sábado, 30 de abril de 2022

História do Benjamin (3)

Benjamin 

 

6ª – Depois de brincar na minha casa, sugerimos aos Benjamin dormir com o vovô.

Ao que ele reagiu: “Não posso”.

E nós: “Por que não?”.

E ele: “tenho compromisso amanhã!”.

E eu: tu tá querendo me enrolar...

E ele: Sim, to querendo enrolar! (20/8)

 

7ª – No Natal de 2019 o Benjamin tinha dois anos e oito meses. O Papai Noel (André) veio aqui em casa entregar os presentes. O André é o legítimo Papai Noel. Paciente e simpático. Depois da entrega dos presentes, acompanhamos o Papai Noel à saída. Mas não foi tão fácil ele se levantar da cadeira de descanso. Quando saíamos, o Papai Noel que já é grandão, ficou ainda maior com aquelas roupas. Foi então que o Benjamin saiu-se com a pergunta: “Papai Noel, como você faz prá passar na chaminé?”. Todos se olharam e o Papai Noel teve que improvisar uma resposta adequada. (12/2018).

 

8ª – Todas segundas-feiras eu e a Sonia buscávamos o Benjamin no São José. Para sua idade, dois anos, ele começava a falar – mas mais que isso – a se expressar. Um dia a Sonia disse que. “Que tal, quando chegarmos em casa, a gente fazer hoje pipoca...”. Aí ele deixou escapar: “Boa ideia vovó!”. (2018).


(Estou recuperando algumas lembranças do meu neto neto Benjamin. Não é prá aparecer. quem sabe um dia ela possa se deliciar com isso. E, ademais, uma homenagem aos avós. Quem é - sabe).

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Histórias do Benjamin (2)

Benjamim

Dando seguimento às respostas, perguntas, "tiradas" e "sacadas" do meu neto quando tinha uns dois anos. Vou publicar algumas para ele ler quando crescer. E não deixa de ser uma homenagem aos avós. 


3ª – No mesmo dia da resposta sobre o 'banho relaxante'.

Eu: hoje brincamos bastante Benjamin. Tu vai dormir bem...

Benjamin: "sim, sem pânico". Era 10 de agosto de 2018/19 não lembro.

 

4ª -  Com um ano e cinco meses... !

Sonia ao telefone falando com sua mãe, dona Terezinha: "mãe... parece que a vó Geni não está bem. Estaria nas últimas..".

Benjamin ouvindo atrás:  "é! Tá nas última".

No dia seguinte a senhora Geni viria a falecer. Se não me engano foi no dia em que Bolsonaro levou a facada. (Conto não querendo destacar como se ele fosse uma "adivinho", mas porque achei engraçado o modo como ele caminhava atrás da Sonia e repetia. E eu perdi uma expectadora fiel do programa Painel).

 

5ª – Benjamim com três anos em 2020

Era o Grenal da Libertadores na Pandemia

Eu: hoje tem Grenal, Ben. 

Quem vai ganhar... Inter ou Grêmio?

Benjamin gremista como o pai e a mãe: "o Grêmio – moleza". 

Deu Grêmio 2 a 0.

 


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Histórias do Benjamin (1)

 

Benjamin - com 2 anos (2018)

Meu neto Benjamin Ody Chinazzo completou cinco anos terça-feira, 27. Foi uma festinha de aniversário simples, mas bem frequentada por amiguinhos e amiguinhas dele. E, também dos pais, sem os respectivos diminutivos.

Houve um tempo, lá quando ele tinha seu um ano e meio ou um pouco mais, quase dois; algumas frases, perguntas, respostas, “tiradas” ou “sacadas”, começaram a chamar minha atenção. Provavelmente eu não estivesse pronto para ouvir e perceber como são “as crianças de hoje”. Mas, enfim, certa feita comecei a guardar de memória (perdi algumas) ou a anotar suas reações. Hoje, sei claramente, que devia ter começado antes.

Então, guardei algumas, e depois, também disto descuidei. A pandemia nos distanciou. Abriu um buraco nos nossos encontros. Foi como um tempo que sonhei, malgrado as irreparáveis perdas. Ficou como um daqueles fatos impossíveis de serem recuperados. Mas, o Benjamin nesses seus cinco anos, muita coisa deve ter dito em outros encontros, lugares e com outras pessoas, sem que eu estivesse presente, e isso é óbvio.

Vou começar a contar algumas. Se possível, a cada dia uma ou duas, que denomino “Histórias do Benjamin” – (Hoje - 1ª e 2ª).


"Atrás da minha casa, sob um pergolado tem (ou mlehor - tinha), uma cascatinha com água e umas pedrinhas com uma tartaruguinha de metal. (Hoje em dia não sei mais onde foi parar aquilo em função de reformas). Funcionava com um motorzinho sob a superfície que ia tocando a água que dava voltas, passando por vários espaços, até derramar de uma jarrinha de volta para o recipiente. O Benjamin adorava brincar ali e dizia que a água salvava a tartaruguinha. Certo dia, como estava frio, recomendei: “cuidado, não vai se molhar. Tá frio e a água mais ainda”.

E ele: "Vovô - era só o que me faltava!"

Era 9 de agosto de 2018 ou 19. Não lembro. Ele nasceu em abril de 2017.


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2ª – Um dia desses lá em casa (quando digo um dia desses foi lá por 2018); depois de jogarmos bola no pequeno espaço dos fundos, andar de balanço que colocamos na garagem - sugeri: “agora chega. Vamos tomar um banho (o velho vô estava ficando cansadinho) e depois...

Benjamin: "Sim vovô, um banho de chuveiro bem relaxante". Era 10 de agosto de 2018.-


quinta-feira, 24 de março de 2022

A noite que dormi na Capela Mortuária

 

Melita Ody

Dia 5 de março de 2022. Sábado.

1

Decidimos - meus dois irmãos Gilberto e Vanderlei e eu - que não precisava mais reabrir o caixão para um último adeus à minha mãe Melita. Já nos despedíramos na capela. Estava sim – morta. Não havia o que reconferir. Era hora de irmos embora. Os pedreiros fecharam o que ainda supúnhamos – vida e fomos para casa.

O carro fúnebre já estava na porta do cemitério quando cheguei. Foi um deslocamento rápido do Pio XII até a Capela B do HC.

Na capela todos nos despedimos dela, familiares, parentes, vizinhos e muitos amigos. A tampa do caixão saiu do encosto da parede e encobriu a mãe com sua medalhinha e flores.

O diácono emérito da igreja São Pedro, Almeri Borneli, conduziu as preces e disse palavras simples, rápidas, importantes e reconfortantes. Sem firulas falou o essencial.

Antes das 10 horas a capela foi enchendo. Parentes vindos de cidades vizinhas chegavam. O irmão dela, Rainoldo, de 93 ou 94 anos veio de Aratiba, alquebrado pelo tempo e trazido pelas filhas. Outros vieram de Santa Catarina. Às 10 horas a capela B do HC ficou pequena. Às 9 horas começaram a chegar e chegar. Às 8 horas meu irmão Gilberto estava na Catedral para pegar um documento para o sepultamento. Meu irmão Vanderlei fora na São Pedro acertar a vinda do diácono.

2

Às 6 horas já havia quem corresse em volta do Parque Longines Malinowski. Mais mulheres que homens inspirando o perfume das árvores.

Abri a capela às 5h10min e tudo estava dormindo como a quietude do Mato da Comissão. Eram as quietudes de quase 90 anos: do mato e da mãe com seu modo de ser.

Às 5 horas levantei tirei uma manta com a qual me cobrira. E levantei do sofá da capela. Era mais cochilo do que sono.

Meu irmão Gilberto ainda tentou se remexer no outro sofá – mas logo decidiu também levantar.

Às 4 horas abri os olhos. Às 4h30min eu levantei. Dei um volta pela capela. Não havia calor nem frio. Só silêncio com suas mil perguntas.

Ali deitada quieta como fora em vida – minha mãe descansava no caixão emoldurado por flores, luz de vela à energia e o crucifixo atrás. No canto da capela o tampão esperava por seu papel.

Às 3 horas me acordei e com a cabeça recostada num travesseiro que meu irmão trouxera de casa, abria os olhos, vira o olhar à esquerda e via a primeira parte do caixão. Era o rosto da minha mãe. Mudo. Pálido. Sereno. Tal qual fora assim lá acomodado.

Olhava e olhava, fechava os olhos, tomado por um misto de sonho e realidade. Mas era esta é que era.

Pensei comigo: dormi em muitas camas, dormi na casa de parentes, amigos, dormi em bancos de rodoviária, em carros, em poltronas, até em casas de má fama, – mas nunca em uma capela mortuária.

Pouco antes das 3 horas, meu irmão Vanderlei e sua esposa Cecília foram para casa descansar. Todos os demais também já tinham também se retirado, afinal... Decidimos que Gilberto e eu ficaríamos à noite.

Fechados à chave na capela mortuária com minha mãe e seu sono eterno.

No dia 4, na noite anterior, sexta-feira, portanto, alguns vizinhos e conhecidos mais próximos apareceram. Surpresos com o falecimento da dona Melita – residente há 65 anos ali na Jerônimo Teixeira, defronte ao antigo portão do Mantovani. Antigo e primeiro.

3

Voltando ainda no tempo – às 21h30min o carro fúnebre chegou na capela para depositar o caixão. Minha mãe estava vestida com a roupa que pedira e discretamente maquiada.  Maquiada?

Antes disso saímos a providenciar questões burocráticas (porém necessárias): como qual funerária, o que forneciam, documentos para identificar quem partira, informar a imprensa, disparar mensagens pelo WhatsApp, definir horário do velório, fecharíamos ou não a capela, missa ou encomendação, horário de sepultamento, avisar parentes, vizinhos e amigos, etc. Essas coisas que a gente vai fazendo, passando por cima, superando uma a uma sem se dar contar. Não há tempo para pensar em nada. Só em ir fazendo.

 

Eram 17h10min daquela sexta-feira, 4, quando meu celular tocou com um número não identificado. Só me lembro que disse: “Ai!”. Era o Moacir – enfermeiro com uns 30 a 35 anos de HC. Figura afável. Estava agora lotado há tempos na UTI. Com voz pausada apenas disse: “Seu Ody... a dona Melita... a sua mãe... (fez uma pausa)... (não precisava dizer mais nada)... não conseguiu resistiu. Ela acabou de falecer”. Não posso definir o que senti. Agradeci. Liguei para meus irmãos.

4

Fui ao hospital e à UTI. O enfermeiro Moacir e o Dr. Spada me receberam em silêncio. Nos dirigimos até o último leito da mãe. Descobri o lençol que a encobria. Estava sem ar. Sem batimentos. Sem sinais. Mais quieta de como sempre preferira em vida. A única coisa que eu conseguia ouvir era o silêncio da UTI. Beijei-lhe a testa. Nenhuma reação, como se fosse possível. Nem 40 minutos antes, meu irmão Vanderlei, na visita permitida à tarde, ainda a vira com vida – sustentada por medicamentos potentes e aparelhos. Eu e a cunhada Gelsa tínhamos estado com ela na visita do meio dia.

Antes de devolver o lençol sobre seu rosto – vi claramente que sim, ela estava sem vida. Era o fim de uma caminhada de 89 anos. O enfermeiro Moacir e o Dr. Spada, assim como a enfermeira Miriam – gentis, sentidos e sempre muito solícitos – quase não disseram nada, porque não havia o que dizer. Tratei de agradecer a delicadeza deles com que trataram e cuidaram da minha mãe desde a entrada na UTI – um dia e meio antes – na quarta-feira à noite, dia 2. Estava enfartada, de tal azar, que o cateterismo, tentado quinta, dia 3, tornou-se inviável de tão complexo era o quadro da dona Melita.

Como sempre pedia (nunca soube se por seriedade ou brincadeira) “só não me enterrem viva!”. Sim ela estava, definitivamente, morta.

5

18 de setembro de 1952.

Descida do cavalo e levada às pressas para dentro do Hospital do Dr. Pecoits em Aratiba, depois de 20 km e duas a três horas, eu vinha ao mundo. Deus e minha mãe deram-me a vida – claro com meu pai Alberto. Moravam em  Sede Dourado.

Uns dias no hospital, outros em Sede Dourado, hospital, Dourado, hospital... até que o médico decidiu: “ou deixa ele um tempo aqui ou um dia vão chegar tarde demais!”.

Fiquei uns dias. Noventa. Aos cuidados do Dr. Pecoits e da enfermeira Maria que nunca vim a conhecer. Até que enfim melhorei, estabilizei e me levaram pra casa em Dourado.

Dois anos depois fomos para São Miguel D’Oeste. Um ano depois para Erechim. Sentados na escada do Escritório Contábil do Lewis Caron, na Tiradentes (disso começo a lembrar) almoçamos: pão, banana e um pedaço de salame.

6

Moramos de aluguel na esquina da Pedro Álvares Cabral com a que sobe pra Praça Jayme Lago. Era um casarão de madeira pintado de preto. Meu pai abriu uma alfaiataria na Nelson Ehlers com o irmão Augusto. Guardando o que podia – acertou com Celeste Dal Prá a construção de uma casa de madeira na Jerônimo Teixeira, onde no caso da minha mãe, residiu por cerca de 65 anos. Tínhamos uma casa. Um sonho de minha mãe.

Minha paisagem passou a ser o descampado onde seria um tempo mais tarde o Mantovani. Era um lugar amplo que recebia ciganos, circo, estacionamento para os Atlangas, a casa da Alba Albarello na esquina do Mantovani com o Atlântico, o colégio em 1964, a Banda Marcial, os jogos no Atlântico, minha mãe na máquina de costura juntando os cortes feitos pelo pai com seu tesourão preto, as infindáveis visitas de parentes que vinham de ônibus desde Dourado e iam à alfaiataria e, depois, desciam pela Nelson Ehlers, convidados pelo pai para almoçarem lá em casa. Lembro de uma frase fantástica da mãe: “naqueles tempos, todo dia lá pelas 11:30, eu ia no portão para ver quantos chapéus vinham dobrando com o pai a Nelson Ehlers até a Jerônimo Teixeira. O número de chapéus mostrava a água que precisava emendar no feijão. Mas – reconheça-se sempre traziam ovos, mandioca, queijo, pão, salame, batatas, bergamotas... 

7

Minha mãe com suas intermináveis dores de cabeça, com seus cuidados para andarmos bem arrumados, suas queixas com o filho que fez isso ou aquilo e não obedeceu, com seus medos de temporais, com seus quatro filhos que haveriam de nascer, com suas malas pra passarmos o fim de semana em Sede Dourado, com as atenções para nossos temas de casa; minha mãe com a pior dor que uma mãe pode passar – a perda da única filha aos 20 anos num estúpido acidente (?) ou crime de trânsito em um sábado à noite (maio de 1975) -, minha mãe com a preocupação dos filhos em arrumar um trabalho, com o rádio sempre, sempre ligado, com a Copa do Mundo de 70 vista na TV da vizinha dona Luiza Rodrigues. Minha mãe e os irmãos empurrando a Barata 1946 do pai que não pegava, ou patinava na saída da garagem. Minha mãe e a retirada da Legião (mais de 200 casinhas) e a implantação das casas do BNH como se dizia. Minha mãe e a neve de 1965. Minha mãe e o medo do fogo do Paraná. O incêndio do Colégio das Irmãs. Minha mãe e os programas de “completar as palavras”. Minha mãe e minhas alpargatas pra ir ao Grupo Escolar Campos Sales. Minha mãe me levando na Foto Tomazzoni para a foto da Primeira Comunhão – felizes, mas eu me soltara, e correndo sobre um amontoado de brita, caí e rasguei a calça. Saí na foto com cara de choro. Minha mãe e as missas das 8 aos domingos. Minha mãe e os 10 cruzeiros pro matiné e um sorvete ou um folhado da Sem Rival. Minha mãe e os boletins. Minha mãe e seus risotos imbatíveis, das cucas também imbatíveis. Das domingueiras com o J. Silvestre e o Flávio Cavalcanti. Depois o Silvio Santos. A mãe dos mates-doce, das pipocas e waffle em dia de chuva. A mãe da “salada de batatas com ovo e azeite” (nossa maionese). A mãe do Detefon e dos “boa-noite” queimando contra os mosquitos nos quartos. A mãe dos acolchoados grossos de pena a nos cobrir até as orelhas.  A formatura do 2º grau no Atlântico. Minha mãe e meus trabalhos no Posto Atlantic, Santa Terezinha, bar do Massaro, Sponchiado. Minha mãe e eu no CPOR. Minha mãe e a aprovação no vestibular de Economia em 1972 no Cese (Centro de Ensino Superior de Erechim) com os “gerentões” da cidade. Problema: chegou um dia e não podia mais pagar. Passei então a rodar pilhas e pilhas de provas no mimeógrafo da faculdade. Comecei uma biblioteca com estandes de escritório. Varria o pátio. Lustrava móveis. Passava pano nas classes e cadeiras. Varria as salas pra ficar livre da mensalidade. A mãe dos meus álbuns de figurinhas. A mãe na casa do meu irmão Gilberto (Nico) e de sua esposa Gelsa – com seus grostolis e bolachinhas. A mãe dos programas de fofocas de famosos na TV. A dona Melita e sua torcida para times em plena Champions League. Imagina só! Minha mãe dos 10 gritos pelo nome, me chamando das peladas no Atlântico para ir pra casa. Minha mãe e a Academia Erechinense de Letras. Minha mãe e o Brasil Urgente. A guerra na Ucrânia. Minha mãe e o amor pelas netos Cris e Ana; Eduardo, Elisa e Guilherme. A mãe com o bisneto Benjamin que ao lhe dar de presente 100 reais - o Ben reagiu que não queria um bilhete, mas um presente! A mãe e os almoços em família com a Sonia na cozinha. Mãe a filhos que empurravam Jeeps que de repente apagavam o motor na estradinha pra Dourado, mãe que brilhou os olhos quando o pai encostou um Fusca zero km em casa.  A mãe dos Kerbs de Dourado, do remédio para todos os males da barriga, a Olina; a mãe que me tirava os espinhos dos pés e dedos, com sua agulha - destreza de enfermeira ou de costureira! Ah - a mãe política de todas as eleições, dos candidatos, das pesquisas, das opiniões, dos palpites. A mãe pessimista, mas com torcida para vencer e, assim; degustar mais eventual vitória. A mãe que sabia de todos os relacionamentos, herdeiros e inquilinos. De todas as mortes. 

8

Um dia saltei da Filosofia da UFSM para o jornalismo da PUC em Porto Alegre. E eu na rádio Difusora, no Canal 10, na Assembleia Legislativa e finalmente na Caldas Júnior, o templo da imprensa nos anos 1970. Ligava para ela contando as novidades telefonando para a vizinha da esquina e amiga dela – dona Romilda Rambo. A mãe se orgulhava. A mãe e a grande amiga dela, dona Teodolinda Fachini, mãe do meu amigo João Cláudio Fachini. Quantas visitas. Quantas confidências. Quanto tempo...!

Minha mãe do Atlântico de campo, depois do futsal. Do Inter e do Ypiranga. Minha mãe das novelas. Das “provas” para ajustes das costuras. Do “vai buscar lenha no porão e trás gravetos”. Minha mãe do rádio: das notícias, do carnê social da Erechim, do Clube Infantil, do Assim Canta o Rio Grande com Gildinho e Chiquito, do imperdível Jornal Falado, da Hora da Ave Maria, do Mensageiro Gaúcho da Difusão, e mais notícias e noticiais. Nunca soube por que quis me tornar jornalista – mas desconfio que achei a resposta: minha mãe com o 4º livro sabia mais do que eu sobre meu futuro. As mães podem ser mais falantes ou caladas, mas geralmente sabem mais sobre seus filhos do que eles. Lhes iluminam por onde seguir. Minha mãe e meu casamento. Meus filhos. Meu neto. Minha mãe com cara fechada – quieta. Emburrada. Mas – à bem da verdade, quando a conversa engrenava, ela ia longe. Sem alarde, era bem informada sobre as coisas da vida. Minha mãe e seu sonho de adolescente de ser professora – mas as condições, a cultura e as necessidades familiares substituíram-lhe o lápis pelo cabo da enxada. Minha mãe da roça e da cidade. 

9

Minha mãe com vitórias e derrotas, alegrias e decepções, teimosias, vitimismos (enfim não somos iguais...). Pensando bem (se é possível imaginar); que diabo que há de se condenar uma mãe que vê sua única filha sair para um aniversário aos 20 anos e voltar em um caixão!? Quem se atreve a fazer esse julgamento? Passados quase 47 anos da partida da sua filha Maria Ceci – perguntei como ela conseguira continuar vivendo na casa onde velara a filha: “mas não tem outro jeito”, disse como que fazendo uma resposta curta e completa. Teve apoios. Rezou, chorou, etc... mas... isso é demais! Minha mãe com um marido alto, forte, bonito e de caráter – que menos de um ano após o episódio com minha irmã, viu-se amarrado pelo Mal de Parkinson com 57 anos e, aos poucos, ir “definhando” até a morte lhe abreviar o sofrimento aos 73 anos. Afora as decepções comigo, por exemplo, enfim, minha mãe com quedas e reerguimentos – viveu como lhe foi possível viver. Minha mãe da Rede Vida. Dos rosários. Da fé. Da eterna preocupação com os seus. Mãe – aquele porto seguro e socorrista de todas as horas e problemas. Qualquer coisa e “vou chamar a mãe”, “vou contar pra mãe”, “tu vai vê quando a mãe sabê...!”. Mães - (Melita e dona Ilda minha ex-sogra) que garantiram a casa. A mãe que na última hora salvou a casa onde moro quando estava para ser executada na justiça. A mãe das madrugadas geladas que vinha conferir se estava bem coberto. A mãe que me arrumava para a escola. Que me penteava quando tinha cabelos. Quanto tempo - mãe! A mãe Melita que sabia de todos os temporais na redondeza, que não perdia um Jovino (Alves Martins) e nem um Chôco (Difusão) abrindo as rádios às 5 da manhã. A mãe que sabia da transferência de todos os padres e se orgulhava de ver a filha descendo a Maurício pela Banda Escocesa do JB.

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Minha mãe que só deitou em uma cama de hospital (afora os partos), para uma cirurgia de fratura de fêmur, aos 87 anos. Minha mãe que queria ir para o céu, mas não almejava a morte. Minha mãe que brincava ou falava sério! – “só não me enterrem viva!” e então – abria um leve sorriso. Minha mãe e suas pantufas, seus casacões de inverno, suas caixas de bom-bons a cada Natal. Minha mãe que jamais se cansou de economizar – para amanhã não faltar. Para uma emergência. Minha mãe Melita – que sofreu um enfarte às 20 horas do dia 2, uma quarta-feira, estava morta às 17 horas de sexta-feira, dia 5. Foi tudo muito inesperado e rápido. Às 19 horas tomou café. Às 20 horas foi deitar. Dez minutos depois chamou pelo Gilberto e, sentada na cama, disse: “nunca me senti tão mal na vida como agora. E vomitou”. Minutos depois estava na emergência. Exames de sangue, eletro, etc... Da emergência à UTI. Minha mãe de 89 anos de sacrifícios, temores e receios (justificados) e, por que não, de alegrias, finalmente livrara-se de seu último medo o “de ser enterrada viva”. Eu a vi na UTI. O atestado de óbito confirmava. E depois na capela mortuária. Não havia mais, nesta vida de carne e osso, temer o que quer que fosse. Estava morta. Fisicamente. A fé em Cristo neste tempo de quase Páscoa, sonhar que a dona Melita, finalmente reencontrou-se com seu marido Alberto e com sua filha Maria Ceci – recomeçando uma outra vida, uma nova vida, a vida eterna, mais que um consolo é um alento. A esperança que nos dá forças e impulsiona a seguir em frente. 

  

 

 

 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Aniversário no céu

 

Milton Amadeo Arioli, 24 de abril de 2018
1

Eu nunca perguntei por que ele me cumprimentava nas calçadas das ruas de Erechim. Ele, um homem  reconhecido em todas as instâncias da sociedade local e eu, um sem-rumo, que corria pra cá e pra lá o dia inteiro pra poder comer à noite. Enquanto eu espichava o passo acelerado, lá vinha ele, na frente do antigo Cine Luz, com seu jeito muito particular de caminhar, que denotava uma calmaria perturbadora. Isso mesmo: uma passada que parecia esperar a outra perna colocar o pé no chão (é claro que é com todos os caminhantes assim), mas ele parecia que o pé de apoio “esperava – dava um tempo” até o outro alcançar o chão para só daí levantar e dar mais um passo, o seu passo, levando-o à frente aparentemente recolhido à sua mais recôndita intimidade.

2

E aí vinha dos seus olhos um olhar educado, e da sua boca, uma carinhosa saudação com um “boa tarde”, acompanhado de um leve sorriso - como se eu fosse um dos seus amigos ou antigos conhecidos de vivências mis quer fosse no futebol, no agronegócio, nos interesses da igreja, nas reuniões de família, do HC ou das festas do Aristocrático.” Ah, já sei – acho que ele me cumprimenta”, pensava eu, e podia mesmo ser por isso, “pela proximidade que tinha com sua esposa a senhora Lurdes, e aqui até eu já me confundo, não sei se aos tempos do JB ou da 15ª Delegacia de Educação, hoje 15ª CRE – quando esta se situava no térreo do São José.

3

Eu só sei de uma coisa: passado todo esse tempo, pego lá dos anos 1981 em diante – ele e ela -, eram de uma educação, de uma simplicidade, de uma sortida posição social e ao mesmo tempo de uma discrição que, como disse antes, a mim parecia perturbar. Talvez porquanto somos levados a associar quem muito bem de vida – a ser “um nariz empinado”, um indiferente, um prepotente, um “sabe com tá falando?”. Não era o caso. Era o contrário.

4

Não – ele e ela não misturavam suas joias de pulso com as relações humanas e isso, no meu caso, me colocava tão à vontade que eu nem percebia minha posição boquiaberta. Com o tempo fui me confundindo e passando a falar, a ver ou tratar como se fôssemos contemporâneos “sociais”. Santa ingenuidade. Eles com seu modo elegante de ser e eu com minha estupidez, como se diz, "se achando...!".

5

Milton Amadeo Arioli, nascido em Erechim, tinha duas credenciais para jogar futebol e no Atlântico: primeiro, era um bom meia-atacante em 1952 (ano que nasci) e 1953 e, além disso, um familiar que viria a ser presidente do clube.

6

Mas o que o colocou mesmo em campo ao lado do gênio Borges e ainda de Fábio Koff, Toinho, Fossatti & Cia, foi seu futebol. Disputou quatro clássicos Atlanga e fez dois gols. Venceu um, perdeu outro e empatou dois.

7

Ou seja – Milton Arioli passou pelos Atlangas com o balanço fechado. Nos quatro jogos deixou dois gols e foi justamente nos dois empates e ambos na Montanha. A seu favor conta ainda ter jogado contra uma das melhores equipes montadas pelo Ypiranga desde 1924 – superada, é claro, pelo timaço de 1949.

8

Como a comprovar sua polidez e discrição humana, Milton Arioli, extremamente solícito, não fala dele no livro dos Atlangas. Prefere enaltecer com quem atuou. E nessa história está com destaque  o "Velho Borges" – Herminio Carpegiani.

9

“O Velho Borges era demais. Era um atleta completo. Batia com os dois pés, cabeceava, armava, comandava o time. Em um Atlanga que o Atlântico goleou, ele fez dois gols de falta. Na primeira ele deu uma bomba de direita que o goleiro até hoje não sabe por onde ela entrou”.



10

 “Depois, ele colocou de esquerda por cima da barreira”, relatou Arioli. Segundo ele, o Grêmio teria observado Borges, ou por indicação de alguém, convenceram-no a ir para Porto Alegre. “Ele pegou uma malinha e um ônibus e foi. Mas como era tímido, muito tímido, chegou em Porto Alegre e nem saiu da rodoviária. Ficou por lá e no fim pegou um ônibus de volta e retornou direto para o Atlântico. Bom para nós...” como colorado, me disse ele para o livro dos Atlangas em 2018.

11

Outro atleta que Arioli define como extra-classe na história do futebol local, foi o goleiro Waldemar, o ‘Pantera Negra’ – apelido do grande goleiro do Atlântico na década de 1950, que entre outras brincadeiras, hoje proibidas no futebol, gostava de fazer. “Depois de uma defesa, o Waldemar devolvia a bola para atacantes e mandava chutar de novo. Imaginem!” – me relatou. Ele até escalou sua seleção Atlanga: Waldemar; Bino, Garcia, Noronha e Chitolina; Fossatti, Borges e Marimba; Tomasi, Índio e Lauro.

12

Houve um tempo em que eu ia à missa todos os sábados à tarde na Catedral São José. Tinha até um lugar preferido. À direita do altar e pertinho de onde estão depositados os restos mortais da minha irmã Maria Ceci – no ossário. Alguém pode ter interpretado que queria aparecer, pois quase sempre estava meio sozinho naquele canto da catedral, mas não. A razão é essa aí.

13

E lembro desse tempo, porque todos os sábados (aiaiaiai – ou seria uma ou outra a missa dos domingos de manhã!), mas o fato é que encontrava sempre, sempre e sempre Milton e Lurdes, que, se já não disse vou dizer – pareciam  feitos um para o outro. Era o que me saltava aos olhos. E então quase sempre nos cumprimentávamos - para mim uma alegria – ser notado e receber um “boa tarde’ ou um “oi” – do casal que sempre admirei.

14

E eu ficava contente vendo ambos se afastarem, de mãos dadas, rumo a uma das entradas mais importantes da Maurício. Eu, vocacionado ao pecado, recém saído da missa já me traía sobre o que prometera diante do padre. “Meu Deus – o que será que essa gente vai fazer agora, com tudo que tem!?”, arquitetava em pensamento simplista e desprovido de qualquer prova que meus olhos pudessem atestar por uma única vez que fosse. Idiota. Coisa de bisbilhoteiro de segunda categoria. Mas, francamente, não era por mal. Era por pobreza de espírito mesmo – confesso hoje.

15

Era domingo 9 de agosto de 1953.

O Milton tinha feito 20 anos havia seis meses.

Eu chorava e agitava os braços e as pernas num bercinho de madeira em Sede Dourado. Em um mês faria meu primeiro ano de vida. Pelo que pesquisei o estádio da Montanha estava lotado. Era o 86º Atlanga. Aos 8 minutos o Milton aproveitou uma falha da zaga verde-amarela e abriu o placar no clássico. O time comandado por Ervino Ritter forçou e aos 34 minutos Quinzinho empatou o Atlanga. Na etapa complementar o Atlântico foi pressionado, mas suportou o ataque ypiranguista. O goleiro do Atlântico, Wilson, repetiu façanha de domingo passado, dia 2 de agosto de 1953, quando o Galo bateu o Canário por 2 a 1. Melhor que o goleiro só o exemplar comportamento dos 22 em campo facilitando a arbitragem de Ney Barbosa. Atlântico jogou com: Wilson; Rico e Alencar; Borges, Fossatti e Dirceu; Piaveta I, Milton Arioli, Toinho, Alexandre e Barbieri. E o Ypiranga teve: Miguel; Frainer e Celso; Rodo, Plínio Parenti e Ronchetti; Tuta, Quinzinho, Milton, Marimba e Paiva.

Gols: Milton Arioli (A) e Quinzinho (Y)


Atlântico em Aratiba/Arquivo Milton Arioli O 3º agachado
da esqerrda para a direita


16

Ao iniciar o texto não sabia por onde começar. Se pelo futebol ou pelas outras referências lá em cima. Podia ser pela notícia do falecimento. Ou podia ser pelos cânticos do padre Sala na Capela do HC, pelo envolvimento comunitário do Milton no futebol com a camisa do Atlântico, ou pelo agronegócio, ou pelos passeios com sua Lurdes de mãos dadas na avenida, ou pelas festas no Clube do Comércio que presidiu, ou pela ajuda que nunca negou à igreja quase que anonimamente, ou pela participação no HC, ou por suas camisas de mangas arregaçadas, ou por seu par de Mocassin a lhe garantir um passo seguro e macio, ou pela hemodiálise que me disse... E se iniciasse pelo livro dos Atlangas que o ‘Seu Milton’ tanto me ajudou cedendo fotos, identificando pessoas, passando informações, contando histórias...

17

Um dia criei coragem e liguei. Ele passou a data e o horário que poderia me receber e que entrasse pelo portão que dá da Maurício à sua residência. Fiquei com medo que tivesse cachorro, mas que nada, lá estava ele na porta me esperando no horário marcado. Convidou-me a sentar, parou seu trabalho e começamos a falar. Eu explicando sobre o livro e ele me passando fotos e contando histórias. De frente para a porta, seu filho, Reno, mantinha a rotina e virava folha em cima de folha ou nota em cima de nota, sei lá, e de vez em quando levantava a cabeça, ajeitava seus cabelos brancos que lhe encobriam os olhos e dava um sorriso.


Milton Arioli em seu escritório. 24 de abril de 2018.
18

Depois disso seguiram-se encontros rápidos, mensagens por celular e ele sempre me auxiliando, tirando dúvidas. Um dia o livro ficou pronto. E por mais inacreditável que pareça, permaneço com a dúvida: “será que eu dei um livro para o ‘Seu Milton’?. Acho que sim. Não é possível que tenha tropeçado em tão irreparável equívoco, e com ela convivo nesta hora tão difícil para a minha colega e amiga Lurdes, esposa do ‘Seu Milton’ e para seus filhos, noras, genro, netos e demais familiares; enfim, para todas as pessoas que tiveram o prazer de conhecer este ser humano magnífico que leva consigo talvez aquela que pode ser a maior das virtudes entre as que as possuem: a discrição. Foi tudo que foi, fez tudo que fez, deixou tudo que deixou quase anônimo, averso a titulações, a reverências de seus semelhantes. Na igreja de sempre, ouviu (?) a sua derradeira missa no dia do seu aniversário – rezada em sua honra. Por isso achei muito feliz a iniciativa do padre Sala, na capela do HC, ao destacar que “hoje temos festa no céu. Chega um aniversariante. Uma salva de palmas ao ‘Seu Milton Arioli’, que hoje completaria, e completa, 89 anos”. Descansou um terço de Nossa Senhora de Fátima entre mãos da senhora Lurdes – e eu fui tomado por uma estranha calmaria. Bem parecida com àquela que um homem de tantos envolvimentos comunitários, expressava quando caminhava do CC, passando pelo antigo Cine Luz, ou da Catedral... até a entrada da sua casa e, ainda, encontrava tempo para me sorrir e saudar com sua voz macia – como se eu fosse alguém da sua estatura. Parabéns não só pelo seu aniversário desta feita - mas pela obra que construíste e pelo exemplo que deixaste a quem contigo conviveu ou, como eu, por ti tão elegantemente, tantas vezes, foi recebido e tratado. Como eu me orgulho deste privilégio. Vai 'Seu Milton' - vai comemorar seu aniversário no céu.

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Vai Miguel. Vai...!


1

Havia tempo que não 

escrevia.

Muito por causa da pandemia.

Mas também por conta do tempo.

Não parece mas a energia, os objetivos, 

os sonhos vão se desmanchando, murchando, evaporando com o tempo.

Quem acha o contrário, parabéns.

Semana passada mandei uma mensagem 

para o celular do Miguel.

Mudo.

Instantes depois, recebi resposta.

Era sua filha Sonia.

Dizia que havia passado o recado para o seu 

pai e mandava agradecer.

Ele estava de aniversário.

Esta semana o Ricardo Carraro me avisou 

que o Miguel estava hospitalizado.

Pedi o que tinha acontecido e ele 

– sem entrar em detalhes – vaticinou: “pulmão”.


2


Ontem veio a notícia do falecimento do Miguel.

Uma noite perdida nos anos 1980 ele estava 

no corredor que dava para o plenário 

do Legislativo.

Fumava e mascava alguma coisa.

Caminhava da porta até a escadaria e voltava.

Saí do plenário e fui até ele.

Dava para ouvir os debates e ver os edis.

Eram tempos onde os temas de interesse 

da cidade ganhavam discussões acaloradas 

ao microfone.

Não havia ofensas.

As convicções políticas eram expostas 

às claras e respeitadas.

Eram tempos onde ideias prevaleciam 

sobre ideais.

E nós dois trocávamos observações 

sobre as intervenções dos representantes 

do povo, de todo povo e não do povo do 

governo ou do povo que não votara 

no governo da hora.

Naqueles tempos não se encolhiam as sessões.

Invariavelmente se estendiam até às 23 horas, 

meia noite – quando não invadiam as madrugadas.


3


Eram tempos de ilustres vereadores, 

entre os quais estava Miguel Gotler.

Os partidos e ideologias eram respeitados.

As convicções sobre a cidade – nem se fala.

Eram tempos em que a independência 

dos Poderes orgulhava.

Fazia a cidade mais livre.

Menos cabisbaixa especialmente no Legislativo.

Mas isso são águas passadas já misturadas 

ao oceano do tempo.


4


Hoje vivemos uma era moderna.

Um WhatsApp de meia dúzia de palavras 

perfila a “convicção” da maioria.

Como diria o saudoso governador Brizola, 

são “os interesses”.

E cá para nós – sempre existiram -, 

mas, aparentemente, se portavam 

com mais pudor.

Talvez por isso Miguel Gotler não 

se aventurou mais a cargos eletivos.

Não largou seu MDB, onde sempre foi 

voz de serenidade (junto a Chico Pungan), 

quando labaredas de uma ou outra insensatez 

ameaçava incendiar tudo.

Era o que se ouvia. Era o que se deduz.


5


Então, Miguel partiu com tudo que tinha – 

conhecimento, energia, determinação, 

novos objetivos, paciência, inteligência e discrição -, 

à verdadeira dedicação comunitária.

Descobriu que ali podia fazer mais 

– bem mais. E fez.

Não vou relembrar as incursões do Miguel 

na sociedade erechinense, em missões sem paga.

Os jornais já fizeram.

Apaixonara-se pelo voluntariado pelo visto.

De todos seus feitos, junto a outras 

instituições e pessoas, 

nenhuma outra atividade acalentava mais 

a mente e o coração do Miguel, 

que dedicar-se, sem dia nem hora, 

à segurança pública, até onde todos 

os seus braços se multiplicam, estendem 

a alcançam. 

Consepro - "comosempre"?

Provavelmente descobrira sua

real vocação.


6


Não bastasse isso, emendo revirando 

a memória agora, que o Miguel, embora 

um homem de família – era um cidadão da rua.

Isso mesmo. 

Das calçadas.

Mãos nos bolsos e mascando uma goma - sei lá.

Caminhava a passos medidos.

Nunca tinha pressa.

E mesmo assim era um dos primeiros a chegar.

Parecia multiplicar-se.

Estava no Posto Ipiranga, 

numa loja, 

no Colosso da Lagoa, 

no Lions, 

no aeroporto,

nas Frinapes,

na URI,

na Câmara de Vereadores, 

junto a autoridades que aqui chegavam. 

Podia ser visto por mais de hora 

na fruteira do Beto conversando,

entre abacaxis, melancias, rapaduras e salames. 

Estava no Clube do Comércio, 

no sorveteiro,

no 13º

nos eventos cívicos da cidade,

e no ponto de táxi...

Quantas trocas no 13º?

Quantas formaturas no 13º?

Quantas posses na civil?

Nos bombeiros?

Quantas sessões na Colenda até como observador?

Sim - ele conversava com as pessoas.

Parecia adorar isso.

Era como um lenitivo diário pra ele.

Recolhia informações e, por certo, 

montou uma “biblioteca” em sua 

cabeça mesclando características, nomes, 

dificuldades, demandas, opiniões, 

penúrias, anseios e sonhos de erechinenses 

de todas as camadas sociais; 

capacitando-o, 

como poucos, a interpretar 

a verdadeira alma 

do 

erechinense.


7


O Miguel de fato gostava de conversar e 

de ler nem se fala.

Trocar ideias.

Mas entre tantas virtudes, 

nesta cada vez mais dificultosa arte 

do exercício do diálogo 

-  Miguel sabia ouvir.

Dava tempo para ouvir e, isso, 

convenhamos, 

também vem rareando.

Entre num bar, entre numa barbearia, 

sente-se numa roda de amigos num café ou, 

aí é pra encerrar essa parte, pegue o celular 

e entre num grupo ou só expecte as postagens 

não sobre política ou futebol, 

nem sobre religião ou gênero, 

muito menos sobre preconceito e 

menos ainda sobre todos 

os “ismos”, sem falar se a pandemia 

é pra enriquecer laboratórios, 

ou pra dominar o mundo, ou que a vacina 

é máscara e a máscara é pra acabar 

com a identidade das pessoas 

– mas sobre, digamos uma obviedade 

esdrúxula... 

será que Elvis não morreu mesmo?

Falta civilidade.

Não há paciência.

A concordância passa longe.

Sobram ofensas.


8


Então, o Miguel com sua calça frisada, 

seus confortáveis sapatos de couro marrom (?), 

sua camisa de mangas, 

sua blusa decote “V” e suas "japonas",

(jaquetas para os mais novos) 

ou casaco de 

de lã ou ainda o "sobretudo" preto em dias frios, 

e, de quando em vez com seu lenço ao pescoço;

– ouvia, ouvia e ouvia, e, quando abria 

a boca,

com voz macia - quase aveludada, 

buscava a concordância, 

não por agrado, 

mas com argumentos, e, sem pressa, 

vasculhando 

a história na sua biblioteca de memória 

– contrapunha.

E dali ou de onde fosse 

se saía sabendo mais.


Menos mal que o Miguel, 

ao que tudo indica, 

e ao contrário de outras lideranças 

- preparou um substituto 

para a continuidade das suas ações 

na Segurança Pública: provavelmente será 

Jaime Pereira de Lima.

Se for, que desafio aguarda o Jaime!

Boa sorte e siga seu “professor”: ouça mais 

e só então aja.


9


Ah o “seu Miguel”,

lá, lá bem ao fundo...

misturando a fumaça dos seus "pitos" 

aos cheiros, cores e estampas de todos 

os tecidos em grandes rolos

recém chegados da capital paulista  

- na afamada Casas São Paulo. 

Lembram?


10


O tempo, esse tempo, 

que não está nem aí para o “tempo” 

que estamos vivendo, ou que vivemos 

ou que virá – ele se encarrega de levar tudo.

Levou o Miguel Gotler por tantas entidades 

de Campo Pequeno.

Levou o Miguel Gotler ao Legislativo 

quando este questionava o Executivo.

Levou o Miguel Gotler do futebol do Ypiranga 

para o MDB.

Levou o Miguel Gotler para o Consepro.

Levou o Miguel Gotler por todas as ruas da cidade.

Levou o Miguel Gotler das Casas São Paulo.

Levou as Casas São Paulo.

E agora levou o próprio.


11


No entanto,

seu olhar de “feliz consigo mesmo”, 

sua presença afável e,

de inebriante discrição, 

com suas mãos esfregando os dedos

no fundo dos longos bolsos 

das calças frisadas, 

descansando a consciência 

dos deveres cumpridos;

este ficará entre nós,

como exemplo de admiração

da elite aos mais humildes,

a maioria 

- desconhecidos vizinhos da mesma cidade.

Parece que o Miguel queria

encurtar essa distância.

Aproximar os tão diferentes.

E para muitos conseguiu.

Seu legado é sem contestação.

Vai Miguel. Vai...!  

                                   (12)

                         Abra o link


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Fiz um 69

 



1

Conto ou não conto!

Bah, não devia. 

Ainda mais católico.

Fui educado a evitar essas, essas coisas.

Mas que diacho, se coisas boas, por que não!

Azar.

Vou contar.

Gente, eu fiz um sessenta e nove.

Não fique vermelho.

Não se apavore.

Nem entre em pânico.

Chega eu.

Sei que é um assunto meio árido

– mas olhando o que acontece na nossa cara,

todos os dias;

isso aí, como diríamos no Cine Ideal,

é “café pequeno”.

2

Agora - é uma experiência única.

Única?

Hoje é quase comum.

Para muitos virou coisa normal

ou (de novo),

como diríamos no Cine Luz também,

“cafona”.

3

Quem se atreveu a fazer não esquece mais.

Ah não esquece.

Quando tu chega nessa altura,

tu já nem sabe mais o que está acontecendo.

Fazendo, se mexendo,

são jeitos, trejeitos, enfim...

perdeu a cabeça; ou como direi 

para encurtar

- atirei-me de cabeça.

Que sensação.

Que emoção.

Que coisa tão tresloucada que...

depois da volta ao

normal, nem se acredita que foi capaz 

de atingir

tal insanidade, descer à tamanha 

loucura infernal.

Ou seria uma benção dos céus.

4

Agora – três coisas são certas depois de fazer:

se sai com um sentimento, uma consequência

e uma convicção.

Sentimento de imensa felicidade.

Conseqüência - todo esgualepado.

Convicção – fez a coisa certa na hora certa.

Não fazer àquelas alturas da vida,

é deixar passar o cavalo encilhado.  

5

Olha - não é para qualquer um.

Dói tudo.

Braço, perna, tronco,

o pescoço.

Os braços parecem que querem 

deixar os músculos,

ou pelancas – saltarem para fora.

Conforme os sacrifícios durante a vida

as pernas tremem.

Os pés resvalam.

A cabeça parece que vai explodir

– mas que diabos,

que exploda se for pra explodir.

6

Se cheguei até aqui – agora não tem volta.

E a cordilheira de ossos

no meio das costas?

Nossa Senhora de Fátima – segura até alcançar

meu relaxante muscular.

Ou meu uísque ou cerveja.

Hoje dizem que desce melhor é com

energético, gim/tônica., entre outras

“cositas mas!”.  Não se sente nada.

7

Mas que nada.

A satisfação,

o prazer

e quando se sabe que não se é

único a fazer,

tudo compensa,

tudo alivia o sentimento de culpa.

Abranda vergonhas e invejas.

Diria – sem ser invejoso – mais invejas.

Ihhh - conheço jornalistas que fizeram.

Médico que fez.

Professor.

Professora então, está cheio.

Que Deus e perdoe - mas tem padre, freira,

bispo e diáconos que fizeram. 

Políticos então... 

E olha, todos quietinhos, quietinhos mas

felizes dentre si mesmos cada por seu

sessenta e nove.

8

Se acusado de extrapolar a temática

do politicamente correto, 

sem problema. Aceito.

Chega de mesmices.

Chega de abóboras.

Chega de falar de política.

Escrevo sobre política há 35 anos e

só me incomodei.

Achando que iria ajudar a avançar 

a cidade, o país, a qualidade de vida

- olha só no que deu!

Sempre o mesmo papinho de sempre.

Sempre a mesma conversinha de sempre.

Portanto - chega do mais do mesmo.

Chega, como se diz mesmo agora? – de

negacionismos.

Assumo o meu sessenta e nove até

o último fio de cabelo.

Cabelo – ah – cabelos.

Me honro dele.

Porém, me defendo e aponto que muitos

que aqui estão a ler – também fizeram -

como já disse.

Quantos mais hão de fazer o seu!?

Hein! Hã, Hã, hã... ahahahahh, como diria

o eterno e grande professor 

mestre João Dautartas.

9

Desde já aviso que não pretendo entrar

em conflito com nenhuma crença.

É pecado? Não sei.

Por que então nos deram um corpo?

Por que nos deram viver um tempo?

Por que nos delegaram gozar prazeres!?

Nos ensinam a se cuidar, 

a ter saúde,

a viver as coisas boas da vida e

querem recriminar ato tão,

tão, tão nobre, tão perseguido contando aí

perseguidos e perseguidas...

Ou estou mentindo?

10

Pensando bem no fim vale à pena ter nascido.

Vivido do jeito que deu, e morrer, assim,

digamos – feliz.

Ou melhor: morrer com saúde. 

11

Fazer um sessenta e nove como eu, 

confesso,

sim eu confesso – fiz e daí! 

– é de se trombetear.

Ignorá-lo seria quase sem sentido 

se não tivesse,

assim, amavelmente, 

não 

– amavelmente é pouco;

assim apaixonadamente – 

não,

apaixonadamente também é pouco;

assim, loucamente – 

não, 

loucamente também é pouco;

não condiz com a experiência,

mas assim – delirantememente, 

isso, 

delirantemente

experimentado também o meu sessenta e nove.

12

Poderia eu receber a oportunidade de algo,

mais inebriante,

mais compensador,

mais paradisíaco em plena terra

- a despeito dos desmerecimentos que

semeei?

Prazer em carne e osso e, em mente - não.

Dificilmente haverá algo maior – repito;

em prazer.

Reforço: pelo menos em satisfação de desejos,

aproveitar  lampejos e,

sossegar invejas que possam me cutucar a mente

lamentando os não feitos seria 

um passaporte para a cadeira de um psicanalista.

Então – se der – faça.

Fiz.

13

Como disse, não quero conflitar com crenças.

Agora - e... se formos só espírito

- um desencarnado a vagar sabe-se lá por onde!?

Quantos cascudos me daria, ou darei

pelo sessenta e nove deixado passar, 

como um matungo cansado 

ou em tropel de puros sangue!?

E se não houver nada disso  

– nem mesmo o “Kit Covid,” 

mas só a ciência,

sim – (aqui já não falo só de mim) se,

só a ciência é a certeza a ditar do mais 

alto pedestal 

que não passamos um milímetro do que somos,

ou seja, morreu – adeus tia Chica!

E aí, nosso corpo feio ou bonito,

esbelto ou maltratado, mas tendo como fim

- banquetear bactérias

e vermes;

por certo lamentaríamos irados

não termos deixado nosso sessenta e nove,

assim registrado no currículo.

14

Nove vez fora crenças ou sem crença alguma,

o fato incontestável é que estes,

e agnósticos ou ateus;

um dia chegaremos à termo: podem 

nos beliscar e nada sentiremos.

Podem nos acariciar que nada sentiremos.

Podem nos bater, arrastar, esquartejar

– e nada sentiremos.

15

O que virá depois da passagem comprada

ou feita – se assistiremos tudo “Lá De Cima”,

ou se estivermos a arder no inferno,

ou se constituírmos uma alma a vagar à espera

de uma nova oportunidade (um novo corpinho);

ou se nos somarmos aos milhares

no limbo do purgatório,

ou se federmos no fundo de uma sepultura abandonada

até que os próprios vermes nos rejeitem,

pois, de uma vez por todas,

– resta-nos, conscientemente sim,

uma constatação óbvia. Incontestável: viver a vida.

Pintou a chance de um bom sessenta e nove;

aproveite. Brinde. Agradeça.

Até reze com o terço entre os dedos

- mas faça. Pelo amor de Deus - faça! 

16

Todos buscam

viver o melhor que podem.

Não é assim?

Para alguns nem importam os meios.

Interessam os fins.

São prazeres.

São alegrias.

São felicidades – fugazes ou nem tanto -,

que nos fazem a vida mais apetitosa,

agradável e, e, e... prazerosa.

Pecado ou não – “Carpe diem!”, Santo Deus!

17

Não vivem postando mensagens que

devemos aproveitar a hora,

o minuto, o segundo?

O momento!?

Que ninguém sabe se haverá amanhã!?

Logo, 

não dá para ignorar pratos prediletos

e muito menos, 

jamais, 

recusar pratos

nem tão incorporados assim à nossa rotina.

Feijão e arroz tem todo dia, mas...

um sessenta e nove... olha. 

Quem recusaria?

Eu rezei agradecido.

18

Sim eu fiz o meu.

Não faz tempo.

Uns 30 dias.

Simplesmente inesquecível até porque único.

Foi tudo bem do jeito como ouvia falar

quando adolescente.

Experiência para se levar

e bater no peito como um homem/macaco

– um Tarzan.

19

Mas, por medo de não saber aonde pode ser

meu destino final

 – por via das dúvidas imploro que

não me falte um padre,

porquanto católico.

Sim, porque um sessenta e nove tem seus riscos.

20

Pode até ser de esquerda

- mas sempre padre.

Sou um católico que no alto da vida

resolveu

– pintou a oportunidade e eu já meio

sem saber nem sobre o que escrever,

talvez

meio desgovernado por causa dos

debates em torno

do Covid, da vacina, do fique em casa,

do negacionismo,

da melhor máscara – de máscara

com bichinho....

pois, oportunizou, 

me deu um chilique e acordei.

Enfim, aproveitei e contei.

Não levaria para a última morada (?)

um segredo desse tamanho 

- tão segredo que chega a ser meio 

surreal: muitos, muitos fazem, 

fizeram - mas quase ninguém

torna público. 

Às vezes hackers descobrem e espalham.

21

Se não consegui o máximo 

com o meu sessenta e nove

sempre sonhado

– para o gasto deu.

Ah se deu.

Me doeu tudo, repito.

Tanto que fui parar na Dani,

minha competente fisioterapeuta.

Dolorido – mas feliz.

Realizado.

Agradecido.

A única preocupação que já me tira o sono

é como será um setenta.

Nunca ouvi falar num desses.

Como... seria ou seria fazer um bicho desses!?

Por onde se começa – Santos!

Como se portar?

O que dizer?

Rezar e agradecer?

Como termina?

22

Agora - se a oportunidade aparecer -,

vou descobrir um jeito.

Ahhh vou dar um jeito.

Vou viver esse momento com toda minha

restante intensidade.

Intensidade, no meu caso, sonhei que, que...

“faleceram” ela.

Ando devagar. Não tenho pressa

- diria o Almir.

Pior que nem tem nem manual.

Não deve ser fácil –porém não impossível.

23

Que os Deuses de todas as crenças,

agnósticos e ateus

– me conduzam até essa desconhecida experiência.

Se chegar lá, faço. Já disse. Faço.

Depois do que senti

– não tem como não experenciar um setenta.

Nem que me alcancem as muletas.

Seriam, como direi – muletas com prazer -,

ou “com muito prazer, por favor as muletas”.

24

Daqui a um ano mais ou menos, eu conto.

Quem já fez – sabe, mas não revela.

Sessenta e nove todo mundo fala 

– mas um setenta ninguém diz nada.

Quem não fez

– curioso, como eu; entregaria os anéis para

um saudável e prazeroso setenta.

25

Desconfio, depois da experiência;

que a vontade de ficar por aqui é tanta

- onde a ciência, os anjos e

os Deuses nos conservam -

que entregaria até os dedos para fazer

um noventão.

Modesto, não obstante,

já sou imensamente grato pela oportunidade

com o meu... 69.

Demorou – mas fiz.

Que alegria.

Que felicidade.

Nem me sinto um pecador.

Sinto que aproveitei a chance que Deus 

me deu

de fazer esse corpinho mais ágil 

em mente descansada.

Pensei: já que o vírus não me pegou

(pelo menos até agora),

que venha o tal de sessenta e nove. 

E veio.

Foi como uma paulada. 

Uma paulada boa.

Até ando meio esquecido.

Mas boto na conta do prazer.

26

Há narrativas na praça,

(pra ficar na terminologia

que orienta as ideologias

– especialmente sem ideologia alguma;

ideologias de interesse - assim fica

mais verdadeiro),

que feito um sessenta e nove bem feito

(como se houvesse sessenta e nove mal feito);

- implica no início de eventuais esquecimentos:

onde deixei as chaves,

os óculos, 

a toalha,

o carro,

os documentos,

se fechou a porta,

a janela dos fundos,

se desligou o gás...

Se todas as torneiras estão fechadas.

Se não ficou nenhuma luz acesa...

Os cahorrinhos estão dentro de casa?

Isto seria, e é, o lado ruim do sessenta e nove.

Fechei a porta da garagem?

E a da frente?

Melhor voltar e ver de novo...

O resto – nem se fala.

Como diria o Julio (Brondani)

“é só alegria”.

27

Como seria bom

se pudesse repetir,

o sessenta e nove.

Mas impossível. 

Nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais.

Mas que é coisa de levar pro céu,

pro inferno ou lá aonde as almas vagueiam

à espera de um novo corpinho – ah é.

Voltar, quem sabe até para se pagar 

pelo que se fez de errado,

com o tal sessenta e nove.

Só sei que é quase como acertar

numa mega.

Nunca peguei - mas pelo que dizem...


28

Sim – depois dele estou mais leve.

Será por isso que me sinto 

passar no tempo

- quase voando?

29

Opa, opa, opa – pensando melhor –

não, nada está perdido.

E... se fosse invertido!

Do primeiro ao quinto?

Ou na cabeça – melhor ainda!

Então por que não um, um... 

96?

Assim já meio com o pé na cova 

– mas sempre

se mexendo, remexendo...

quase babando, 

nossa – que nojo,

diria alguém.

My God!

30

Ahhhh.... mas pra mim 

seria pedir demais.

Sou um pecador incorrigível.

Não mereço tanto.

E como suportaria?

De onde tiraria forças...

Quem me acudiria na hora...

Se caísse e quebrasse uma perna...

Ou as duas...

Um braço.. ou até a bacia.

Talvez uma fratura de crânio!

Não.

Um 96 não consigo não.

Já ganhei muito nessa vida,

coisa que nem merecia.

O sessenta e nove, por exemplo,

é uma prova.

Quem me conhece sabe.

Já está de muito bom tamanho

para um guaipeca que...

deixe-me ser honesto,

franco e claro: um

guaipeca que nunca,

jamais,

frequentou uma “pet” de respeito.

Que dirá – ser acolhido em uma

“pet” de madame.

Poder fazer um 96

seria algo como morrer mais que feliz e...

acima de tudo, como dizem, com saúde.

Mas, olha o Inter contra o Barcelona: nunca 

se pode desconfiar de

uma "loteria" que ainda está correndo.

A do sessenta e nove peguei.

A de 96, se pegar

só por graça de Deus.

Porém, essa não revelarei.

Por que já no ato

- devo bater as botas. 

Ou melhor

as pantufas.

Se for como algumas crenças 

- creem,

talvez ouça já com o coração 

e o

cérebro 

parados: "Coitado. Bateu com as dez!".

E eu, invisível e resignado, rindo baixinho 

cimentarei: "deu! meu fui. Mas me fui feliz. 

Mais que isso - não tem como."