sábado, 3 de agosto de 2024

O "gatuno da 'nossa Fátima' do Mantovani"

 

Elídio Scaranto: Foto: Arquivo/divulgação 

Vou confiar, o mais que puder, na minha memória.

Eram os anos 1964 ou 1966 ou... Só sei que concluí o Científico em 1969. De uma coisa tenho certeza: em todo Colégio Mantovani (como era conhecido), não havia em série alguma, colega mais linda que a Fátima. Não lembro seu sobrenome de solteira – mas da Fátima, ah, eu me lembro porque ela era simplesmente linda demais em tudo. Educada. Simpática. Tinha uma voz controlada, com um volume regular/mais para baixo que para alto. Divertida. Doce. O que mais me chamava a atenção: era tudo isso como se ela fosse igual; igual a todos os demais. Sem exibicionismos – andava, respirava, frequentava, circulava e vivia com uma discrição, que a mim, aterrorizava. “Como pode alguém assim tão, tão... comportar-se assim, sem, sem... sem se ‘achar’ etc e tal”. Que nada. A Fátima descia alguns degraus na escada das características que marca cada um de nós, para se misturar. Verdade também é – ninguém vive isolado.  Eu!? Meu Deus - resignadamente jamais pronunciei, ou mencionei, ou me aproximei dela dando a entender que achava tudo isso. Era como se dizia há bom tempo também, e faço-o hoje respeitosamente, “muita areia para meu...”. 

Por fim uma outra verdade: aquele Mantovani dos anos 1960 não tinha só ela, mas punhados de lindas meninas. E mais por fim ainda - talvez quando a gente tem 15, 16, 17 anos... as belezas florescem até de terreno pedregoso. É a vida. E é verdade. Mas que a Fátima era mesmo, como se diz hoje, "fora da curva", disso não há a menor dúvida.  

Pois o tempo passou e me fui vida afora, até parar no jornalismo da PUC em Porto Alegre e nunca mais vi a Fátima. Um dia, assim sem mais nem menos, fiquei sabendo que a Fátima se casara. E logo me veio a curiosidade: quem teria sido esse privilegiado? 

Santo Deus -  não acredito. Casou e casou-se com o nosso professor de Português, o grande mestre Elídio Scaranto. Não pude deixar de arquitetar uma teoria conspiratória, provavelmente alicerçada em pensamentos já contaminados – ou em sonho: “mas que danado, hein! Dando suas aulas assim como quem só estivesse dando suas aulas e... e....! Esse Elídio. O professor. O gatuno da 'nossa Fátima'... do Mantovani”. 

Que homem de sorte e por vai e foi. Ao que sei e, bem sei; foram felizes. Tiveram duas filhas e um filho que lhes deram três netos. Um por ramo. Um dia soube que a Fátima estaria doente. Muito doente. Dessas doenças que nem todos conseguem se livrar. Difícil acreditar, ainda mais, quando associava o quadro de saúde pelo que me chegava aos ouvidos e a lembrança daquela “Fátima pura vida” dos tempos de Mantovani.

Já haviam se passado anos e numa tarde na esquina do Hospital de Caridade, na ala superior acima do laboratório, onde estariam internados os “pacientes terminais”. Do lado de fora do hospital existe até uma rampa e, ali, me deparei com um aglomerado de pessoas conhecidas. O Paludo (Narcíso) se aproximou e à baixa voz, com embargo, soltou um lacônico “a Fátima faleceu”. Eu calei porque não sabia o que dizer quando abrisse a boca. Um filme onde tudo já não era mais real, mas tão somente lembrança, passou num segundo pela minha cabeça revisitando os tempos de Mantovani. Passou a beleza, a discrição, a saia plissada azul marinho, a diadema, a doçura da Fátima, o professor Elídio, seus filhos que não conheço ainda e, tantas lembranças periféricas. Tudo evaporou como um recorte qualquer de um dia qualquer que foi vivido, mas de repente, muito provavelmente, se meteu no Mato da Comissão e nunca mais foi visto. Até hoje e para todo o sempre só poderá ser - lembrado.

Havia mais de um mês em 1981 que eu trabalhava na sucursal da Caldas Júnior em Passo Fundo (depois de pedir demissão da mesma empresa em Porto Alegre). Fizera o que ninguém faria em sã consciência: sair daquela potência da comunicação rio-grandense, para voltar ao interior. Tudo estava dando errado, morava numa pensão de madeira no centro de Passo Fundo onde o inverno naquelas salas enormes e vazias era de congelar as mandíbulas. Lá fora, o vento - cortava. Eu só pensava na besteira que fizera ao trocar a capital pelo interior, e só sonhava dia e noite que talvez milagres acontecessem de verdade e me oportunizasse trabalhar então na minha cidade – Erechim.

Um dia, como diria Forrest Gump, assim sem mais nem menos, do nada, como quem não quer nada porque nada pode aspirar de concreto recebi uma ligação na sucursal. Confesso que não lembro quem ligou, mas havia o dedo do professor Elídio Scaranto nessa história. Queriam  saber se eu não teria interesse em vir trabalhar em Erechim. Era só o que eu queria. Era tudo que eu queria. E aí, quando me dei conta estava na 15ª DE (hoje 15ª CRE). No mesmo 1981 me convenceram que eu podia entrar numa sala de aula e me assumir como “professor”. Havia um curso de Redator Auxiliar (algo semelhante ao curso de jornalismo, mas em nível de 2º grau - atual Ensino Médio) no JB (José Bonifácio).  As disciplinas eram a soma do que um jornalista faz no seu dia a dia. Fui para ver como seria e quando acordei, passaram-se 15 anos. Era 1995 ou 1996. Um dia, também assim sem mais nem menos, entrou uma direção que acabou com o curso de Redator Auxiliar. Sem a menor dúvida – fui um equívoco. Uma pena. Não para mim, mas para a escola, para o ensino médio.

O Elídio cotegipense de nascença, com passagens por escolas de Três Arroios e Seminário de Fátima onde estudou (as Fátimas estavam mesmo no seu caminho) viria a espalhar seus conhecimentos excelsos especialmente na gramática, por escolas públicas estaduais de Erechim e cursos de graduação e pós-graduação na URI. Pessoalmente reencontraria o mestre nas aulas de Língua Portuguesa no Centro de Ensino Superior de Erechim (Cese). 

Elídio Scaranto também bem deixou suas marcas na política local, exercendo inúmeros cargos na municipalidade, quase sempre ligados à educação. Foi secretário de Educação e Cultura, de Administração, de Obras e vereador. Capitaneou o Plano de Carreira do Magistério, foi o mentor e criador do Arquivo Histórico Juarez Miguel Illa Font no raiar dos anos 1980, organizou a Biblioteca Municipal Dr. Gladstone Osório Mársico, esteve envolvido na construção de quase meia centena de escolas e coordenou a construção do Cento Cultural 25 de Julho.

Atuou na coordenação do Mobral, do Centro de Bem Estar do Menor, foi representante do Instituto Nacional e Estadual do Livro em Erechim, passou pela coordenação  geral da Fundação Educacional Padre Landel de Moura, coordenou festivais de arte popular e folclóricas do município, criou exposições de fotografias históricas e de pinturas.  Não bastasse seu currículo tão vasto, de quebra, foi o mentor e idealizador da Feira do Livro de Erechim.

Era 1977 quando o então secretário deu vida ao projeto acabou coordenando os primeiros sete eventos que tanto orgulham a cidade. A propósito, na 20ª Feira do Livro, nos 100 anos de Erechim em 2018, Elídio Scaranto foi reconhecido como patrono do evento formando dupla inesquecível ao lado do homenageado especial daquele ano – o povegliano Jaci José Delazzari. Enfim – enquanto esteve ligado ao poder público da municipalidade deixou suas digitais em dezenas de iniciativas ligadas à educação, à cultura, à arte e à documentação histórica, acumulando ainda o acerto na escolha e capacitação em Porto Alegre, de um jovem curioso, pesquisador e historiador – o grande Enori Chiaparini, que viria a organizar e responder pelo Arquivo Histórico.   

Superando percalços que a vida impõe, tempos após a partida da inesquecível Fátima, o cidadão Elídio acabaria conhecendo outra pessoa (Nilce Fátima - não acredito - mais uma Fátima!), que tornou-se sua companheira na trajetória de sua recheada vida em prol da cidade que abraçou e a quem dedicou grande parte das suas melhores virtudes. Ambos, professores vivem hoje uma aposentadoria merecida e tranquila.

Como aluno do professor Elídio, em períodos e circunstâncias distintas (2º grau e graduação), e mais tarde ainda como seu colega na administração Jayme Lago, busco com este singelo e despretensioso texto, reconhecer neste ser humano e homem público, ter me oportunizado a retomada da própria vida, num dos momentos mais difíceis que enfrentei. Sei que houve ainda a participação de outras pessoas (tenho minhas variadas suspeitas...) – mas se minha memória pode me trair; não consigo ignorar que esse sujeito acabou interferindo no meu resgate e encaminhamento para o magistério, posteriormente.   

Quem não teve tal proximidade com o Elídio para uns, Scaranto para outros, não precisa concordar e nem bater palmas, mas se as nossas obras refletem no espelho da vida uma luz, ou um bom lance ou um naco da nossa passagem por onde quer que a vida tenha nos levado, releia e reflita sobre o currículo que eu mesmo espremi (para caber aqui) a respeito desta figura tão engajada à cena histórica/educacional e cultural desta cidade.

Meu caro “gatuno daquela Fátima dos tempos de Mantovani”. Eu sei que a expressão pode parecer exagerada ou até chocante, mas aprendi no jornalismo que, às vezes, é preciso tentar impressionar um pouco, não só para sensacionalizar algum evento, mas para contemplar ainda melhor o que verdadeiro foi e é.

Pelo conjunto da obra, da sua obra meu amigo – minha sincera gratidão, na certeza que o município, a cidade, os erechinenses enfim, muito lhe devem e, um outro tanto tem a lhe reconhecer de fato, se é que ainda não o fizeram na sua mais extensa merecida plenitude.

Hoje me rendo: não!

O professor de português não gatunou ninguém. 

A Fátima é que escolheu. E bem.

Grande - Elídio Scaranto.


PS - Esta crônica ou texto não tem outro viés senão o de enaltecer a querida colega e amiga Fátima (de saudosa memória), o professor Elídio Scaranto e os seus mais próximos.

sábado, 6 de julho de 2024

É uma questão de princípios com a memória


 

"Velho Borges"- completaria neste domingo - 102 anos
Foto: Arquivo/Divulgação

No período marcado como “Brasil o país do futebol”, houve uma época um pouco anterior onde o que não faltavam eram monstros sagrados neste esporte. Zizinho, Jair da Rosa Pinto, Leônidas da Silva, Heleno de Freitas, Ademir Menezes, Castilho, Canhoteiro... Eram os anos 1940/1950. Aí em fins de 1950 veio Pelé e, junto com ele, umas duas dezenas de jogadores fantásticos. O resto da história todo mundo conhece. Neste combo estão cinco títulos mundiais.

Aos poucos as grandes promessas foram atravessando o Atlântico, atraídas por fortunas que os clubes brasileiros não podiam pagar. Ademais – as ofertas eram irrecusáveis. Com o surgimento da figura do empresário de futebol, os atletas extra-classe entenderam melhor este cenário e a troca de continente passou a ser um processo natural.

Hoje em dia o Brasil tem uma seleção que fala vários idiomas, joga em gramados de primeiro mundo, reside em cidades de uma cultura talvez inacansável em termos de hábitos, etc., e vai daí uma espécie de descolamento, de divórcio entre as mais recentes seleções nacionais e a torcida brasileira.

A cidade de Erechim tem orgulho de inúmeras conquistas.

Está na história por um traçado que imita Paris e Washington, é visitada e estudada por caravanas de arquitetos para conhecer sua imensidade de propriedades "art deco", possui um Polo de Cultura entre os mais bonitos do país, afora seu Parque Florestal Longines Malinowski e seu prédio símbolo “Castelinho” – que anda pelas tabelas. Já houve inclusive tempo em que recebia visitantes para conhecer o estádio Olímpico Colosso da Lagoa que, na época da construção, vendeu-se a ideia que poderia receber toda a população da cidade. Isso nunca foi verdade, pois nem o estádio jamais teve essa capacidade e, quando da inauguração em 1970, a área urbana de Erechim concentrava 34 mil almas.

Mas voltando aos monstros sagrados do futebol dos anos 1940/1950, por mais incrível que pareça, Erechim teve o seu. Neste domingo, 7 de julho, domingo que já foi o dia do futebol - se vivo fosse e na memória de muitos ele permanece entre nós - Hermínio Carpegiani, o “Velho Borges” como tornou-se conhecido no meio do futebol estaria de aniversário. Faria 102 anos de idade. Fui “convocado” por um atlantista a não deixar cair no esquecimento esta data. 

escrevi alguns artigos sobre esta figura ímpar do futebol erechinense, então, este desafio é mais que um desafio. Preciso tirar "coelho de cartola" para não repetir o que já escrevi, mas enfim, também sou atlantista e, em homenagem ao meu pai que conheceu de perto o astro verde-rubro, sinto-me no dever e confortado. 

Sugeri uma homenagem ao extra-classe do nosso futebol raiz que veio ao mundo em Antonio Prado. Depois de muita conversação encontraram um lugar numa praça. Porém, receio pelo local, tanto que o memorial já teve de ser reconstruído. Onde está é bonito, mas corre riscos - pertinho da pracinha do Avião. 

Foram os olhos avançados de Plácido Dal Zot, conhecido como "Gorila", dirigente verde-rubro, que descobriram o atleta extra-classe. Considerando o que descobrira - seus olhos eram tão apurados e grandes como seus charutos. Hoje seria um descobridor de talentos à serviço de grandes clubes.

Foto: Arquivo Família

Em 1942 o empresário foi buscar o jovem Hermínio e o trouxe para o Atlântico. Oceanicamente diferente do que é o futebol de hoje – Hermínio Borges trabalhava de manhã na fábrica do “Seu Plácido" e, enquanto respirava a densa fumaça que saía do charutão do patrão,  montava camas de molas. Como compensação ganhava, nos primeiros tempos, licença para treinar à tarde no Atlântico, time do coração do senhor Dal Zot.

Ninguém sabe com exatidão o porquê do apelido  de “Velho Borges”, que, lenda ou realidade teria recebido de alguém quando fazia alguma arte ainda guri. “Olha que eu chamo o velho Borges”, ameaçava uma voz numa alusão, muito provavelmente ao governador da época. Mas sobre isso não se tem certeza. Alguém me disse, não lembro quem, que entre os atletas ele era chamado também de "Grilo". Não sei se procede.

No Clube Esportivo e Recreativo Atlântico (CER Atlântico) que desde seu nascimento em 1915 até hoje sempre teve uma identidade cooperativa, social e esportiva, por que não, futebolística, o “fazedor de camas de molas”, foi campeão de Erechim de 1942, 43, 44, 46, 47, 48, 54, 55, 56 e 1957. Conquistou os regionais de 1942, 1948, 1954 e 1958. Foi vice-campeão estadual de 1948 e 1954.




Paulo César, "Velho Borges", Celso Borjão e Édson
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Foto:José Adelar Ody

Nos 16 anos jogando futebol (1942 - 1958) jamais vestiu outra camisa que não a do Atlântico. Teria seguido de ônibus certa feita a pedido do Grêmio para fazer teste, mas não se fardou. Aliás, segundo Arioli, "ele nem saiu da rodoviária". Pegou outro ônibus e voltou a Erechim, para sua família, para sua casa, para seu único clube.

Casado com a senhora Leda Lacy teve quatro filhos: Celso (Borjão), Paulo César (Carpegiani), Tânia e Edson. Os dois mais velhos seguiram o pai no futebol. Paulo César, no meu entender, tornou-se o maior jogador da história do Internacional desde 1909. Borjão atuou em grandes clubes, fez os dois primeiros gols do Ypiranga no Colosso da Lagoa, até uma lesão no joelho tirá-lo do futebol profissional. Ao lado do irmão foi destaque no futsal também. Da Tânia recordo que fomos colegas no ginásio e ensino médio no Mantovani. Com Édson não convivi.

O aniversariante deste 7 de julho - falecido em 2007, deixou um legado que não sei se o próprio clube Atlântico sabe: além dos inúmeros títulos, jogou 65 clássicos Atlanga. Empatou 12, perdeu 19 e ganhou 34. Fez 31 gols em Atlangas. 


foto: Arquivo pessoal.

Num especial feito para homenagear o “Velho Borges”, chegaram a compará-lo a um dos maiores do mundo, o que sem dúvida foi um exagero, mas ouvindo dezenas de pessoas ligadas ao futebol dos anos 1940 e 1950, que frequentavam treinos e não perdiam jogos – extraí uma certeza que deveria honrar a direção verde-rubra. A verdade surpreendente que colhi nas pesquisas é que segundo atlantistas e todos os ypirangusitas consultados, todos consideraram que Hermínio Carpegiani, foi o maior jogador de futebol a correr pelos gramados erechinenses. E isto, no contexto de uma rivalidade espelhada como se Grenal local fosse, diz mais que tudo.


"Velho Borges" e "Sabiá". Dois craques. Jogaram no Atlântico e depois foram adversários na dupla. Foto: Arquivo/Divulgação

No dia 20 de julho de 1947, no estádio da Montanha, o Atlântico aplicou uma goleada no seu maior rival: 4 a 1. Segundo crônica de “A Voz da Serra” aos 15 minutos o árbitro recusou-se a continuar apitando. Os cronometristas também entregaram o apito, todos descontentes com o policiamento. A arbitragem foi assumida pelo desportista de nome Porto Alegre. A crônica do jornal não dá detalhes sobre as razões do inusitado episódio.

O Atlântico jogou com: Tagliari; Izabelino e Bosio; Rico, Chittolina e Vicente; João, Mozart, Borges, Teffili e Doravante.

O Ypiranga teve: Barbieri; Guaporé e Borges; Tedesco, Amélio e Nardo; Wilson, Sgarabotto, Helly, Plinio e Nanico.

Sgarabotto fez o gol do Ypíranga.

“O velho Borges” fez os quatro do Atlântico.

Clássico que mexia com clubes, atletas, dirigentes, famílias, nas 

fábricas, no comércio, nos bares, nas ruas, na imprensa.

E acaba em goleada.

E o mesmo jogador faz todos os gols do time vencedor.

Isto faz 77 anos - e ainda está na memória.

Nos anais do futebol erechinense.

Na história.

O "Velho Borges" liquidara com o rival.

Que feito.

Que semana.

Que coisa para contar aos filhos, aos netos, aos bisnetos...



Foto: Arquivo/divulgação

Tenho outras passagens do “Velho Borges” pelo Atlântico, que ficaram na história, mas já contei algumas. Ressalto a seleção do eterno presidente gremista, Fábio André Koff, que trabalhou nos dois clubes de Erechim antes de seguir para Porto Alegre. Na sua seleção, cinco atletas do Ypiranga e cinco do Atlântico, mas com um detalhe do próprio Koff: “o Velho Borges”, centroavante: “o melhor de todos”. Faltou um? Sim - Paulo César Carpegiani, que jogou nas categorias de base dos dois grandes de Erechim na época.

Milton Arioli, jogou com o "Velho Borges.
Foto: José Adelar Ody

Um dia, no escritório do senhor Milton Arioli, ele que ajudou na confecção do livro dos Atlangas me disse: “Ody – num Atlanga o jogo estava difícil para nós (Atlântico). Campo pesado, chuteira pesada, bola pesada, etc., e de repente uma falta para nós. Tu viu o Noronha bater falta? Sempre encobrindo a barreira e a bola caindo dentro do gol? Pois é. O “Velho” pegou a bola de couro e bateu igual. Ela subiu e desceu dentro do gol sem chances para o goleiro. Mais adiante outra falta. Lá foi de novo o “Velho”. Pegou a bola, não tirou muita distância e deu uma bomba, mas uma bomba - que o goleiro até hoje não sabe por onde ela entrou”.

Ainda no dizer de Fábio Koff. Mas o que o “Velho Borges” tinha de tão diferente?“Tudo que se pode exigir de um jogador. Espírito combativo, era técnico, chutava com os dois pés, cabeceava muito bem, enfim, era um jogador de exceção”. E Arioli completa: "Ele armava, concluía, jogava em várias posições - comandava o time". 


"Velho Borges", Sabiá e Paulo César Carpegiani
Crédito: Arquivo/divulgação

Assim como todos os monstros sagrados do futebol passaram e deixaram suas marcas e história – alguns injustiçados e não reconhecidos como mereciam -, os nossos também passaram. Seus feitos, não obstante, permanecem.

A raiz do CER Atlântico que remonta a 1915, portanto há quase 110 anos, jamais abdicou da sua bandeira, do seu nome, das suas cores, do seu hino, enfim, jamais omitiu as razões, os feitos e os ideais de seus pioneiros na sua maioria – italianos. Reconsiderar, na maioria das vezes constitui um ato de grandeza que por sua vez também passa a ser incorporado à história de uma instituição, de uma pessoa ou de um clube.

A guinada que o CER Atlântico deu em 1977 ao fechar seu departamento de futebol profissional não obscurece e muito menos apaga seu passado de glórias. Os feitos grandiosos alcançados sob os mesmos princípios que deram origem a este clube, hoje orgulho de Erechim no futsal, só engrandecem sua própria história e quem a planeja e constrói.


                      Baixada Rubra demolida em 1991. 
                                Foto: Arquivo/Divulgação
                                                 
A revolução francesa conseguiu ser apagada?

A guerra civil americana conseguiu ser esquecida?

Alguém não reverencia Pelé como o maior de todos os tempos?

Por que Renato Portaluppi tem uma estátua no Grêmio?

Por que Romário tem uma no estádio do Vasco da Gama?

Por que Fernandão tem a sua estátua no Beira Rio?

Zico tem várias no Flamengo e uma no Museu do Rio de Janeiro.

Quantas dezenas de ex-atletas, que foram expressões máximas 

receberam reconhecimento por seus clubes?

Alguns, quem sabe até cabendo discussão, mas foram reconhecidos.

Outros por méritos indiscutíveis.

Alguns dos feitos citados foram reescritos, foram aprofundados em 

análises e conclusões, mas na essência eles permaneceram tal qual 

ocorreram, porque esta era a sua verdade mais próxima da 

realidade.


Não é preciso negar nenhuma passagem de sua história.

Nada apagará, nem ofuscará, as conquistas nas modalidades 

optadas pelo clube.

Seu futsal reconhecido nacional e internacionalmente permanecerá 

com suas taças no armário, suas glórias públicas, assim como 

continuará sua missão de tornar-se protagonista sempre 

procurando escala ascendente.

De outra sorte, atos e ações que visam melhorar a instituição, ajustar algum desajuste histórico em complemento à sua mais completa verdade, inclusive se necessário for, mudar o que escrito está como se uma constituição interna fosse, sempre em observância à sua concepção e missão enquanto vida - só engrandece seus autores. 

Fazem-nos maiores. Deixam-os com a consciência plenamente em paz consigo mesmos olhando para o passado, respirando tranquilo o presente e vislumbrando um futuro que a outros caberá levar adiante honrando o legado recebido.

Enfim, é tudo uma questão de princípios com a memória..

Julio Cezar Brondani - Presidente do CER Atlântico.
Foto: Arquivo/Divulgação

Quando penso naqueles que tiveram a ideia de fundar um clube quase associativo/cooperativo, depois social e que logo também esportivo com a pratica do futebol, no seu nome, na bandeira, na sua torcida, no seu nome, nos princípios que lhe deram vida ativa nestes 106 anos na cidade – na minha concepção ao colocar no seu espaço geográfico, na sua casa esportiva, uma tangível lembrança em homenagem à sua maior expressão futebolística – Hermínio Carpegiani, “o Velho Borges” -, o maior jogador de futebol de campo profissional do CER Atlântico e de Erechim, 

me vem à mente uma passagem que está em seu próprio, lindo, irretocável e eterno hino. 




Portanto, 

“... honremos nossa tradição!”


 

 

 

 

 

sábado, 29 de junho de 2024

Era hora da maturidade

 

Que nessas horas também seja lembrado que é preciso saber jogar o jogo
Crédito: Enoc Junior. 


Se o jogo tivesse acabado 0 a 0 na tarde/noite deste sábado gelado de 6 graus (29//24) no Colosso da Lagoa entre Ypiranga e ABC o torcedor sairia conformado. Afinal o time criou ótimas oportunidades na primeira etapa, mas parou nas boas e oportunas defesas do bom goleiro do ABC, Pedro Paulo. Ademais – o sistema defensivo do time do Rio Grande do Norte do país fazia uma boa partida, fechava espaços e se comportava de uma maneira que desde o início se percebeu que não seria fácil para o onze de Thiago Carvalho.

Sem ser ameaçado, o Canarinho voltou para o 2º tempo, mas não conseguiu repetir a intensidade do primeiro. Amarildo pela esquerda estava cansando,  Gedeílson sentiu uma lesão e o ABC equilibrou as ações. Isso levou o Ypiranga a criar menos do que estava acostumado.

As substituições de ambos os lados vieram por conta da paridade de forças e do gramado pesado. Ficou a clara sensação que o ABC está bem arrumado, defende-se muito bem, especialmente com o miolo de zaga e tem força na frente. Note-se ainda a compleição física do time do norte que tem atletas altos e encorpados - de passadas largas.  

Como historicamente acontece nos últimos 10 minutos o Ypiranga sabendo que jogava em seus domínios começou a compactar mais a equipe à frente, afinal, jogar em casa sempre pressupõe a busca pela vitória. E depois de uma sucessão de escanteios e forte pressão o Ypiranga conseguiu seu gol que parecia impossível. Eram 48 minutos. Era a vitória que muitas equipes "suarão sangue" para conquistar contra o bom ABC – mas o Ypiranga parecia ter alcançado o seu impossível.

E assim, quando todos já comemoravam os 3 pontos, uma bola perdida no meio campo, encontrou Iago do ABC, livre e um tanto longe da meta de Alexander. E, num chute quase lotérico, ele desferiu o que era para ser o arremate derradeiro antes do apito final. A bola entrou entre o goleiro Alexander e poste e estava decretado o empate, absolutamente surpreendente, porque o gol canarinho já tinha sido um achado.

Acabasse 0 a 0 e todos iriam para suas casas em busca do calor e estariam conformados, afinal o time fez uma boa partida contra uma boa equipe – e o goleiro e o sistema defensivo do adversário justificariam tudo que até então teria acontecido.

Mas – quando num jogo difícil, de muitos gols não perdidos, mas impedidos por uma muito boa atuação do goleiro adversário, se consegue quase um milagre – fazer o gol aos 48 minutos do 2 tempo num bonito cabeceio de Zé Victor; francamente aí faltou ao Ypiranga algo elementar no futebol: uns chamam de malandragem. Eu prefiro rotular de maturidade. Era hora de um jogador cair no gramado extenuado. Era hora de parar todo e qualquer lance. Era hora do tão lamentado desconforto que alguns atletas mundo afora sentem antes de partidas, durante ou depois, sentirem em qualquer lance e parar a partida. Era hora de não fazer cera, porque já nem havia mais tempo para isso. Era hora de esperar o árbitro apitar o fim da partida. Enfim – faltou maturidade. Tomara que o grupo de atletas do Ypiranga tenha aprendido a lição.

Na minha opinião o Ypiranga continua fazendo um campeonato com bons desempenhos. O técnico Thiago Carvalho revigorou o time que tem qualidades nos 11 que vão a campo e no banco de suplentes. Mas um grupo assim não pode esquecer que os grande times, geralmente, ganham não só por que são grandes - mas também por que sabem jogar o jogo. E o futebol é um jogo, especialmente, de erros. 

domingo, 23 de junho de 2024

Um mestre das relações humanas

Professor Nédio Piran e sua neta Luma. Foto: Arquivo de família

confessei várias vezes: quando entrei na primeira turma de Administração no Centro de Ensino Superior de Erechim (Cese/1972), não tinha a menor noção de onde estava me metendo. Começa que nem queria fazer vestibular. Fui porque os colegas frentistas do Posto Atlantic insistiram e até me levaram para a inscrição. Não sabia nada de contabilidade, de administração, de matemática. Fiz – passei. E logo vi que era um peixe fora d’água num mar de colegas já feitos na vida – gerentes, proprietários de empresas, administradores, funcionários do BB e por aí vai. Até que um dia, Jayme Lago, quase ordenou a Gílson Edy Carraro (ambos colegas daquela turma), que me levasse para A Voz da Serra. “Esse guri não é da área administrativa. Escreve bem – leva pro jornal”, disse. Na mesma semana estava no periódico.

Pois mesmo assim não deixou de ser uma experiência. Conheci pessoas novas com grande influência na cidade e professores universitários. Entre eles, um magrinho, mas extremamente conhecedor do que ministrava. Se não me engano era sobre Estudos de Problemas Brasileiros - algo a ver com geografia, economia, sociedade – geopolítica. Aquela era uma disciplina que eu gostava.

Depois de um ano e meio no Cese em 1972 eu desisti e me fui pelos caminhos do jornalismo em Porto Alegre onde fiz faculdade e lá trabalhei na empresa onde todos da área sonhavam: Companhia Jornalística Caldas Júnior, a grande CJCJ, proprietária do Correio do Povo (standart), Folha da Manhã, Folha da Tarde, Rádio Guaíba e depois – TV Guaíba. Foi uma senhora “faculdade na prática”. Antes passara pela redação da Rádio Difusora e Assembleia Legislativa.

Um dia, lá por 1981, voltei para Erechim.

E aqui, sempre na área jornalística cobrindo todas os editoriais, logo despertei meu gosto pela política.

E foi nesse novo normal de minha vida profissional que reencontrei aquele professor magrinho e de grandes conhecimentos na sua disciplina. Ele liderava então um pequeno grupo que tinha uma visão completamente diferente da que vigorava em Erechim na esfera política, na esfera da tomada de decisões sobre os rumos da cidade, na esfera da administração pública em especial – onde, então, uma boa parte dos seus ex-alunos e meus colegas lá de 1972 já “davam as cartas”.

Nédio Piran devia ter uns 33 a 34 anos é era quem liderava a organização e fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em Erechim. Não preciso nem dizer que eram vistos como estranhos no ninho de Campo Pequeno e até certo ponto, ignorados, pelos partidos políticos já estruturados há muito mais tempo como Arena/PDS, MDB/PMDB e PDT.

Observe-se que no combo político da fundação do PT em Erechim, o Nédio seguia sim a orientação petista vinda de São Paulo, mas por conhecer muito bem a realidade rural e social – sob sua liderança ao lado de outros nomes -, estavam também as preocupações com o homem da roça e todas suas circunstâncias, a criação e fundação de sindicatos de trabalhadores urbanos. Nesse período, cidade respirava novos ares com a implantação de um modelo que priorizava um olhar industrial.  

Nas eleições de 1982 o PT local resolveu que devia ter um candidato. E o nome lançado foi o de Nédio Piran que aceitou ser imolado eleitoralmente, mas que por outro lado, teve o mérito de estourar os grilhões político/eleitorais para seu partido. Conseguiu apenas 624 votos o que representava 2.09% dos votos válidos. O total de votantes foi de 27.990.

Não obstante, já também atuando cada vez mais presencialmente e gozando de respeito entre os seus politicamente afins, teve atuação na formação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Erechim, atuou nas origens da Comissão Regional de Atingidos por Barragens (Crab), hoje MAB – entidade que desde seus primórdios contou sempre com Luiz Dalla Costa entre outros. Fomentou a fundação de inúmeros sindicatos das mais diferentes áreas do trabalho – sem jamais tirar os olhos do homem da roça. Participou também das ações do 15º Núcleo do Cpers ao lado da grande Helena Bonorino. 

Ademais equilibrava-se entre mestrado e doutorado em São Paulo e dar aulas no embrião, 20 anos antes; da futura URI e depois na URI onde permaneceu até 2017. Entrementes, produzia obras que lhe exigiam muita pesquisa e destreza, inserindo a realidade política/econômica e social (rural e citadina) do Alto Uruguai no estado, como elemento essencial à mais ampla e melhor compreensão do complexo contexto da geopolítica, digamos, doméstico/regional.

Perdi as contas de quantas vezes fui no Diretório do PT. Como sempre me considerei alguém comprometido com os princípios da minha profissão, não fazia distinção entre os grandes e os pequenos e, isto, incluía partidos políticos. A sede do PT ficava numa casa de alvenaria, muito simples, na esquina da Argentina (ou seria Portugal) com a Aratiba. O que mais se via lá eram pôsteres colados nas paredes, de um cara barbudo, discursando em frente a grandes montadoras de veículos no ABC paulista. Seu nome - Lula. E o recém novo partido criado também em Erechim, reunia pessoas com ideias que eram a cara do líder barbudo.

Em 1988 o município contou 33.503 votos válidos para prefeito. Ele outra vez representou o PT e recebeu 4.483 votos, o que representava algo em torno de 13,5% dos votos válidos. Dentro da história do partido – um crescimento fantástico. Já estava a 1.760 votos do PDT.

Quatro anos depois, em 1992, com outro nome o PT teve uma recaída. Conseguiu 3.855 votos o que representou 10,26% dos votos válidos. Porém em 1996, conhecendo um novo normal, o PT decidiu coligar-se. Apareceu com Clodomiro Fioravante na condição de vice de Luiz Francisco Schmidt (PDT) e ajudou a somar os 15.674 votos que elegeram Schmidt prefeito. Ou seja, depois de sua primeira eleição e seus 624 votos; o PT do professor amealhava 35,44% dos votos e chegava ao poder da cidade onde nascera 14 anos antes. Depois disso todo mundo conhece a história.

Aos poucos fui sentindo o recuo presencial do Nédio daquilo que viria a ser uma espécie de  neoPT. Olhando para o panorama nacional (incluindo estado), o próprio em entrevista à jornalista Cristiane Rhoden da TV Câmara, disse que no seu entender, analisando o contexto geral do PT no país, pode ter faltado um pouco de experiência e que o partido cresceu rápido demais. Certamente, como um homem comedido, talvez forjado pelas suas pesquisas que exigem paciência, Nédio dava a entender que a base política poderia ter sido mais ampla e firme. Quem sabe, nas entrelinhas, quisesse exprimir um sentimento que nunca se deve depender cem por cento de um único nome – por mais expressivo que seja. Como disse - isto é apenas uma dedução minha. . Mas nada o fez, jamais, mudar sua visão crítica sobre a realidade local, regional e nacional e, muito menos, cogitar outro partido.

Hoje, aposentado, o professor passa o tempo todo em sua residência. Problemas de saúde têm limitado suas aparições em público, mas encontra-se muito lúcido, como sempre foi. Tem o conforto dos filhos e da família como um todo, incluindo sua ex-esposa e companheira a também grande professora Neide Piran (ex-vereadora), de seu filho Fernando e nora Melany (neta Lis Helena) e da filha Júlia e genro Mateus (neta Luma) e da filha Ana. Conforme apurei ele passa seu tempo assistindo noticiários e futebol pela |TV. Seu rádio à pilha continua permitindo seguir seu time do coração – o Ypiranga. Nédio passa um fim de semana em cada filho (a) quando a família toda se reúne. Seu estado de saúde, geral, é considerado estável. E o principal: com alguma limitação física, é um homem lúcido. 

Sinto fala daquele professor magrinho e que tanto conhecimento transmitia à uma espécie de “nata” econômica e da consciência sobre a cidade. Não foram poucos os embates entre alunos e professor sobre a realidade política brasileira – mas nunca presenciei nenhuma falta de respeito de parte a parte. Nem em sala de aula, nem nos embates políticos. Com Nédio Piran, até onde sei as diferenças jamais pularam a cerca nos campos das ideias conflitantes. Nunca abriu mãos das suas convicções políticas e sociais e nunca o vi proferindo impropérios a quem pensava diferente. Sem dúvida – um democrata. Dizia e ouvia. Ouvia e contrapunha. Diálogo, era um termo que, além de exercê-lo, usava-o em suas intervenções. Quantas vezes ouvi a palavra "diálogo" saindo da boca do Nédio em conversas sobre assuntos distintos.  

Sinto falta ao passar pelos corredores da URI e me deparar com o professor, hoje, ex-fumante contumaz, nos períodos de folga e seu sempre fidalgo cumprimento. Com o combate crescente ao fumo, era visível que às vezes o Nédio até se afastava de seus interlocutores – mesmo trocando falas, conversando, dialogando,

Sinto falta dele nas cadeiras do Colosso da Lagoa com seu rádio Phillips (acredito) colado ao ouvido. Torcedor fiel do Ypiranga. Gostava de vê-lo, no intervalo das partidas, acender seu Carlton e caminhar até uma área lateral, sem torcedores, na cadeiras do estádio.

Sinto falta de seu sorriso introspectivo, aquele de sábio, quando ouvia uma manifestação de ignorância fora de contexto despencando de uma boca qualquer – como se dali brotasse um profundo conhecimento, quando na verdade beirava uma aberração para alguém com os conhecimentos do professor. 

Evidente que o ensino superior de Erechim tem em Nédio Piran um dos nomes de grande conhecimento.

Evidente que os movimentos sociais rurais e urbanos de Erechim, e do Alto Urugai, tem em Nédio Piran um dos nomes da prateleira mais visível.

Evidente que o PT de Erechim tem em Nédio Piran um farol e um testemunho de seu próprio nascimento na cidade.

E é evidente, para quem observa a política com isenção, que no mundo político erechinense, ele ocupa um lugar de destaque entre os seus mais importantes nomes em 100 anos – independentemente de ideologia e convicções político/partidárias.

Nas minhas andanças, com seus tempos e contratempos que a vida do jornalista de princípios encontra em sua vida, sinto-me à vontade para externar que sempre tive neste homem o reconhecimento que jornalista também é uma profissão como tantas outras. 

E assim, eventualmente mesmo diante de perguntas e escritos que não lhe eram os mais desejados em determinado momento, jamais deixou de me tratar com respeito e dignidade, porquanto calmo, bom ouvinte, tranquilo e de contra-pontos serenos e inteligentes. Dignos de alguém com visão periférica permitindo a fluidez da conversação mesmo com interlocutores com pontos de vista antagônicos. 

Sem nenhuma dúvida - no meu entender um mestre das relações humanas sob quaisquer circunstâncias. Que ele possa continuar servindo como uma fonte de sabedoria e uma luz para quem deseja não só ver - mas enxergar e compreender as complexidades contemporâneas. 

Ademais observo, quase esquecendo, uma outra faceta da vida de quem, sem reivindicar, discutir ou pedir para quem quer se seja - se fez líder por suas próprias competências. E dentro deste contexto, contrariando a maioria dos que nesta posição conheci na cidade, cultivou até mesmo no seu auge, uma certa timidez em aparecer, em posar para fotografias. Só ia aos holofotes - quando rigorosa necessidade. Seu conceito de liderança não depende da luz externa - mas da sua própria iluminação. 


Nédio Piran, professor, pesquisador, escritor e político - mestre das relações humanas - não é só um professor de excelência, um visionário quanto à ocupação de espaços políticos e sociais na cidade onde nasceu no meio rural. É mais que isso. No conjunto de seu obra, aos 77 anos, é um patrimônio vivo desta cidade.  

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 14 de junho de 2024

Ermindo Silva - um apaixonado pela poesia

 

Ermindo Silva. Foto: Zeni Bearzi
Quando ingressei em “A Voz da Serra” na Maurício Cardoso em 1991, quase todas as semanas um senhor de baixa estatura entrava na redação. Educado pedia em português correto se podia deixar uma poesia para ser publicada. Essa rotina o levaria ao Diário da Manhã, Boa Vista e Bom Dia. Descobri depois que se tratava de “Seu Ermindo”, um amante da poesia.

Quando a Academia Erechinense de Letras (AEL) começou a reunir-se mensalmente nos fundos da Biblioteca Municipal o dono da cadeira nº 9, Ermindo Silva, quase nunca faltava. Uma noite fria e de cerração pedi como ele retornaria para casa. “Seu José - eu vou apanhar o ônibus ali na parada perto do Colégio José Bonifácio”. Puxa vida, pensei, vamos lá que lhe dou uma carona até sua casa.

Descemos a Sete de Setembro, passamos sob o viaduto de BR 153, na frente do CTG Galpão Campeiro até a baixada do Petit Vilage, quase na entrada do Progresso onde indicou sua moradia. Uma casa simples e rua de pouca iluminação na época. Mais que seus poemas, chamava-me a atenção a persistência. 

Sentindo o peso dos anos, ele foi tendo dificuldades para certos movimentos, como entrar e sair do carro e isso foi limitando suas aparições nas reuniões.

Nascido em 1930 em Cacique Doble, chegou a Erechim em 1970. Residiu um bom tempo no Progresso, no Pró-Morar e uns 35 anos no Petit Vilage. A filha Clarice afirma que o pai tem publicado ao menos um livro de poesias “Além do Horizonte”, e poemas nos jornais.

Assim que chegou a Erechim conseguiu um trabalho na prefeitura. E não foi nada fácil. Consistia em abrir valões pelas ruas da cidade e colocar tubulação para escoamento das águas e esgotos.  Picareta, pá e espátulas estavam entre suas ferramentas. 

Nos passeios que fizemos de carro, ele recordava: “seu José”, dizia, “naquele tempo não tinha as máquinas e ferramentas que tem hoje. Era tudo no braço, no muque; e a gente é que tinha que entrar lá embaixo e ajeitar os tubos. Nem me lembro quantos anos trabalhei nesse sistema. Um dia entrou um prefeito que me mandou embora. Decerto achou que eu não servia mais”, lembrou resignado.

No lançamento da 23ª Feira do Livro no Centro Cultural 25 de Julho, em 2022, atrás do palco, um funcionário do município de nome Antonio, saudou o colega e amigo Ermindo. Os dois recordaram dos tempos e das lidas difíceis. Uma obra que não está à vista. Talvez agora com o que acontece em Porto Alegre e cidades satélites – este tipo de serviço ganhe olhos e a devida valorização. A propósito, naquela feira ele foi o homenageado especial, enquanto que o professor Neivo Zago foi o patrono, ambos merecidos.

O amor deste homem pela poesia é tão grande, que depois do que me contou em um sábado à tarde quando andamos de carro cerca 1h30min pela cidade, fiquei pensando na justiça de ver seu nome na Academia Erechinense de Letras. Mas – avaliemos o que me impressionou no que me contou.

Buscando por mais espaço para divulgar seus poemas, este pequeno/grande homem, já com avançada idade saía aos sábados do bairro Petit Vilage de ônibus urbano logo após o meio dia. Descia na parada da esquina da URI e dirigia-se até a estação rodoviária. Pegava um ônibus até Gaurama de onde seguia para a rádio da cidade. 

A emissora tinha na época (ele não lembra o período), um programa que abria espaço para talentos amadores. E na rádio Gaurama o poeta declamava um poema ou dois. Depois voltava à rodoviária, esperava o ônibus, para chegar ao fim da tarde em Erechim. Na parada em frente ao câmpus da URI ele apanhava novo urbano, e voltava para casa. 

Como era sábado, os horários dos coletivos eram mais espaçados, mas nada abatia a vontade dele para divulgar seu trabalho. Imaginem as esperas. 

Hoje quando ouço reclamações sobre esperas de voos – penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço justificativas por não poder estar em reuniões, penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço sobre dificuldades para chegar a determinado lugar, penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço sobre falta de tempo – penso no “Seu Ermindo”. Até quando eu não posso ir a algum evento, penso no "Seu Ermindo".

Um dia, segundo ele contou, a rádio Gaurama parou com esse tipo de programa. Pois não é que ele descobriu então algo semelhante na rádio Salete de Marcelino Ramos, também aos sábados! 

E então suas “viagens” mais que dobraram de tempo. Sempre a mesma rotina – tudo para declamar e divulgar dois poemas, às vezes um. 

Ermindo Silva Foto: José Ody
Inacreditável. Emocionante! Fiquei pensando, quem, quem faria esse périplo todo, para declamar um poema – talvez dois! 
Além da homenagem da 23ª Feira do Livro, pedi se tinha recebido outra distinção, alguma titulação. Com o auxílio da filha gravou um áudio: “elas me deram um título... o título de poeta”. "Elas” - as poesias. 
Aos 93 anos reside com a filha e o genro no Atlântico. Ermindo Silva, mãos de abrir valões. Mãos de colocar e ajeitar tubos para escoar a água e o esgoto das casas e edifícios da cidade. Mãos de escrever poemas. Ermindo Silva - um apaixonado pela poesia.

 

 

 

 

 

terça-feira, 11 de junho de 2024

Ypiranga cria mas faz só 1 a 0

 

Alisson Tadei fez o único gol da vitória.
Crédito: Enoc Júnior

Quem viu Ypiranga e Figueirense (1 a 0 – Ypiranga), viu Ypiranga e Tombense nesta segunda-feira, 11/5 (1 a 0 – Ypiranga).

Não só pelo resultado, mas por todo o mais.

O Ypiranga voltou a fazer um bom primeiro tempo onde conseguiu seu gol numa bonita trama de contra-ataque e conclusão certeira de Alisson Tadei.

A Tombense, por sua vez, pareceu menos que o Figueirense e, isto possibilitou que os comandados por Thiago Carvalho, tivessem o controle da partida toda.

A surpresa do técnico, na ausência de Gedeílson, foi a improvisação do bom e versátil Jonathan Ribeiro, jogador de flanco avançado, atuando como ala direito. E deu certo. Provavelmente resultado de observação do adversário, Thiago também promoveu a entrada de Caio Mello que joga mais à frente que Lucas Marques (ambos tidos como segundos homens de meio campo) que também fez uma boa partida.

Criando muito e tendo a bola na maior parte da partida, o Ypiranga não correu sérios riscos. A lamentar apenas as chances criadas e não convertidas. E isto deve merecer do técnico Thiago Carvalho uma reflexão mais serena. A rigor nenhum dos camisa nove até agora com chances no comando do ataque tem convencido. Edson Cariús, que jogou ontem e Zé Vitor são atacantes de área com características diferentes – ambos têm mostrado presença mas lhes falta o gol.

Com o goleiro Alexander se afirmando, com o trio de zagueiros sendo pouco exigido graças também ao bom trabalho pelos lados do campo e, principalmente do coração do time – o meio campo; contra adversários mais qualificados o Ypiranga precisa encontrar uma forma de aproveitar as oportunidades que o time tem mostrado que pode criar. Porque resultados apertados, mesmo com o domínio das ações, permitem que até adversários mais limitados se alcem ao ataque na busca de um empate e isso, de certa forma, instala uma espécie de pânico com a bola rondando muito perto e várias vezes a meta do goleiro Alexander, nos minutos finais.

Claro que o Ypiranga não merecia outro resultado que não fosse a vitória, porque jogou para isso. Mas a verdade é que jogou para mais, bem mais e ver-se longe das investidas dos últimos 10 a 15 minutos. E como estamos falando de futebol – tudo pode acontecer e uma das regras é que nesse esporte -, não há justiça. Há resultado.

Cabe ao bom Thiago Carvalho, que “ressuscitou” o Ypiranga do Gauchão praticamente com os mesmos atletas, encontrar alguém (pode ser os que estão jogando), a completar com sucesso as inúmeras oportunidades criadas. Com 12 pontos o Ypiranga é o 6º na tabela, com dois jogos a menos que os dois primeiros colocados, e três menos, que os demais três melhor colocados.

O Ypiranga tem melhorado, e bastante, mas ainda tem faltado o principal no futebol - converter as chances quando elas aparecem. A razão é simples: os atacantes teoricamente mais responsáveis pelos gols, precisam não só convertê-los, mas, com eles - ganhar confiança. O meio campo encontrou uma formação e tem boas opções. Porém, no momento, o futebol do Colosso da Lagoa é para um único objetivo: lutar por uma vaga entre os oito. Depois - é uma outra competição. E sem estar entre os oito, nem adianta sonhar com essa outra competição. E pode ficar entre os oito? - Sim, pode. Tem jogado para tanto, tem grupo para isso e tem comando para isso.