Às 9h30min da quinta-feira (6/11) levaram o Daniel.
O Danielão.
O carro
fúnebre seguiu pela BR 153 até encontrar o Cemitério da Escola Branca.
Ele nasceu
naquela comunidade há 82 anos.
Foi zagueiro
que o Internacional não tem hoje.
Centroavante
não se criava na área do Daniel.
Nem na
Escola Branca, nem no Altântico, nem no 14 de Julho, nem no Corinthians de
Santa Cruz, nem no Cruzeiro, nem no Avenida, nem no ‘futebol de salão’. Foi
campeão universitário metropolitano, estadual e brasileiro pela Ufrgs/Esef.
Ajudou a fundar o CMD, atuou como árbitro e fez palestras em escolas e clubes
sobre o desporto, conduta e caráter.
Na cerimônia
religiosa de despedida cantaram do padre Zezinho ‘Senhor, quem entrará no
Santuário pra Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração puro/Quem não é
vaidoso e sabe amar...’.
Aí pensei:
‘mas o Daniel abriu canelas com sua chuteira 44, e com os punhos, reagiu a
desaforos contra seu Atlântico.
Me falou de
uma história onde, tendo perdido um Atlanga no campo – ao ser gozado no bar depois
do jogo -, empatou e virou a partida. Seu adversário ainda anda ainda hoje pelas
ruas. Então suas mãos não são limpas..!’.
Mas o cântico
não tem nada a ver com uso das mãos em supostas agressões gratuitas. Daniel
sempre foi um pacifista. Um pacifista com limites. E ele sabia como poucos a
divisa das fronteiras.
E logo me
dei conta: a prece cantada do padre Zezinho ‘mãos limpas/coração puro’, não é
sobre amor de carne e osso e muito menos sobre sujeira na palma ou nos cinco
dedos.
É sobre
integridade moral, sobre pureza de intenção, sobre retidão. É sobre... caráter.
Quem
conheceu o Jerzy Daniel Cieslak, ou Danielão; homem ou mulher, criança ou
idoso, desportista ou político, familiar ou parente, vizinho ou amigo – é
testemunha de que estamos diante de um ser humano de caráter inatacável e
exemplar.
Um ser
humano de um coração igual aos seus 105 quilos (chegou a 130), pé 44 e 1,89
metro de altura. Em 9 de dezembro faria 83 anos.
Ele, a esposa
Roselane (falecida) e os filhos Tiago (falecido), Daniela e Rafael moraram por
anos na Jerônimo Teixeira. Éramos vizinhos de janela. A ‘Rose’ passava tardes
com minha mãe.
Um dia ele
conseguiu comprar um terreno e fazer uma bonita casa na esquina próximo ao
presídio, onde passou a morar por muitos nãos até fechar os olhos para sempre.
Quantas
vezes levantou sua voz e levou às autoridades seu pleito de preocupação com a
casa prisional onde ainda se encontra... Em mais de 30 anos nunca teve retorno.
Morreu tendo por vizinho a Casa Prisional.
Por 15 anos
fomos colegas no JB. Eu em sala de aula e ele como recepcionista/atendente e
uma espécie de ‘fiscal’ dos corredores da escola. Para mim – porteiro, vigia,
segurança. Hoje dizem - inspetor de escola. Quem sabe, recreacionista.
Quantas
vezes, no recreio à noite, ambos fumando na portaria, ele deixava algum aluno
escalar sobre o muro até... e... “escuta... sim, tu mesmo... aonde tu ia. Pra
casa? Pelo muro? Que cinema que nada. Volta aqui... Na, na, na - não. Que nada.
Já lá pro pátio”. Alguns o ‘tio Dani’ conduziu pelo braço.
Hoje, imagino
que figuras como o ‘tio Dani’ não teriam mais vez. Talvez só lhe restasse atuar
na Educação Física, titulação do magistério que obteve ainda jovem na Ufrgs e Esef
(Escola Superior de Educação Física) em Porto Alegre.
Como era bom
quando dava o último sinal às 22h50min. Mais cinco períodos que se foram. Mais
uma noite. Uma semana. Um ano. Descida abaixo pela Nelson Ehlers em direção ao
Atlântico e aí às nossas casas. Quantas vezes ficamos de papo sempre sobre
futebol e política até meia noite...
Daniel foi até goleiro. Arquivo/Família
O Daniel foi
um grande atlantista. Um dos maiores que conheci. Jogou na zaga do verde-rubro
e dirigiu o time. Na verdade foi de tudo um pouco. Dirigente, fisicultor,
treinador... Transitava livre e com desenvoltura pela Baixada. Quando precisava
fazia massagens ou ia buscar algum contratado.
Como técnico
disputou dois Atlangas em 1971, ambos no Colosso da Lagoa. Derrota de 2 a 1 em
10 de setembro, quando a direção tentava montar uma equipe com vários nomes de
atletas amadores. Em 31 de outubro, vitória, acabando com um tabu que vinha
desde a inauguração do Colosso. 1 a 0. Gol do lateral Euclides.
Em 1977 o
Atlântico parou com o futebol. Em 1981 a direção formou às pressas uma equipe
semi-profissional para atender convite na ‘Taça Cinquentenário de Carazinho.’
Quase com 40 anos e uma barriga de treinador, acabou jogando no miolo da zaga
verde-rubra. Foram dois Atlangas. Um 0 a 0 no Colosso e outro 1 a 1 na Baixada.
No empate do Colosso a torcida do Atlântico arremessou dois galos vivos por
cima do alambrado quando o time pisou no gramado.
Em 1992
quando Atlântico FC tentou ressuscitar no ‘Bosque do Galo’ – o Danielão entrou
de cabeça no projeto. Ajudou no que pode e virou treinador do time. Amargou o
testemunho de ver o projeto apagar-se como uma vela que vai queimando até o
fim.
Liderou uma
vaquinha junto ao grupo atlantino para levantar dinheiro, que garantiu a festa
de casamento de um afamado centroavante verde-rubro, segundo ele me contou.
Mas, o meu
amigo tinha outra paixão. A política. Ou melhor: a política e o PDT. Sempre
trabalhista. Aos 20 anos carregou a bandeira do PTB de José Mandelli Filho.
Até onde sei ou me lembre, sempre votou em Luiz Francisco Schmidt. Foi de Antonio Dexheimer, a quem admirava, em 1992 por que Schmidt era o vice.
Como forma
de contribuir com os candidatos às instâncias superiores, concorreu inúmeras
vezes a vereador pelo PDT. Nunca se elegeu – mas vitoriou-se com Schmidt, em
1992, 1996 e 2016 - então no PSDB.
Nunca ouvi ele
falar ‘odiosamente’ dos governos Eloi Zanella, Jayme Lago ou Paulo Polis. Mas –
nunca ouvi dele, manifestações favoráveis a seus governos. E a razão era
simples. Ele tinha lado. E o seu lado era o outro.
Da última
vez que falamos, em sua casa, há 15 dias ele alertou: ‘José Adelar Ody (saudava
com pronúncia aguda no y)’. Puxando uma cadeira e escancarando as portas – “tu tá
acompanhando as pesquisas? Olha... vai dar a minha candidata. Já tô em
campanha... Óóóó... vamos ganhar a eleição!’ – referindo-se à Juliana Brizola
ao governo do estado em 2026.
Pois é.
Levaram o
Daniel agora, nessa quinta-feira, para deixá-lo junto à sua esposa ‘Rose’ e o
filho Tiago, que já descansam lá no Cemitério da Escola Branca.
Me pergunto:
‘Como assim. Levar uma obra?
A sua
história?
A sua paixão
pelo Atlântico?
A sua paixão
pelo PDT?
Pelo trabalhismo?
Pelo jogo do
bicho?
Como podem
sepultar seu sentimento anti-PT?
Sua posição
de indiferença ao rival – o Ypiranga?
Não – isso tudo
ficou por aqui... na cidade, na Escola Branca, no JB ou no porão da casa onde
recebia de manhã ou à tarde, com educação e atenção cavalheiresca; seus amigos
ou quem apenas quisesse ali fazer hora, bater um papo, jogar conversa fora ou
mostrar um dedo destroncado.
O Daniel
cultivou o hábito de uma espécie de atendente de ‘primeiros socorros’. Volta e
meia recebia alguém com ombro deslocado, joelho dolorido, calcanhar inchado –
enfim... Suas mãos e dedos, e seus óleos; ajudavam quem podia e jamais o vi
fazer qualquer preço. Eram massagens corretivas. Certa feita relatei ao acaso
dores nas pernas. Quando saí ele pegou uma garrafa pet de dois litros, dobrou-a
quase em ‘V’ e mandou que enchesse de água e deixasse no congelador. ‘Quando
atacar – coloca a garrafa em cima’. Pois é – bingo. Seu prazer estava na ajuda,
e felicidade ao ouvir (da maioria), que tinham melhorado ou resolvido. Coisa de
coração – do padre Zezinho.
Um homem que
saiu da colônia.
Um homem de
família grande.
Um homem que
foi atrás de uma formação.
Um homem de
princípios, mãos limpas e coração gigante - nos quase 50 anos de amizade que
tivemos – foi um sujeito com seus equívocos circunstanciais ou de época, como o
prazer que dividimos pelo copo e, depois, igualmente na sobriedade; mas voltado
a contribuir para que o seu entorno ou ambiente – sempre fosse o melhor
possível. O melhor possível para todos.
O Daniel
passou pela perda um filho, já moço, para um câncer.
Perderia a esposa.
Saiu do
aluguel para sua casa própria.
Leitor voraz
de jornais.
Telespectador
e ouvinte de rádio, igualmente apaixonado.
Notícias,
interpretações e opiniões, eram seu chão.
Ouvinte paciente
e concentrado.
Não tinha
pressas.
Adorava
conversar.
Quando
chegava no meio da tarde, chamava ‘Rafaaaaa – vai fazer um joguinho pra mim’. E
podia contar: era o número da placa do meu carro, ou da minha casa ou algo a
ver com quem pisou no seu pátio. Qualquer sonho, recorria à interpretação
numérica, e lá se ia algum na cabeça ou do primeiro ao quinto. Isso sem contar
as loterias de todas as ordens. Até onde sei – a sorte em apostas lhe negou
sorte. Mas, era o prazer.
Capaz de
conviver de modo surpreendente com o contra-ponto em todas as áreas da
atividade humana, especialmente nas mais apimentadas como política e futebol, o
Daniel, foi sobretudo um sujeito muito, mas muito inteligente. Não para ganhar
dinheiro fácil, não para negócios, não para comércio e, muito menos para lucrar
em cima de qualquer ilegalidade.
O Daniel era
mestre em ‘ler’ feições e posturas. Pegava as coisas no ar, como se diz de
alguns poucos com tal talento, e isto, é uma virtude que pessoalmente aprendi a
respeitar por demais – especialmente na vida profissional. O Daniel tinha isso.
Dono de um
bom humor, quando queria - flertava entre a irreverência e a ironia, com tiradas
certeiras, impensadas e espirituosas – próprias de alguém com inteligência
acima da média. Sabendo quando era compreendido, numa ironia proposital - deixava
escapar uma risadinha ainda mais provocativa ou soltava aos ares uma gargalhada,
digamos, assim do seu tamanho.
Levaram o
Daniel às 9h30min da quinta-feira.
O dia estava
claro como os princípios, as idéias e ações dele.
O sol se
fazia queimando.
Assim como sua
paixão pelo futebol e pelo Atlântico.
Pela
política e pelo trabalhismo.
E assim como
um corpo que se deixa em sua última morada, quando falece e teu tempo de vida
nesta terra se acaba – bem assim, a sua obra e a sua história, entre todos
aqueles que o conheceram e com ele de alguma forma e tempo conviveram,
permanece e como tal através dos tempos - só se fará maior.
Na reta
final de seus dias de ‘pó em pé’, largou o cigarro e ganhou a atenção dos seus
mais próximos. Seu filho, Rafael, que vem abraçando a profissão de ‘Cuidador’ –
mais que cuidar do pai, foi seu assistente em casa ou no hospital – no banho,
nas refeições e na administração dos medicamentos. Foi presença física e
companhia afetiva. Foi ouvido, boca e espírito. Assim como sua filha Daniela,
genro e netos.
Por derradeiro,
e deixo isso de propósito, para quem sabe sublinhar a maior virtude do meu
amigo – no meu entender: O Daniel jamais - jamais deixou de dizer o que pensava.
Não mandava dizer. Não pegava trajetos mais longos para fazer chegar o que
pensava - por vias transversas ou tortas. Escondido. Não. Sua posição, seu
pensamento, sua reação ou sua opinião – ele mesmo a comunicava. Podia-se não
concordar – mas ele a dizia. E a defendia. E digo isso, sem dar a conotação que
agia assim, como alguém reacionário ou agressivo. Nada disso. Mesmo que sua figura
grande, às vezes de cabelo ou barba por fazer e bigode por aparar - o Daniel sabia
das coisas, onde se encontrava, e era polido na fala. Na defesa do que entendia
certo – era respeitoso. Quando convencido – mudava.
Em tempos
onde a clareza e a sinceridade parecem morrer, a cada dia um pouco, disfarçadas
dentro das fantasias das falsidades, que andam desfilando e ditando modas nas
mais diferentes passarelas da vida em sociedade, pois isto; o dizer o que se
pensa – sem ofensa, de modo respeitoso e sincero, claro e sereno, mesmo se
sabendo ‘voto vencido’, soa como algo estranho. No mundo das relações humanas –
quase uma benção.
| Última visita que fiz ao meu amigo |
Integridade moral, pureza de intenção e retidão. Um sujeito de princípios e caráter. Um cidadão acima da média – que merecia ser melhor reconhecido pelo menos no seu adeus – especialmente a quem tanto dedicou. Esta lacuna não foi preenchida como devia. Que o tempo lhe faça este jus.
‘Senhor,
quem entrará no Santuário para Te louvar/Quem tem as mãos limpas e o coração
puro/Quem não é vaidoso...’.
Levaram o
Daniel... 82 anos depois - de volta à Escola Branca.
Sua obra
ficou - habita entre nós.
Jerzy Daniel
Cieslak – um gigante!

