sábado, 22 de julho de 2023

Breve história dos ‘Crazy Boys’!


 Por  

José Adelar Ody


Vágner, Pedrinho, Naudi e Paulo Muller (Foto/Arquivo).

Com o prematuro falecimento de Pedrinho Cunha, um dos líderes do maior conjunto de rock’nrol que Erechim já teve, recupero aqui um texto que escrevi no jornal A Voz da Serra no dia 7 de novembro de 1992 e que tenta retratar um pedaço da história dos Crazy Boys.

Pedrinho Cunha foi sepultado no cemitério Pio XII na manhã do dia 15 de julho de 2004 sob intensa chuva. Em 23 de fevereiro de 2019 era sepultado no cemitério Santa Cruz, Sergio Intkar. Ambas despedidas ao som de baladas da Jovem Guarda que os Crazy souberam interpretar como poucos por aqui. 

O texto de 1992 – saiu no dia que marcou a volta dos Crazy ao CER Atlântico e deve sempre ser lembrado e, se se possível ir para os arquivos da historia que guarda as nossas melhores virtudes - desta feita, da música. 

E porque estamos no mês do rock - reverenciemos os Crazy.

 

Viagem no tempo 

E se fosse possível, de verdade, entrar numa dessas músicas que os 'Crazy' tocam, e voltar aos anos 60 quando a gente andava meio sem dinheiro flertando à vida, a gente voltaria?

Lá se foi nossa emoção, por vezes flagrantemente exposta às custas do nosso próprio rubor. Tudo, absolutamente tudo, levado por conta de uma espiada mais ousada.

Os Beatles tocavam lá. Os Crazy, cá.

A vida ainda é nossa. A nossa vida.

Mas a vida mudou e do passado a gente lembra quase todo. Do bom ou do ruim.

Quando se pensa nos ‘Crazy Boys’ a gente se lembra, principalmente, da gente!



Domingo, duas da tarde, 1966. 

Vágner, Pedrinho, Paulo Muller e Naudi - bateria. (Foto Arquivo)

Pedrinho Cunha e Naudi Dalpizzolo, 18 e 17 anos respectivamente, estão no centro da cidade. Amigos inseparáveis da mesma rua perto do antigo campo do Atlântico, fãs incondicio­nais de tudo o que acontecia no movimento ‘Jovem Guarda’, eles alimentam apenas um sonho. Querem cantar. Cantar e tocar. Era o sonho de todo o jovem. Era o comum. Era o natural. Era a glória.

 

Os dois amigos que tinham alguns conheci­mentos rudimentares sobre violão e bateria, subi­ram as estreitas escadarias do edifício Condomínio Erechim levando com eles até o terceiro andar sua curiosidade. Eles estavam perto de ver com os próprios olhos o Canal 2 - TV Erechim. Mais que isso, estavam diante da possibilidade de assisti­rem ao ensaio dos cantores que se apresentariam a partir das oito horas no programa ‘A noite é nossa’.

Donos de boa voz e muita harmonia, Pedrinho e Naudi conheceram naquela tarde aqueles que formariam a outra metade do conjunto ‘The Crazy Boys’. Paulo Muller e Vágner Brusamarelo, que sabiam tocar, mas tinham alguma dificuldade quanto ao canto.

 

- Eu senti que a dupla tinha condições muito boas para tocar e por isso alguém correu até a Livraria ABC onde arrumaram um violão, disse Jovino Alves Martins, apresentador do programa ‘A noite é nossa’. Sem que ninguém saiba explicar com detalhes, ainda naquela tarde de domingo os quatro rapazes cantaram alguma coisa e acertaram a presença do grupo no programa de televisão na­quele domingo mesmo à noite. Mas havia ainda um proble­ma. ‘Na hora de anunciar o grupo, que nome eu falaria', diz Jovino .


Pedrinho conta que sua irmã Eloá, sempre falava que ‘nós éramos meninos loucos’, que em inglês representa ‘The Cra­zy Boys’. À noite, quando Jovino Martins anunciou o grupo, ele chamou ‘The Crazy Boys’. Um grupo estreante no tradicional programa das noites de domingo num dos raríssimos canais de televisão do interior do Estado.

 

‘Tocamos La Bamba, lembra Pedrinho Cunha e depois daquela apresentação o que aconte­ceu, passou a representar a metamorfose dos nossos sonhos para a realidade'.   ­

 

7 da manhã: ensaio!


Paulo Muller, Pedrinho, Naudi e Vágner. (Foto Arquivo)

 

Quando o quarteto parou de tocar ‘La Bamba’ foi a vez do telefone tocar na emissora da televisão. Era alguém que queria ver e ouvir de novo o conjunto. ‘Naquela noite’, disse Pedrinho, ‘saímos do condomínio certos de que alguma coisa tinha mudado já, e muita coisa iria mudar ainda. Foram dezenas de telefonemas. Acer­tamos logo um ensaio para o dia seguinte às 7 horas da manhã na garagem da casa de meu pai na rua do Recanto do Chimarrão'.

Convites para animar festinhas de aniversário de 15 anos que levavam o conjunto (banda) a se apresentar em até quatro locais diferentes nos fins de semana provocaram a cobrança de um cachê que Pedrinho nem lembra mais. ‘Mas era algo acessível. Nós que­ríamos tocar e cantar’

Logo os quatro rapazes decidiram que estava na hora de comprar instrumentos melhores. Chega­ram duas guitarras para Paulo e Vágner, uma bate­ria para Naudi e um baixo para Pedrinho. Como num sonho, ainda em 1966 o conjunto estava em Londrina (PR) se apresentando para um grande público numa exposição industrial, comercial e agropecuária. Lá o conjunto acabou se apresentando num canal de televisão e numa emissora de rádio.

Tentando se lembrar das apresentações, Pedri­nho se perde no itinerário certo das excursões e numera apenas Porto Alegre, Carazinho, Concór­dia, Passo Fundo, Joaçaba, Foz do Iguaçu e Casca­vel entre outras. O repertório não abandonava Renato e Seus Blues Caps, Roberto Carlos, Os Incrí­veis e os Beatles, aliás, mais que isso seria estar fora da realidade e dos próprios sonhos dos anos 1960.

 

As primeiras mudanças

 

Em 1967 o guitarrista Vágner deixou o conjunto e no seu lugar entrou Tito Livio Rosa (Zézo). Logo depois era a vez de Paulo Muller falar em sair. Para sua vaga o conjunto foi buscar aquele que se constituiria num dos maiores músicos já produzidos em Erechim. Sergio Intkar, o Sérgi­nho. De 1967 a 1969  ‘The Crazy Boys’ teve sua melhor fase. Foi a fase mais forte da Jovem Guarda. O conjunto tinha compromissos semanais em show-bailes.

As pessoas que estão ao redor de seus 35 até 45 anos (hoje, em 2005 vai de 45 a 60) e que viram ‘The Crazy Boys’ naque­la época, não esquecem mais. De certa forma são um produto daqueles anos inesquecíveis quando; de cuba libre à mão corriam os olhos pelas mesas em busca de outro par de olhos de gurias aparentemente bem comportadas, o que acabaria interferindo no próprio rumo e definição de boa parte de suas vidas.

Foi um tempo que nunca mais se repetirá, momentos que ficaram registrados apenas nos arquivos secretos da memória daquelas pessoas. Tudo isso embalado pelo som que repre­sentava o resto daquele romantismo inigualável, e que vinha através dos ‘The Crazy Boys’. Ninguém que viveu aqueles tempos em Erechim conseguirá buscar na memória do tempo, algum momento da­queles anos sem ouvir algo parecido como ‘Love Me Do’.

 

Fatalidade

 

Na madrugada de um domingo de 1969, um acidente envolve Zézo na rua Santos Du­mont. O acidente o levaria à morte. O conjunto contorna o impacto e a perda, que jamais foi definitivamente absorvida. O episódio conduz à inclusão do tecladista de renome internacional, Paulo Casarin, também erechinense.

Ainda em 1969 começa uma nova fase dos ‘The Crazy Boys’. O avanço tecnológico chega mais forte à música instrumental e o conjunto tenta acompanhar a evolução. O profissionalismo tam­bém busca o seu espaço e aos poucos começa a surgir uma nova tendência musical dentro do gru­po.

Em 1973, divergências na busca de um aprofundamento maior na música, levaram ao surgimento de alguns problemas. Era o início da primeira parada.

Em 1973, também, Pedrinho já casado se retira da banda. 

Naudi, Serginho e Casarin ingressam no conjunto ‘Os Ipanemas’ – outra banda que marcou época.

Em 1974 Paulo Casarin decide ir para São Paulo. Serginho vai para Curitiba e Naudi também pára de tocar pela primeira vez. Parecia o fim.

A exemplo de conjuntos (bandas) consagrados no mundo inteiro e que serviram de inspiração para o grupo, os quatro rapazes se separam. Surge um vácuo que duraria mais de 10 anos.­

 

Saudosismo não resiste

 

Paulo Casarin e Seginho Intkar. Ao fundo na bateria o eterno Naudi Dalpizzolo. (Foto Arquivo)


1987. Era muita coisa ter de continuar morando em Erechim, caminhar pelas mesmas ruas, ver sempre as mesmas pessoas e ter que passar pela vida, mas sem o Crazy... Por quê?

Ainda era tempo de ouvir e ver mais uma vez o conjunto e recuperar em parte alguns fragmentos de noitadas mágicas dos anos 1960.

Um grupo de saudosistas lançou uma promoção inédita e conseguiu reunir os Crazy para um baile no Atlântico.

Dia 6 de novembro de 1987. O Clube Atlântico foi pequeno para receber  os fãs do conjunto. O show ‘pode vir quente que estou fervendo...’ reúne Pedrinho, Naudi, Serginho, Paulo Muller e Vágner tocando e cantando juntos. (E eu... pra variar, não sendo sócio e como sempre sem dinheiro, só fiquei ouvindo lá em baixo, na calçada. Pobre diabo).

Os tempos eram outros. Olhares que nos anos 1960 percorriam os salões em busca de um par 'compatível', estavam agora sentados à mesma mesa. Os olhos estavam casados.

A certeza do sucesso garantiu novo show desta vez no Clube do Comércio e duas apresentações no BB. Em 1988 o conjunto esteve em Cascavel, a pedido da colônia erechinense.

A mesma cidade levou os Crazy em 1989 para duas apresentações no Biélle Club para três mil pessoas. O sucesso foi tão grande que a TV Bandeirantes gravou um especial  exibido no programa Flash de Amaury Jr.

Os 'Crazy Boys' na verdade nunca pararam, e nunca se separaram. Pelo menos na memória daqueles que os viram. Eles vivem dentro de cada pessoa que passou por Erechim nos anos 1960 e 1970.

Eles ajudaram a crescer os cabelos dos jovens erechinenses. Foram a presença mais viva e próxima dos Beatles e Renato e seus Blue Caps por estas bandas.

Desde aquele domingo de 1966 mudaram muitas coisas que a gente nem lembra mais, e esta é apenas uma tentativa de resgatar parte do que foi este conjunto extraordinário para os padrões locais.

Logo mais – 7 de novembro de 1992 – os Crazy estarão incrivelmente reais no Atlântico com ‘anos rebeldes’. (E eu, de novo não poderei estar lá. Diabos).

E se de repente alguém se enxergar num canto qualquer do clube, sem a atual e real barriga, e ainda com seus longos cabelos sobre a cabeça e em total desalinho, não será nenhuma coincidência. A magia dos sonhos pode nos levar à frente ou voltar no tempo.

Exagere um pouco na cuba libre.

Deixe a "inocência" se adonar de ti. 

E claro, deixe os "Crazy" tocar e cantar.


Renato e Seus Blue Caps

"Feche os olhos e sinta um beijinho agora
De alguém que não vive sem você
Que não pensa e nem gosta de outra menina
E tem medo de lhe perder
Todo amor desse mundoParece queridaQue está dentro do meu coraçãoPor favor queridinha divida comigoUm pouco da minha paixão
Coisa linda
Coisa que eu adoroA gotinha de tudo que eu choro..."

Crazy/Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

The Beatles
"Don't let me downDon't let me downDon't let me downDon't let me down

Nobody ever loved me like she doesOoh, she doesYes, she doesAnd if somebody loved like she do meOoh, she do meYes, she does..."


Crazy/Crazy/Crazy/Crazy/Crazy


Renato e Seus Blue Caps

"Foi só no primeiro olhar/

E eu senti então/

Bater forte como nunca meu coração/

Demorei, mas encontrei o meu primeiro amor/

O meu primeiro amor/

Para mim tudo na vida agora tem razão...//"


Crazy/Crazy/Crazy/Crazy/


Creedence

Someone told me long ago
There's a calm before the storm
I know, it's been comin' for some time
When it's over, so they say
It'll rain a sunny day
I know, shinin' down like water

I wanna know, have you ever seen the rain?
I wanna know, have you ever seen the rain
Comin' down on a sunny day?

Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

Renato e Seus Blue Caps

"Ah, deixa essa boneca

Faça-me o favor
Deixe isso tudo
E vem brincar de amor
De amor, hei hei hei
De amor

Oh, meu bem
Lembre-se que existe
Por ai alguém
Que tão sozinho
Vive sem ninguém
Sem ninguém, sem ninguém...


"Crazy/Crazy/Crazy/Crazy


The Hollies

Bus stop, wet day, she's there, I say"Please, share my umbrella"Bus stop, bus goes, she stays, love growsUnder my umbrella
All that summer, we enjoyed itWind and rain and shineAnd that umbrella, we employed itBy August, she was mine

Every mornin', I would see her waiting at the stopSometimes she'd shopped and she would show me what she boughtAll the people stared as if we were both quite insaneSomeday my name and hers are going to be the same

Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

Os Incríveis
"Um giramundo como eu
Que vive a vida a procurarAlguém que siga o meu caminhoE veja tudo como eu
Se caminhando eu encontrarAlguém que pensa como euSerá o fim dessa estradaE finalmente irei parar
Contando os dias, esperareiE de passo em passoEu procurareiE acharei, acharei, acharei
Um vagabundo como euTambém merece ser felizPois eu só quero desta vidaTer um amor somente meu"


Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

The Beatles

Well, shake it up, baby, now
Twist and shoutCome on, come on, come, come on, baby, nowCome on and work it on outWell, work it on out, honeyYou know you look so goodYou know you got me goin' nowJust like I knew you would
Well, shake it up, baby, nowTwist and shoutCome on, come on, come, come on, baby, nowCome on and work it on outYou know you twist, little girlYou know you twist so fineCome on and twist a little closer nowAnd let me know that you're mine, woo
Ah, ah, ah, ah, wowBaby, nowTwist and shoutCome on, come on, come, come on, baby, nowCome on and work it on outYou know you twist, little girlYou know you twist so fineCome on and twist a little closer nowAnd let me know that you're mineWell, shake it, shake it, shake it, baby, nowWell, shake it, shake it, shake it, baby, nowWell, shake it, shake it, shake it, baby, nowAh, ah, ah, ah


Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

The Beatles

"Just let me hear some of that rock and roll music

Any old way you choose it
It's got a back beat, you can't lose it,
Any old time you use it
It's gotta be rock roll music
If you wanna dance with me
If you wanna dance with me..."

Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

Los Lobos

"Para bailar La BambaPara bailar La BambaSe necesita una poca de graciaUna poca de graciaPa' mí, pa' ti, ay arriba, ay arribaY arriba, y arribaPor ti seré, por ti seré, por ti seré
Yo no soy marineroYo no soy marinero, soy capitánSoy capitán, soy capitánBamba, bambaBamba, bambaBamba, bamba, 
bam  
Para bailar La Bamba..."

Crazy/Crazy/Crazy/Crazy

The Beatles

"She love you, ié, ié, ié

She love you, ié, ié, íe

She love you ... - ... ié, ié, ié, iéééé!". 


PS - Aos mais jovens que desejarem conhecer pessoalmente um dos fundadores da Banda, Naudi Dalpizzolo, ele pode ser encontrado diariamente na sua sua Loja "Êxito" na Av. Maurício Cardoso.

domingo, 26 de março de 2023

Ypiranga x Grêmio! O ingrresso foi caro?!

 

      


                            Luis Gustavo Zanella Piccinin
                Março de 2023

· 

 

Acompanhei com um misto de espanto e incredulidade as calorosas discussões havidas em grupos de whatsapp e redes sociais sobre o preço dos ingressos cobrados pelo Ypiranga para a semifinal do gauchão contra o Grêmio em Erechim.

Sem contar o espetáculo que é acompanhar o time local fazendo história, sim história, porque não é nada fácil competir com a dupla gre-nal para se ter um time minimamente competitivo e com reais chances de vencer o campeonato estadual. Só isso já valeria o ingresso, pois o Ypiranga mostrou com sobras que é um time competentemente montado e com chances técnicas reais nos campeonatos que disputa.

Também a chance de ver um dos melhores jogadores do mundo em atividade, Luis Suares já justificaria igualmente o preço pedido pelo mandante de campo erechinense.

Essas as razões óbvias e imediatas, tudo mesmo considerando se tratar de um evento esporádico e até certo ponto inédito, o que justifica que o time erechinense aproveite a ocasião para reforçar o caixa. Não são elas, contudo, a justificarem o valor das entradas.

A pergunta é outra: - Quanto custou há anos passados a construção do Estádio Colosso da Lagoa? Mais: em épocas sombrias de quase desativação do futebol local quanto custou a manutenção de toda a estrutura física do estádio e suas adjacências? Qual o custo financeiro fixo em perspectiva histórica teve a construção e manutenção daquele que orgulha todo erechinense, tido como o “maior estádio do interior do Estado”? Se até aqui abnegados torcedores e dirigentes contribuiram financeiramente para tanto, há que se dizer e admitir que não foi pouco!


Colosso da Lagoa em obras. Foto: Arquivo/Ody


Graças a dedicados e desapegados erechinenses de valor – muito mais do que “de preço” - é que foi possível construir o estádio e mantê-lo, com maior ou menor dificuldade no passar dos anos. Seguramente os doadores do passado não iam a público reclamar do preço dos insumos empregados na construção. Se doavam e contribuiam, assim  o faziam com sentimento de pertencimento social e de realização, em uma comunidade em que o futebol local era motivo de orgulho e de abnegação. Os tempos eram outros e o orgulho de ter ajudado com a empreitada era seguramente muito maior do que a discussão do valor envolvido. O sentimento de pertencer à maior realização esportiva do município seguramente compensava o desembolso. Tempos de valor, e não de preço!



Drenagem do Colosso da Lagoa. Foto: Arquivo/Ody

Triste é ver que toda essa monumental construção fique hoje reduzida a discussão sobre a justiça do preço. Ora, se o senso for o de participar da grande realização que é o Ypiranga, o valor do ingresso não há de ser criticado, pois serve para manter e aumentar em importância a instituição que é o Ypiranga; se a ideia é que o preço de determinado ingresso seja salgado, qualquer um pode ajudar o Ypiranga com módicos R$ 50,00 mensais, tornando-se sócio, e assim assistir no estádio a qualquer jogo. Seja de qualquer jeito o que importa mesmo é ter a noção de pertencimento, de construção e de realização e de

Colosso da Lagoa/2023 - Foto: José Adelar Ody

honra ao passado, e de que seja pagando o ingresso ou mesmo se associando, o dinheiro desembolsado está contribuindo para uma verdadeira instituição local, que é o Ypiranga, motivo de orgulho para toda a cidade de Erechim. Há que se ter uma noção de história e de valor, e não meramente de preço!

 


sábado, 25 de março de 2023

Um discurso para refletir

 

Lucia, Vanda, Enori, Helena, Francisco, Neusa, Joemir e Neivo. (Foto:AEL)


No lançamento da 24ª Feira do Livro na Câmara de Vereadores, sexta-feira, 24, inúmeros 

pronunciamentos foram realizados, entre os quais o do homenageado desta feira, Francisco 

Basso Dias (Chico) locutor da rádio Difusão. 


Entre as manifestações da Patrona da Feira, Joemir Rossett, da secretária de Cultura e 

Esportes, Carla Talgatti e da presidente da Academia Erechinense de Letras (AEL), Dra. 

Helena Confortin – todos muito 

bem elaborados com vistas ao evento a realizar-se de 22 a 29 de abril na Praça Jayme Lago, 

permito-me reproduzir na íntegra a fala do homenageado da feira, que chamou a atenção de 

todos os presentes pela conjugação de termos não tão comuns em discursos - dando 

um brilho especial ao evento. À bem da verdade todas as manifestações abordaram a feira 

com riqueza, cada qual seguindo seu próprio estilo. 

 

Francisco Basso Dias - Chico


“Distintas autoridades que compõem a mesa...

Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, Sérgio Alves Bento;

Carla Talgatti, Secretária Municipal de Cultura;

Helena Confortin, presidente da Academia Erechinense de Letras;

Patrona da Feira do Livre/2023, Joemir Rossett...

Senhoras e senhores...

O Grande Rui Barbosa, quando retornava à sua terra e recebia uma homenagem dos seus conterrâneos disse uma frase, no início de sua alocução de agradecimento, que copiei e repercuto no início desta consideração para comigo:.....

“Depois disso, diante disso, não sei como principiar...”, ou seja, iniciar, começar... o meu agradecimento por receber carinhosamente esta homenagem que me deixa um tanto emocionado.

Minhas palavras neste momento não são apenas protocolares, na qualidade de homenageado, mas falo também como comunicador de rádio com 70 anos de carreira.

A Feira do Livro de Erechim, traz um retrato instantâneo de nossa produção editorial contemporânea.

Como se trata de livros, traz também muito mais do que isso: um convite à descoberta de nossa literatura.

Nestes tempos contemporâneos, pelo mundo afora, somos todos vítimas de uma certa prisão a imagens pré-determinadas, que prometem um resumo rápido de todo um povo e uma cultura.

Porém nem sempre essas imagens são fiéis.

Uma palavra detona logo uma imagem que pretende esgotá-la, sem perda de tempo. E a imagem do Brasil não é associada a livros. Ou seja, o Brasil não é considerado (me desculpem) um país literário – diferente de alguns de seus vizinhos. Os estereótipos que se colam aos olhares lançados sobre nós se voltam muito mais para a cultura daquilo que é imediatamente apreensível pelos sentidos - o corpo.

Mas, um corpo em que o cérebro costuma ser esquecido, como se não tivéssemos espírito, na celebração da dança, da música, do futebol, da capoeira e outros esportes, da sensualidade, das peles bronzeadas que se exibem nas praias, do carnaval, dos sabores da caipirinha.

Mas, nós brasileiros somos muito mais do que isso, no amálgama cultural e étnico que nos constitui, capaz de criar tudo isso e muito mais, a partir de um rico patrimônio indígena encontrado pelos europeus que chegaram ao nosso país, dos  diversos aportes dolorosamente  transplantados da África em porões de navios carregados de escravos, da bagagem acumulada e trazida por imigrantes europeus, asiáticos, e do oriente médio, de variadas origens – todos colaborando para moldar uma forma única de nos expressarmos, capaz de  dar uma contribuição enriquecedora para todos nós.

Então, ao agradecermos o convite para esta homenagem, vamos mergulhar nas águas desta multiplicidade, desta identidade aberta, feita de diálogos e cruzamentos culturais.   Agora, cabe apenas uma advertência: não venham procurar o exotismo e o pitoresco, nem a se dar por satisfeitos com a denúncia automática dos óbvios problemas, repetidoras de clichês.

Procurem ir além da mera confirmação de estereótipos simplificadores. A literatura que se faz no Brasil tem muito mais a lhes oferecer - em sua variedade de protótipos, sua inquietação, sua inovação formal, sua inquietação, seus variados registros de diálogo irônico com o cânone em piscadelas literárias de todo tipo, das mais refinadas e sutis às mais divertidas e escrachadas paródias, pastiches, intertextualidades.

A sociedade e a política brasileira estão sempre rondando, por perto, por baixo do que se publica entre nós. Esse substrato político na escrita é uma das nossas marcas. Em seu conjunto, nossos livros levantam indagações, reflexões, diálogos críticos com o real, hipóteses do imaginário, a partir de fatos de nosso cotidiano e de sabores por eles despertados em cada um de nós.

Trazemos autores de procedências diversas, com suas falas pessoais, visões peculiares e irrepetíveis. Uma soma. Um mosaico, talvez. Um tecido de fios entrecruzados, de desenhos imprevisíveis e surpreendentes. Quem tiver o cuidado de examinar de perto essa urdidura terá também a revelação de avessos instigantes e desafiadores, pessoais, únicos, típicos das texturas e dos textos artesanais, abandonados nas produções em série dos grandes teares industriais.

Tudo isso contribui para compor uma literatura de grande vitalidade, num processo dinâmico que se movimenta sempre, construindo possibilidades insuspeitadas pelos olhares comodistas e superficiais.

Este é um convite para que venham encontrar essa literatura plural, múltipla, diversa, em que os regionalismos eventuais se esgueiram pelas frestas de um cosmopolitismo inesperado, construído sobre a intensa riqueza de uma cultura oral vigorosa que ajuda a sustentar refinadas invenções vanguardistas, sem deixar de dialogar com ecos de uma cultura de massas dinâmica, onde técnica e improviso  ousadamente se dão as mãos. Ao pagar o preço histórico de só termos conseguido escolarizar plenamente nossas crianças nas duas últimas décadas (e ainda assim, de maneira precária, com baixa qualidade no ensino), e de termos grande parte de nossos professores oriundos de lares analfabetos, sem intimidade com livros, esbarramos também num acelerado processo de urbanização e desenvolvimento tecnológico, numa rede de comunicação de massa onipresente e criativa, de alta qualidade e de elevado padrão técnico.

Em grande parte, saltamos diretamente da cultura oral para a televisão e o mundo digital sem fazer escala na Galáxia de Gutemberg. Mas desse processo histórico injusto, a refletir as desigualdades do país, nossa cultura tira uma força única, com uma produção de grande vitalidade e diversidade, combinadas de maneira muito própria, em original contribuição que surpreende quem chega perto desarmado de preconceitos, disposto a se deixar impregnar por ela.

A nossa Feira do Livro é um retrato instantâneo deste momento.

Encerro pois estas palavras repetindo o convite a cada um para que se aproxime de nossos livros e venha garimpar tesouros nesses ricos veios, em busca de suas descobertas pessoais. Há livros para todo gosto, e seguramente cada leitor saberá encontrar o seu. Provavelmente, mais de um se revelará atraente. Para isso, basta chegar perto, procurar ler, enfrentar o desafio de ir além da superfície e não se limitar apenas aos que nela flutuam, selecionando somente os que confirmam o que já se espera achar. Garanto que boas surpresas estão à sua espera.

Sejam bem vindos.

Desculpem as autoridades que aqui estão, e agora finalizando, eu quero compartilhar esta homenagem que é muito significativa para o meu ego, com os jovens...com os estudantes....

Deixando como última mensagem o seguinte: A leitura é algo importante na vida das pessoas, e acima de tudo, para o desenvolvimento intelectual e cultural do ser humano. Ler estimula a criatividade, melhora a escrita, ajuda no funcionamento do cérebro e exercita a memória, além de outros benefícios. A leitura pode mudar o mundo. A leitura é descobrir sentidos. É a reinvenção da realidade. Uma boa leitura nos faz compreender o mundo a nossa volta através de diversas perspectivas e é por meio desse processo que se torna viável construir novos significados a partir de cada objetivo.

Obrigado!!!!”

 

Nota: (Francisco Basso Dias é, atualmente, o radialista mais veterano (87 anos) a exercitar diariamente o ofício na radiofonia do Rio Grade do Sul).

sábado, 11 de março de 2023

As árvores

 

Maria Luíza ,Cleusa, Neivo, Helena e Lucia. Foto: Zeni Bearzi (AEL)

1

A vassoura de palha ia a vinha, sempre empurrando para a frente as folhas.

Eram folhas que caiam noite e dia, inverno e verão, sob chuva ou sol.

Caíam e ia se acumulando, mas ali não era o lugar delas.

Uma vez despencadas deviam ser juntadas e colocadas num depósito de lixo e depois levadas sabe lá Deus pra onde.

2

Eu que já tinha os braços cansados de tantas e tantas provas que passara no mimeógrafo a álcool para os professores das mais diferentes disciplinas, eu que já tinha dado voltas e voltas juntando a primeira depois a segunda, depois a terceira folha, depois... até completar o “polígrafo da prova” e grampeado todas aquelas pilhas de provas – e ficar de bico calado carregando a confiança dos professores e, em especial do diretor do Cese (Centro de Ensino Superior de Erechim), o bigodudo e competente professor João Dautartas, podia então pegar a vassoura a ir varrer os pátios do que viria a ser a URI exatos 20 anos mais tarde.

Varria os corredores, varria as salas (que eram poucas), varria a parte dos fundos do prédio onde professores e alunos deixavam seus carros e, claro, varria a frente, o acesso principal, a entrada ao prédio da “Faculdade”. Uma das minhas preferidas era varrer a sala onde estudava à noite junto à “nata política e econômico/empresarial” da cidade no recém criado curso de Administração de Empresas.

3

Hoje aquela primeira sala abriga a Capela Santo Agostinho.  

De quebra ainda me sobrava tempo ou tarefa para começar a montar uma espécie de biblioteca com arquivos de metal, tipo prateleiras de escritório. Ela estava localizada onde há tempos funciona a Assessoria de Comunicação do câmpus. Os livros (poucos) começavam a vir de onde sei, doações, etc., e minha maior preocupação era que aqueles arquivos de metal cinza, que entortavam e ensaiavam cair; que pelo amor de Deus não desandassem.

Árvores ao fundo na entrada da URI e Bandeira da AEL. Foto: ZenI Bearzi (AEL)
4

E assim, sem nenhuma experiência no setor ia distribuindo aleatoriamente os livros de forma principal a manter o equilíbrio daquela peça metálica, que foi virando duas, três e acho que parou por aí.

Tudo isso me foi “dado” pelo diretor João Dautartas como compensação por não conseguir mais pagar meu curso de Administração.

Das 5 horas da manhã às 13 horas eu trabalhava num posto de gasolina como frentista.

E, depois das 14h30min mais ou menos, trabalhava na “Faculdade”, fazendo um pouco de tudo.

5

À noite entrava na sala de aula ao lado dos colegas e demais alunos, todos eles já praticamente com a vida feita – como disse - a maioria proprietários, diretores, gerentes de grandes empresas, ou funcionários do Banco do Brasil ou instituições de Estado com suas regionais radicadas em Erechim. E eu - frentista.

6

Suportei um ano e meio e desisti do curso.

Não era o que eu queria.

Não era para mim.

Não sabia ao certo o que queria – mas o que não, sabia.

E lidar com contas, contabilidade, ativos e passivos,

e coisas do gênero definitivamente não era para mim.

7

Um dia, Jayme Luiz Lago, (meu colega de aula – a primeira turma de Administração), ele que 11 anos mais tarde viria a ser prefeito de Erechim, chamou  um dos proprietários do jornal “A Voz da Serra” e nosso colega de curso, Gilson Carraro e lhe disse: “Leva esse guri pro jornal. O lugar dele é lá”.

O pedido se concretizou como uma ordem e ali na “A Voz da Serra” então iniciei minha trajetória no jornalismo sob o olhar, de outro homem com bigodes vermelhos – e uma língua de fogo. Meu estimado amigo Geder Carraro. Um professor.

Aguentei seis meses ou mais e fui para a empresa Vva. José Sponchiado ser chefe do Departamento de Cobranças.

Durei um ano e alcei voo até Porto Alegre ingressando na PUC e na rádio Difusora para aterrizar na companhia Jornalística Caldas Júnior. O resto todo mundo sabe.


Cleusa, Neivo, Helena e Lucia. Foto: Zeni Beazri (AEL)
8

Sou agradecido a todos que me ajudaram.

Na reunião de posse da Dra. Helena Confortin, na presidência da Academia Erechinense de Letras (AEL), semana passada, ao lado de outras personalidades do mundo das letras da cidade – ouvindo os discursos parecia que algo em atraía ou chamava lá de fora da sala do prédio principal da URI.

9

Eram elas, as árvores que continuavam embalando seus galhos e largando folhas ao chão bem na entrada principal da URI – quase dançando ao compasso de uma brisa leve.

Será que elas se lembravam de me mim e me saudavam?

Será que só queriam dizer boa noite, olá, tudo bem?

Será que me pediam por onde tinha andado?

Só sei que eram em número bem maior e seus corpos já

estava bem desenvolvidos.

Quanto valeria a sombra delas para quem sentasse por ali.

Até hoje agradeço àquelas árvores que dispensavam ao solo suas folhas mais maduras ou velhas ou enverrugadas.

Sim, porque não fossem elas, talvez jamais ganhasse a oportunidade de continuar meus estudos no Cese (hoje URI) e, muito menos, muito provavelmente não me depararia com alguém que de fato sabia o que eu queria ser.


Árvores na entrada principal da URI aina resistem. Foto: Zeni Bearzi (AEL)
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As arvorezinhas menores se assanhavam como a se

esfregar ou segurar numa saia de mãe recostadas nas

mais antigas e crescidas, garantias de segurança,

porquanto com suas grossas e largas raízes, profunda

e firmemente agarradas ao solo.

Há quem não acredite em destino. Há quem acredite.

Se existe mesmo, o certo é que ele vem de cima, do céu,

ou – quem sabe – da copa de alguma árvore qualquer e

nos empurra vida à frente assim como minha velha

vassoura de palha empurrava as folhas que 

substituídas continuam caindo.