

Fui ao hospital e à UTI. O enfermeiro Moacir e o Dr. Spada me receberam em silêncio. Nos dirigimos até o último leito da mãe. Descobri o lençol que a encobria. Estava sem ar. Sem batimentos. Sem sinais. Mais quieta de como sempre preferira em vida. A única coisa que eu conseguia ouvir era o silêncio da UTI. Beijei-lhe a testa. Nenhuma reação, como se fosse possível. Nem 40 minutos antes, meu irmão Vanderlei, na visita permitida à tarde, ainda a vira com vida – sustentada por medicamentos potentes e aparelhos. Eu e a cunhada Gelsa tínhamos estado com ela na visita do meio dia.

Antes de devolver o lençol sobre seu rosto – vi claramente que sim, ela estava sem vida. Era o fim de uma caminhada de 89 anos. O enfermeiro Moacir e o Dr. Spada, assim como a enfermeira Miriam – gentis, sentidos e sempre muito solícitos – quase não disseram nada, porque não havia o que dizer. Tratei de agradecer a delicadeza deles com que trataram e cuidaram da minha mãe desde a entrada na UTI – um dia e meio antes – na quarta-feira à noite, dia 2. Estava enfartada, de tal azar, que o cateterismo, tentado quinta, dia 3, tornou-se inviável de tão complexo era o quadro da dona Melita.

Como sempre pedia (nunca soube se por seriedade ou brincadeira) “só não me enterrem viva!”. Sim ela estava, definitivamente, morta.

5

18 de setembro de 1952.

Descida do cavalo e levada às pressas para dentro do Hospital do Dr. Pecoits em Aratiba, depois de 20 km e duas a três horas, eu vinha ao mundo. Deus e minha mãe deram-me a vida – claro com meu pai Alberto. Moravam em  Sede Dourado.

Uns dias no hospital, outros em Sede Dourado, hospital, Dourado, hospital... até que o médico decidiu: “ou deixa ele um tempo aqui ou um dia vão chegar tarde demais!”.

Fiquei uns dias. Noventa. Aos cuidados do Dr. Pecoits e da enfermeira Maria que nunca vim a conhecer. Até que enfim melhorei, estabilizei e me levaram pra casa em Dourado.

Dois anos depois fomos para São Miguel D’Oeste. Um ano depois para Erechim. Sentados na escada do Escritório Contábil do Lewis Caron, na Tiradentes (disso começo a lembrar) almoçamos: pão, banana e um pedaço de salame.

6

Moramos de aluguel na esquina da Pedro Álvares Cabral com a que sobe pra Praça Jayme Lago. Era um casarão de madeira pintado de preto. Meu pai abriu uma alfaiataria na Nelson Ehlers com o irmão Augusto. Guardando o que podia – acertou com Celeste Dal Prá a construção de uma casa de madeira na Jerônimo Teixeira, onde no caso da minha mãe, residiu por cerca de 65 anos. Tínhamos uma casa. Um sonho de minha mãe.

Minha paisagem passou a ser o descampado onde seria um tempo mais tarde o Mantovani. Era um lugar amplo que recebia ciganos, circo, estacionamento para os Atlangas, a casa da Alba Albarello na esquina do Mantovani com o Atlântico, o colégio em 1964, a Banda Marcial, os jogos no Atlântico, minha mãe na máquina de costura juntando os cortes feitos pelo pai com seu tesourão preto, as infindáveis visitas de parentes que vinham de ônibus desde Dourado e iam à alfaiataria e, depois, desciam pela Nelson Ehlers, convidados pelo pai para almoçarem lá em casa. Lembro de uma frase fantástica da mãe: “naqueles tempos, todo dia lá pelas 11:30, eu ia no portão para ver quantos chapéus vinham dobrando com o pai a Nelson Ehlers até a Jerônimo Teixeira. O número de chapéus mostrava a água que precisava emendar no feijão. Mas – reconheça-se sempre traziam ovos, mandioca, queijo, pão, salame, batatas, bergamotas... 

7

Minha mãe com suas intermináveis dores de cabeça, com seus cuidados para andarmos bem arrumados, suas queixas com o filho que fez isso ou aquilo e não obedeceu, com seus medos de temporais, com seus quatro filhos que haveriam de nascer, com suas malas pra passarmos o fim de semana em Sede Dourado, com as atenções para nossos temas de casa; minha mãe com a pior dor que uma mãe pode passar – a perda da única filha aos 20 anos num estúpido acidente (?) ou crime de trânsito em um sábado à noite (maio de 1975) -, minha mãe com a preocupação dos filhos em arrumar um trabalho, com o rádio sempre, sempre ligado, com a Copa do Mundo de 70 vista na TV da vizinha dona Luiza Rodrigues. Minha mãe e os irmãos empurrando a Barata 1946 do pai que não pegava, ou patinava na saída da garagem. Minha mãe e a retirada da Legião (mais de 200 casinhas) e a implantação das casas do BNH como se dizia. Minha mãe e a neve de 1965. Minha mãe e o medo do fogo do Paraná. O incêndio do Colégio das Irmãs. Minha mãe e os programas de “completar as palavras”. Minha mãe e minhas alpargatas pra ir ao Grupo Escolar Campos Sales. Minha mãe me levando na Foto Tomazzoni para a foto da Primeira Comunhão – felizes, mas eu me soltara, e correndo sobre um amontoado de brita, caí e rasguei a calça. Saí na foto com cara de choro. Minha mãe e as missas das 8 aos domingos. Minha mãe e os 10 cruzeiros pro matiné e um sorvete ou um folhado da Sem Rival. Minha mãe e os boletins. Minha mãe e seus risotos imbatíveis, das cucas também imbatíveis. Das domingueiras com o J. Silvestre e o Flávio Cavalcanti. Depois o Silvio Santos. A mãe dos mates-doce, das pipocas e waffle em dia de chuva. A mãe da “salada de batatas com ovo e azeite” (nossa maionese). A mãe do Detefon e dos “boa-noite” queimando contra os mosquitos nos quartos. A mãe dos acolchoados grossos de pena a nos cobrir até as orelhas.  A formatura do 2º grau no Atlântico. Minha mãe e meus trabalhos no Posto Atlantic, Santa Terezinha, bar do Massaro, Sponchiado. Minha mãe e eu no CPOR. Minha mãe e a aprovação no vestibular de Economia em 1972 no Cese (Centro de Ensino Superior de Erechim) com os “gerentões” da cidade. Problema: chegou um dia e não podia mais pagar. Passei então a rodar pilhas e pilhas de provas no mimeógrafo da faculdade. Comecei uma biblioteca com estandes de escritório. Varria o pátio. Lustrava móveis. Passava pano nas classes e cadeiras. Varria as salas pra ficar livre da mensalidade. A mãe dos meus álbuns de figurinhas. A mãe na casa do meu irmão Gilberto (Nico) e de sua esposa Gelsa – com seus grostolis e bolachinhas. A mãe dos programas de fofocas de famosos na TV. A dona Melita e sua torcida para times em plena Champions League. Imagina só! Minha mãe dos 10 gritos pelo nome, me chamando das peladas no Atlântico para ir pra casa. Minha mãe e a Academia Erechinense de Letras. Minha mãe e o Brasil Urgente. A guerra na Ucrânia. Minha mãe e o amor pelas netos Cris e Ana; Eduardo, Elisa e Guilherme. A mãe com o bisneto Benjamin que ao lhe dar de presente 100 reais - o Ben reagiu que não queria um bilhete, mas um presente! A mãe e os almoços em família com a Sonia na cozinha. Mãe a filhos que empurravam Jeeps que de repente apagavam o motor na estradinha pra Dourado, mãe que brilhou os olhos quando o pai encostou um Fusca zero km em casa.  A mãe dos Kerbs de Dourado, do remédio para todos os males da barriga, a Olina; a mãe que me tirava os espinhos dos pés e dedos, com sua agulha - destreza de enfermeira ou de costureira! Ah - a mãe política de todas as eleições, dos candidatos, das pesquisas, das opiniões, dos palpites. A mãe pessimista, mas com torcida para vencer e, assim; degustar mais eventual vitória. A mãe que sabia de todos os relacionamentos, herdeiros e inquilinos. De todas as mortes. 

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Um dia saltei da Filosofia da UFSM para o jornalismo da PUC em Porto Alegre. E eu na rádio Difusora, no Canal 10, na Assembleia Legislativa e finalmente na Caldas Júnior, o templo da imprensa nos anos 1970. Ligava para ela contando as novidades telefonando para a vizinha da esquina e amiga dela – dona Romilda Rambo. A mãe se orgulhava. A mãe e a grande amiga dela, dona Teodolinda Fachini, mãe do meu amigo João Cláudio Fachini. Quantas visitas. Quantas confidências. Quanto tempo...!

Minha mãe do Atlântico de campo, depois do futsal. Do Inter e do Ypiranga. Minha mãe das novelas. Das “provas” para ajustes das costuras. Do “vai buscar lenha no porão e trás gravetos”. Minha mãe do rádio: das notícias, do carnê social da Erechim, do Clube Infantil, do Assim Canta o Rio Grande com Gildinho e Chiquito, do imperdível Jornal Falado, da Hora da Ave Maria, do Mensageiro Gaúcho da Difusão, e mais notícias e noticiais. Nunca soube por que quis me tornar jornalista – mas desconfio que achei a resposta: minha mãe com o 4º livro sabia mais do que eu sobre meu futuro. As mães podem ser mais falantes ou caladas, mas geralmente sabem mais sobre seus filhos do que eles. Lhes iluminam por onde seguir. Minha mãe e meu casamento. Meus filhos. Meu neto. Minha mãe com cara fechada – quieta. Emburrada. Mas – à bem da verdade, quando a conversa engrenava, ela ia longe. Sem alarde, era bem informada sobre as coisas da vida. Minha mãe e seu sonho de adolescente de ser professora – mas as condições, a cultura e as necessidades familiares substituíram-lhe o lápis pelo cabo da enxada. Minha mãe da roça e da cidade. 

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Minha mãe com vitórias e derrotas, alegrias e decepções, teimosias, vitimismos (enfim não somos iguais...). Pensando bem (se é possível imaginar); que diabo que há de se condenar uma mãe que vê sua única filha sair para um aniversário aos 20 anos e voltar em um caixão!? Quem se atreve a fazer esse julgamento? Passados quase 47 anos da partida da sua filha Maria Ceci – perguntei como ela conseguira continuar vivendo na casa onde velara a filha: “mas não tem outro jeito”, disse como que fazendo uma resposta curta e completa. Teve apoios. Rezou, chorou, etc... mas... isso é demais! Minha mãe com um marido alto, forte, bonito e de caráter – que menos de um ano após o episódio com minha irmã, viu-se amarrado pelo Mal de Parkinson com 57 anos e, aos poucos, ir “definhando” até a morte lhe abreviar o sofrimento aos 73 anos. Afora as decepções comigo, por exemplo, enfim, minha mãe com quedas e reerguimentos – viveu como lhe foi possível viver. Minha mãe da Rede Vida. Dos rosários. Da fé. Da eterna preocupação com os seus. Mãe – aquele porto seguro e socorrista de todas as horas e problemas. Qualquer coisa e “vou chamar a mãe”, “vou contar pra mãe”, “tu vai vê quando a mãe sabê...!”. Mães - (Melita e dona Ilda minha ex-sogra) que garantiram a casa. A mãe que na última hora salvou a casa onde moro quando estava para ser executada na justiça. A mãe das madrugadas geladas que vinha conferir se estava bem coberto. A mãe que me arrumava para a escola. Que me penteava quando tinha cabelos. Quanto tempo - mãe! A mãe Melita que sabia de todos os temporais na redondeza, que não perdia um Jovino (Alves Martins) e nem um Chôco (Difusão) abrindo as rádios às 5 da manhã. A mãe que sabia da transferência de todos os padres e se orgulhava de ver a filha descendo a Maurício pela Banda Escocesa do JB.

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Minha mãe que só deitou em uma cama de hospital (afora os partos), para uma cirurgia de fratura de fêmur, aos 87 anos. Minha mãe que queria ir para o céu, mas não almejava a morte. Minha mãe que brincava ou falava sério! – “só não me enterrem viva!” e então – abria um leve sorriso. Minha mãe e suas pantufas, seus casacões de inverno, suas caixas de bom-bons a cada Natal. Minha mãe que jamais se cansou de economizar – para amanhã não faltar. Para uma emergência. Minha mãe Melita – que sofreu um enfarte às 20 horas do dia 2, uma quarta-feira, estava morta às 17 horas de sexta-feira, dia 5. Foi tudo muito inesperado e rápido. Às 19 horas tomou café. Às 20 horas foi deitar. Dez minutos depois chamou pelo Gilberto e, sentada na cama, disse: “nunca me senti tão mal na vida como agora. E vomitou”. Minutos depois estava na emergência. Exames de sangue, eletro, etc... Da emergência à UTI. Minha mãe de 89 anos de sacrifícios, temores e receios (justificados) e, por que não, de alegrias, finalmente livrara-se de seu último medo o “de ser enterrada viva”. Eu a vi na UTI. O atestado de óbito confirmava. E depois na capela mortuária. Não havia mais, nesta vida de carne e osso, temer o que quer que fosse. Estava morta. Fisicamente. A fé em Cristo neste tempo de quase Páscoa, sonhar que a dona Melita, finalmente reencontrou-se com seu marido Alberto e com sua filha Maria Ceci – recomeçando uma outra vida, uma nova vida, a vida eterna, mais que um consolo é um alento. A esperança que nos dá forças e impulsiona a seguir em frente.