sábado, 6 de julho de 2024

É uma questão de princípios com a memória


 

"Velho Borges"- completaria neste domingo - 102 anos
Foto: Arquivo/Divulgação

No período marcado como “Brasil o país do futebol”, houve uma época um pouco anterior onde o que não faltavam eram monstros sagrados neste esporte. Zizinho, Jair da Rosa Pinto, Leônidas da Silva, Heleno de Freitas, Ademir Menezes, Castilho, Canhoteiro... Eram os anos 1940/1950. Aí em fins de 1950 veio Pelé e, junto com ele, umas duas dezenas de jogadores fantásticos. O resto da história todo mundo conhece. Neste combo estão cinco títulos mundiais.

Aos poucos as grandes promessas foram atravessando o Atlântico, atraídas por fortunas que os clubes brasileiros não podiam pagar. Ademais – as ofertas eram irrecusáveis. Com o surgimento da figura do empresário de futebol, os atletas extra-classe entenderam melhor este cenário e a troca de continente passou a ser um processo natural.

Hoje em dia o Brasil tem uma seleção que fala vários idiomas, joga em gramados de primeiro mundo, reside em cidades de uma cultura talvez inacansável em termos de hábitos, etc., e vai daí uma espécie de descolamento, de divórcio entre as mais recentes seleções nacionais e a torcida brasileira.

A cidade de Erechim tem orgulho de inúmeras conquistas.

Está na história por um traçado que imita Paris e Washington, é visitada e estudada por caravanas de arquitetos para conhecer sua imensidade de propriedades "art deco", possui um Polo de Cultura entre os mais bonitos do país, afora seu Parque Florestal Longines Malinowski e seu prédio símbolo “Castelinho” – que anda pelas tabelas. Já houve inclusive tempo em que recebia visitantes para conhecer o estádio Olímpico Colosso da Lagoa que, na época da construção, vendeu-se a ideia que poderia receber toda a população da cidade. Isso nunca foi verdade, pois nem o estádio jamais teve essa capacidade e, quando da inauguração em 1970, a área urbana de Erechim concentrava 34 mil almas.

Mas voltando aos monstros sagrados do futebol dos anos 1940/1950, por mais incrível que pareça, Erechim teve o seu. Neste domingo, 7 de julho, domingo que já foi o dia do futebol - se vivo fosse e na memória de muitos ele permanece entre nós - Hermínio Carpegiani, o “Velho Borges” como tornou-se conhecido no meio do futebol estaria de aniversário. Faria 102 anos de idade. Fui “convocado” por um atlantista a não deixar cair no esquecimento esta data. 

escrevi alguns artigos sobre esta figura ímpar do futebol erechinense, então, este desafio é mais que um desafio. Preciso tirar "coelho de cartola" para não repetir o que já escrevi, mas enfim, também sou atlantista e, em homenagem ao meu pai que conheceu de perto o astro verde-rubro, sinto-me no dever e confortado. 

Sugeri uma homenagem ao extra-classe do nosso futebol raiz que veio ao mundo em Antonio Prado. Depois de muita conversação encontraram um lugar numa praça. Porém, receio pelo local, tanto que o memorial já teve de ser reconstruído. Onde está é bonito, mas corre riscos - pertinho da pracinha do Avião. 

Foram os olhos avançados de Plácido Dal Zot, conhecido como "Gorila", dirigente verde-rubro, que descobriram o atleta extra-classe. Considerando o que descobrira - seus olhos eram tão apurados e grandes como seus charutos. Hoje seria um descobridor de talentos à serviço de grandes clubes.

Foto: Arquivo Família

Em 1942 o empresário foi buscar o jovem Hermínio e o trouxe para o Atlântico. Oceanicamente diferente do que é o futebol de hoje – Hermínio Borges trabalhava de manhã na fábrica do “Seu Plácido" e, enquanto respirava a densa fumaça que saía do charutão do patrão,  montava camas de molas. Como compensação ganhava, nos primeiros tempos, licença para treinar à tarde no Atlântico, time do coração do senhor Dal Zot.

Ninguém sabe com exatidão o porquê do apelido  de “Velho Borges”, que, lenda ou realidade teria recebido de alguém quando fazia alguma arte ainda guri. “Olha que eu chamo o velho Borges”, ameaçava uma voz numa alusão, muito provavelmente ao governador da época. Mas sobre isso não se tem certeza. Alguém me disse, não lembro quem, que entre os atletas ele era chamado também de "Grilo". Não sei se procede.

No Clube Esportivo e Recreativo Atlântico (CER Atlântico) que desde seu nascimento em 1915 até hoje sempre teve uma identidade cooperativa, social e esportiva, por que não, futebolística, o “fazedor de camas de molas”, foi campeão de Erechim de 1942, 43, 44, 46, 47, 48, 54, 55, 56 e 1957. Conquistou os regionais de 1942, 1948, 1954 e 1958. Foi vice-campeão estadual de 1948 e 1954.




Paulo César, "Velho Borges", Celso Borjão e Édson
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Foto:José Adelar Ody

Nos 16 anos jogando futebol (1942 - 1958) jamais vestiu outra camisa que não a do Atlântico. Teria seguido de ônibus certa feita a pedido do Grêmio para fazer teste, mas não se fardou. Aliás, segundo Arioli, "ele nem saiu da rodoviária". Pegou outro ônibus e voltou a Erechim, para sua família, para sua casa, para seu único clube.

Casado com a senhora Leda Lacy teve quatro filhos: Celso (Borjão), Paulo César (Carpegiani), Tânia e Edson. Os dois mais velhos seguiram o pai no futebol. Paulo César, no meu entender, tornou-se o maior jogador da história do Internacional desde 1909. Borjão atuou em grandes clubes, fez os dois primeiros gols do Ypiranga no Colosso da Lagoa, até uma lesão no joelho tirá-lo do futebol profissional. Ao lado do irmão foi destaque no futsal também. Da Tânia recordo que fomos colegas no ginásio e ensino médio no Mantovani. Com Édson não convivi.

O aniversariante deste 7 de julho - falecido em 2007, deixou um legado que não sei se o próprio clube Atlântico sabe: além dos inúmeros títulos, jogou 65 clássicos Atlanga. Empatou 12, perdeu 19 e ganhou 34. Fez 31 gols em Atlangas. 


foto: Arquivo pessoal.

Num especial feito para homenagear o “Velho Borges”, chegaram a compará-lo a um dos maiores do mundo, o que sem dúvida foi um exagero, mas ouvindo dezenas de pessoas ligadas ao futebol dos anos 1940 e 1950, que frequentavam treinos e não perdiam jogos – extraí uma certeza que deveria honrar a direção verde-rubra. A verdade surpreendente que colhi nas pesquisas é que segundo atlantistas e todos os ypirangusitas consultados, todos consideraram que Hermínio Carpegiani, foi o maior jogador de futebol a correr pelos gramados erechinenses. E isto, no contexto de uma rivalidade espelhada como se Grenal local fosse, diz mais que tudo.


"Velho Borges" e "Sabiá". Dois craques. Jogaram no Atlântico e depois foram adversários na dupla. Foto: Arquivo/Divulgação

No dia 20 de julho de 1947, no estádio da Montanha, o Atlântico aplicou uma goleada no seu maior rival: 4 a 1. Segundo crônica de “A Voz da Serra” aos 15 minutos o árbitro recusou-se a continuar apitando. Os cronometristas também entregaram o apito, todos descontentes com o policiamento. A arbitragem foi assumida pelo desportista de nome Porto Alegre. A crônica do jornal não dá detalhes sobre as razões do inusitado episódio.

O Atlântico jogou com: Tagliari; Izabelino e Bosio; Rico, Chittolina e Vicente; João, Mozart, Borges, Teffili e Doravante.

O Ypiranga teve: Barbieri; Guaporé e Borges; Tedesco, Amélio e Nardo; Wilson, Sgarabotto, Helly, Plinio e Nanico.

Sgarabotto fez o gol do Ypíranga.

“O velho Borges” fez os quatro do Atlântico.

Clássico que mexia com clubes, atletas, dirigentes, famílias, nas 

fábricas, no comércio, nos bares, nas ruas, na imprensa.

E acaba em goleada.

E o mesmo jogador faz todos os gols do time vencedor.

Isto faz 77 anos - e ainda está na memória.

Nos anais do futebol erechinense.

Na história.

O "Velho Borges" liquidara com o rival.

Que feito.

Que semana.

Que coisa para contar aos filhos, aos netos, aos bisnetos...



Foto: Arquivo/divulgação

Tenho outras passagens do “Velho Borges” pelo Atlântico, que ficaram na história, mas já contei algumas. Ressalto a seleção do eterno presidente gremista, Fábio André Koff, que trabalhou nos dois clubes de Erechim antes de seguir para Porto Alegre. Na sua seleção, cinco atletas do Ypiranga e cinco do Atlântico, mas com um detalhe do próprio Koff: “o Velho Borges”, centroavante: “o melhor de todos”. Faltou um? Sim - Paulo César Carpegiani, que jogou nas categorias de base dos dois grandes de Erechim na época.

Milton Arioli, jogou com o "Velho Borges.
Foto: José Adelar Ody

Um dia, no escritório do senhor Milton Arioli, ele que ajudou na confecção do livro dos Atlangas me disse: “Ody – num Atlanga o jogo estava difícil para nós (Atlântico). Campo pesado, chuteira pesada, bola pesada, etc., e de repente uma falta para nós. Tu viu o Noronha bater falta? Sempre encobrindo a barreira e a bola caindo dentro do gol? Pois é. O “Velho” pegou a bola de couro e bateu igual. Ela subiu e desceu dentro do gol sem chances para o goleiro. Mais adiante outra falta. Lá foi de novo o “Velho”. Pegou a bola, não tirou muita distância e deu uma bomba, mas uma bomba - que o goleiro até hoje não sabe por onde ela entrou”.

Ainda no dizer de Fábio Koff. Mas o que o “Velho Borges” tinha de tão diferente?“Tudo que se pode exigir de um jogador. Espírito combativo, era técnico, chutava com os dois pés, cabeceava muito bem, enfim, era um jogador de exceção”. E Arioli completa: "Ele armava, concluía, jogava em várias posições - comandava o time". 


"Velho Borges", Sabiá e Paulo César Carpegiani
Crédito: Arquivo/divulgação

Assim como todos os monstros sagrados do futebol passaram e deixaram suas marcas e história – alguns injustiçados e não reconhecidos como mereciam -, os nossos também passaram. Seus feitos, não obstante, permanecem.

A raiz do CER Atlântico que remonta a 1915, portanto há quase 110 anos, jamais abdicou da sua bandeira, do seu nome, das suas cores, do seu hino, enfim, jamais omitiu as razões, os feitos e os ideais de seus pioneiros na sua maioria – italianos. Reconsiderar, na maioria das vezes constitui um ato de grandeza que por sua vez também passa a ser incorporado à história de uma instituição, de uma pessoa ou de um clube.

A guinada que o CER Atlântico deu em 1977 ao fechar seu departamento de futebol profissional não obscurece e muito menos apaga seu passado de glórias. Os feitos grandiosos alcançados sob os mesmos princípios que deram origem a este clube, hoje orgulho de Erechim no futsal, só engrandecem sua própria história e quem a planeja e constrói.


                      Baixada Rubra demolida em 1991. 
                                Foto: Arquivo/Divulgação
                                                 
A revolução francesa conseguiu ser apagada?

A guerra civil americana conseguiu ser esquecida?

Alguém não reverencia Pelé como o maior de todos os tempos?

Por que Renato Portaluppi tem uma estátua no Grêmio?

Por que Romário tem uma no estádio do Vasco da Gama?

Por que Fernandão tem a sua estátua no Beira Rio?

Zico tem várias no Flamengo e uma no Museu do Rio de Janeiro.

Quantas dezenas de ex-atletas, que foram expressões máximas 

receberam reconhecimento por seus clubes?

Alguns, quem sabe até cabendo discussão, mas foram reconhecidos.

Outros por méritos indiscutíveis.

Alguns dos feitos citados foram reescritos, foram aprofundados em 

análises e conclusões, mas na essência eles permaneceram tal qual 

ocorreram, porque esta era a sua verdade mais próxima da 

realidade.


Não é preciso negar nenhuma passagem de sua história.

Nada apagará, nem ofuscará, as conquistas nas modalidades 

optadas pelo clube.

Seu futsal reconhecido nacional e internacionalmente permanecerá 

com suas taças no armário, suas glórias públicas, assim como 

continuará sua missão de tornar-se protagonista sempre 

procurando escala ascendente.

De outra sorte, atos e ações que visam melhorar a instituição, ajustar algum desajuste histórico em complemento à sua mais completa verdade, inclusive se necessário for, mudar o que escrito está como se uma constituição interna fosse, sempre em observância à sua concepção e missão enquanto vida - só engrandece seus autores. 

Fazem-nos maiores. Deixam-os com a consciência plenamente em paz consigo mesmos olhando para o passado, respirando tranquilo o presente e vislumbrando um futuro que a outros caberá levar adiante honrando o legado recebido.

Enfim, é tudo uma questão de princípios com a memória..

Julio Cezar Brondani - Presidente do CER Atlântico.
Foto: Arquivo/Divulgação

Quando penso naqueles que tiveram a ideia de fundar um clube quase associativo/cooperativo, depois social e que logo também esportivo com a pratica do futebol, no seu nome, na bandeira, na sua torcida, no seu nome, nos princípios que lhe deram vida ativa nestes 106 anos na cidade – na minha concepção ao colocar no seu espaço geográfico, na sua casa esportiva, uma tangível lembrança em homenagem à sua maior expressão futebolística – Hermínio Carpegiani, “o Velho Borges” -, o maior jogador de futebol de campo profissional do CER Atlântico e de Erechim, 

me vem à mente uma passagem que está em seu próprio, lindo, irretocável e eterno hino. 




Portanto, 

“... honremos nossa tradição!”


 

 

 

 

 

sábado, 29 de junho de 2024

Era hora da maturidade

 

Que nessas horas também seja lembrado que é preciso saber jogar o jogo
Crédito: Enoc Junior. 


Se o jogo tivesse acabado 0 a 0 na tarde/noite deste sábado gelado de 6 graus (29//24) no Colosso da Lagoa entre Ypiranga e ABC o torcedor sairia conformado. Afinal o time criou ótimas oportunidades na primeira etapa, mas parou nas boas e oportunas defesas do bom goleiro do ABC, Pedro Paulo. Ademais – o sistema defensivo do time do Rio Grande do Norte do país fazia uma boa partida, fechava espaços e se comportava de uma maneira que desde o início se percebeu que não seria fácil para o onze de Thiago Carvalho.

Sem ser ameaçado, o Canarinho voltou para o 2º tempo, mas não conseguiu repetir a intensidade do primeiro. Amarildo pela esquerda estava cansando,  Gedeílson sentiu uma lesão e o ABC equilibrou as ações. Isso levou o Ypiranga a criar menos do que estava acostumado.

As substituições de ambos os lados vieram por conta da paridade de forças e do gramado pesado. Ficou a clara sensação que o ABC está bem arrumado, defende-se muito bem, especialmente com o miolo de zaga e tem força na frente. Note-se ainda a compleição física do time do norte que tem atletas altos e encorpados - de passadas largas.  

Como historicamente acontece nos últimos 10 minutos o Ypiranga sabendo que jogava em seus domínios começou a compactar mais a equipe à frente, afinal, jogar em casa sempre pressupõe a busca pela vitória. E depois de uma sucessão de escanteios e forte pressão o Ypiranga conseguiu seu gol que parecia impossível. Eram 48 minutos. Era a vitória que muitas equipes "suarão sangue" para conquistar contra o bom ABC – mas o Ypiranga parecia ter alcançado o seu impossível.

E assim, quando todos já comemoravam os 3 pontos, uma bola perdida no meio campo, encontrou Iago do ABC, livre e um tanto longe da meta de Alexander. E, num chute quase lotérico, ele desferiu o que era para ser o arremate derradeiro antes do apito final. A bola entrou entre o goleiro Alexander e poste e estava decretado o empate, absolutamente surpreendente, porque o gol canarinho já tinha sido um achado.

Acabasse 0 a 0 e todos iriam para suas casas em busca do calor e estariam conformados, afinal o time fez uma boa partida contra uma boa equipe – e o goleiro e o sistema defensivo do adversário justificariam tudo que até então teria acontecido.

Mas – quando num jogo difícil, de muitos gols não perdidos, mas impedidos por uma muito boa atuação do goleiro adversário, se consegue quase um milagre – fazer o gol aos 48 minutos do 2 tempo num bonito cabeceio de Zé Victor; francamente aí faltou ao Ypiranga algo elementar no futebol: uns chamam de malandragem. Eu prefiro rotular de maturidade. Era hora de um jogador cair no gramado extenuado. Era hora de parar todo e qualquer lance. Era hora do tão lamentado desconforto que alguns atletas mundo afora sentem antes de partidas, durante ou depois, sentirem em qualquer lance e parar a partida. Era hora de não fazer cera, porque já nem havia mais tempo para isso. Era hora de esperar o árbitro apitar o fim da partida. Enfim – faltou maturidade. Tomara que o grupo de atletas do Ypiranga tenha aprendido a lição.

Na minha opinião o Ypiranga continua fazendo um campeonato com bons desempenhos. O técnico Thiago Carvalho revigorou o time que tem qualidades nos 11 que vão a campo e no banco de suplentes. Mas um grupo assim não pode esquecer que os grande times, geralmente, ganham não só por que são grandes - mas também por que sabem jogar o jogo. E o futebol é um jogo, especialmente, de erros. 

domingo, 23 de junho de 2024

Um mestre das relações humanas

Professor Nédio Piran e sua neta Luma. Foto: Arquivo de família

confessei várias vezes: quando entrei na primeira turma de Administração no Centro de Ensino Superior de Erechim (Cese/1972), não tinha a menor noção de onde estava me metendo. Começa que nem queria fazer vestibular. Fui porque os colegas frentistas do Posto Atlantic insistiram e até me levaram para a inscrição. Não sabia nada de contabilidade, de administração, de matemática. Fiz – passei. E logo vi que era um peixe fora d’água num mar de colegas já feitos na vida – gerentes, proprietários de empresas, administradores, funcionários do BB e por aí vai. Até que um dia, Jayme Lago, quase ordenou a Gílson Edy Carraro (ambos colegas daquela turma), que me levasse para A Voz da Serra. “Esse guri não é da área administrativa. Escreve bem – leva pro jornal”, disse. Na mesma semana estava no periódico.

Pois mesmo assim não deixou de ser uma experiência. Conheci pessoas novas com grande influência na cidade e professores universitários. Entre eles, um magrinho, mas extremamente conhecedor do que ministrava. Se não me engano era sobre Estudos de Problemas Brasileiros - algo a ver com geografia, economia, sociedade – geopolítica. Aquela era uma disciplina que eu gostava.

Depois de um ano e meio no Cese em 1972 eu desisti e me fui pelos caminhos do jornalismo em Porto Alegre onde fiz faculdade e lá trabalhei na empresa onde todos da área sonhavam: Companhia Jornalística Caldas Júnior, a grande CJCJ, proprietária do Correio do Povo (standart), Folha da Manhã, Folha da Tarde, Rádio Guaíba e depois – TV Guaíba. Foi uma senhora “faculdade na prática”. Antes passara pela redação da Rádio Difusora e Assembleia Legislativa.

Um dia, lá por 1981, voltei para Erechim.

E aqui, sempre na área jornalística cobrindo todas os editoriais, logo despertei meu gosto pela política.

E foi nesse novo normal de minha vida profissional que reencontrei aquele professor magrinho e de grandes conhecimentos na sua disciplina. Ele liderava então um pequeno grupo que tinha uma visão completamente diferente da que vigorava em Erechim na esfera política, na esfera da tomada de decisões sobre os rumos da cidade, na esfera da administração pública em especial – onde, então, uma boa parte dos seus ex-alunos e meus colegas lá de 1972 já “davam as cartas”.

Nédio Piran devia ter uns 33 a 34 anos é era quem liderava a organização e fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em Erechim. Não preciso nem dizer que eram vistos como estranhos no ninho de Campo Pequeno e até certo ponto, ignorados, pelos partidos políticos já estruturados há muito mais tempo como Arena/PDS, MDB/PMDB e PDT.

Observe-se que no combo político da fundação do PT em Erechim, o Nédio seguia sim a orientação petista vinda de São Paulo, mas por conhecer muito bem a realidade rural e social – sob sua liderança ao lado de outros nomes -, estavam também as preocupações com o homem da roça e todas suas circunstâncias, a criação e fundação de sindicatos de trabalhadores urbanos. Nesse período, cidade respirava novos ares com a implantação de um modelo que priorizava um olhar industrial.  

Nas eleições de 1982 o PT local resolveu que devia ter um candidato. E o nome lançado foi o de Nédio Piran que aceitou ser imolado eleitoralmente, mas que por outro lado, teve o mérito de estourar os grilhões político/eleitorais para seu partido. Conseguiu apenas 624 votos o que representava 2.09% dos votos válidos. O total de votantes foi de 27.990.

Não obstante, já também atuando cada vez mais presencialmente e gozando de respeito entre os seus politicamente afins, teve atuação na formação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Erechim, atuou nas origens da Comissão Regional de Atingidos por Barragens (Crab), hoje MAB – entidade que desde seus primórdios contou sempre com Luiz Dalla Costa entre outros. Fomentou a fundação de inúmeros sindicatos das mais diferentes áreas do trabalho – sem jamais tirar os olhos do homem da roça. Participou também das ações do 15º Núcleo do Cpers ao lado da grande Helena Bonorino. 

Ademais equilibrava-se entre mestrado e doutorado em São Paulo e dar aulas no embrião, 20 anos antes; da futura URI e depois na URI onde permaneceu até 2017. Entrementes, produzia obras que lhe exigiam muita pesquisa e destreza, inserindo a realidade política/econômica e social (rural e citadina) do Alto Uruguai no estado, como elemento essencial à mais ampla e melhor compreensão do complexo contexto da geopolítica, digamos, doméstico/regional.

Perdi as contas de quantas vezes fui no Diretório do PT. Como sempre me considerei alguém comprometido com os princípios da minha profissão, não fazia distinção entre os grandes e os pequenos e, isto, incluía partidos políticos. A sede do PT ficava numa casa de alvenaria, muito simples, na esquina da Argentina (ou seria Portugal) com a Aratiba. O que mais se via lá eram pôsteres colados nas paredes, de um cara barbudo, discursando em frente a grandes montadoras de veículos no ABC paulista. Seu nome - Lula. E o recém novo partido criado também em Erechim, reunia pessoas com ideias que eram a cara do líder barbudo.

Em 1988 o município contou 33.503 votos válidos para prefeito. Ele outra vez representou o PT e recebeu 4.483 votos, o que representava algo em torno de 13,5% dos votos válidos. Dentro da história do partido – um crescimento fantástico. Já estava a 1.760 votos do PDT.

Quatro anos depois, em 1992, com outro nome o PT teve uma recaída. Conseguiu 3.855 votos o que representou 10,26% dos votos válidos. Porém em 1996, conhecendo um novo normal, o PT decidiu coligar-se. Apareceu com Clodomiro Fioravante na condição de vice de Luiz Francisco Schmidt (PDT) e ajudou a somar os 15.674 votos que elegeram Schmidt prefeito. Ou seja, depois de sua primeira eleição e seus 624 votos; o PT do professor amealhava 35,44% dos votos e chegava ao poder da cidade onde nascera 14 anos antes. Depois disso todo mundo conhece a história.

Aos poucos fui sentindo o recuo presencial do Nédio daquilo que viria a ser uma espécie de  neoPT. Olhando para o panorama nacional (incluindo estado), o próprio em entrevista à jornalista Cristiane Rhoden da TV Câmara, disse que no seu entender, analisando o contexto geral do PT no país, pode ter faltado um pouco de experiência e que o partido cresceu rápido demais. Certamente, como um homem comedido, talvez forjado pelas suas pesquisas que exigem paciência, Nédio dava a entender que a base política poderia ter sido mais ampla e firme. Quem sabe, nas entrelinhas, quisesse exprimir um sentimento que nunca se deve depender cem por cento de um único nome – por mais expressivo que seja. Como disse - isto é apenas uma dedução minha. . Mas nada o fez, jamais, mudar sua visão crítica sobre a realidade local, regional e nacional e, muito menos, cogitar outro partido.

Hoje, aposentado, o professor passa o tempo todo em sua residência. Problemas de saúde têm limitado suas aparições em público, mas encontra-se muito lúcido, como sempre foi. Tem o conforto dos filhos e da família como um todo, incluindo sua ex-esposa e companheira a também grande professora Neide Piran (ex-vereadora), de seu filho Fernando e nora Melany (neta Lis Helena) e da filha Júlia e genro Mateus (neta Luma) e da filha Ana. Conforme apurei ele passa seu tempo assistindo noticiários e futebol pela |TV. Seu rádio à pilha continua permitindo seguir seu time do coração – o Ypiranga. Nédio passa um fim de semana em cada filho (a) quando a família toda se reúne. Seu estado de saúde, geral, é considerado estável. E o principal: com alguma limitação física, é um homem lúcido. 

Sinto fala daquele professor magrinho e que tanto conhecimento transmitia à uma espécie de “nata” econômica e da consciência sobre a cidade. Não foram poucos os embates entre alunos e professor sobre a realidade política brasileira – mas nunca presenciei nenhuma falta de respeito de parte a parte. Nem em sala de aula, nem nos embates políticos. Com Nédio Piran, até onde sei as diferenças jamais pularam a cerca nos campos das ideias conflitantes. Nunca abriu mãos das suas convicções políticas e sociais e nunca o vi proferindo impropérios a quem pensava diferente. Sem dúvida – um democrata. Dizia e ouvia. Ouvia e contrapunha. Diálogo, era um termo que, além de exercê-lo, usava-o em suas intervenções. Quantas vezes ouvi a palavra "diálogo" saindo da boca do Nédio em conversas sobre assuntos distintos.  

Sinto falta ao passar pelos corredores da URI e me deparar com o professor, hoje, ex-fumante contumaz, nos períodos de folga e seu sempre fidalgo cumprimento. Com o combate crescente ao fumo, era visível que às vezes o Nédio até se afastava de seus interlocutores – mesmo trocando falas, conversando, dialogando,

Sinto falta dele nas cadeiras do Colosso da Lagoa com seu rádio Phillips (acredito) colado ao ouvido. Torcedor fiel do Ypiranga. Gostava de vê-lo, no intervalo das partidas, acender seu Carlton e caminhar até uma área lateral, sem torcedores, na cadeiras do estádio.

Sinto falta de seu sorriso introspectivo, aquele de sábio, quando ouvia uma manifestação de ignorância fora de contexto despencando de uma boca qualquer – como se dali brotasse um profundo conhecimento, quando na verdade beirava uma aberração para alguém com os conhecimentos do professor. 

Evidente que o ensino superior de Erechim tem em Nédio Piran um dos nomes de grande conhecimento.

Evidente que os movimentos sociais rurais e urbanos de Erechim, e do Alto Urugai, tem em Nédio Piran um dos nomes da prateleira mais visível.

Evidente que o PT de Erechim tem em Nédio Piran um farol e um testemunho de seu próprio nascimento na cidade.

E é evidente, para quem observa a política com isenção, que no mundo político erechinense, ele ocupa um lugar de destaque entre os seus mais importantes nomes em 100 anos – independentemente de ideologia e convicções político/partidárias.

Nas minhas andanças, com seus tempos e contratempos que a vida do jornalista de princípios encontra em sua vida, sinto-me à vontade para externar que sempre tive neste homem o reconhecimento que jornalista também é uma profissão como tantas outras. 

E assim, eventualmente mesmo diante de perguntas e escritos que não lhe eram os mais desejados em determinado momento, jamais deixou de me tratar com respeito e dignidade, porquanto calmo, bom ouvinte, tranquilo e de contra-pontos serenos e inteligentes. Dignos de alguém com visão periférica permitindo a fluidez da conversação mesmo com interlocutores com pontos de vista antagônicos. 

Sem nenhuma dúvida - no meu entender um mestre das relações humanas sob quaisquer circunstâncias. Que ele possa continuar servindo como uma fonte de sabedoria e uma luz para quem deseja não só ver - mas enxergar e compreender as complexidades contemporâneas. 

Ademais observo, quase esquecendo, uma outra faceta da vida de quem, sem reivindicar, discutir ou pedir para quem quer se seja - se fez líder por suas próprias competências. E dentro deste contexto, contrariando a maioria dos que nesta posição conheci na cidade, cultivou até mesmo no seu auge, uma certa timidez em aparecer, em posar para fotografias. Só ia aos holofotes - quando rigorosa necessidade. Seu conceito de liderança não depende da luz externa - mas da sua própria iluminação. 


Nédio Piran, professor, pesquisador, escritor e político - mestre das relações humanas - não é só um professor de excelência, um visionário quanto à ocupação de espaços políticos e sociais na cidade onde nasceu no meio rural. É mais que isso. No conjunto de seu obra, aos 77 anos, é um patrimônio vivo desta cidade.  

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 14 de junho de 2024

Ermindo Silva - um apaixonado pela poesia

 

Ermindo Silva. Foto: Zeni Bearzi
Quando ingressei em “A Voz da Serra” na Maurício Cardoso em 1991, quase todas as semanas um senhor de baixa estatura entrava na redação. Educado pedia em português correto se podia deixar uma poesia para ser publicada. Essa rotina o levaria ao Diário da Manhã, Boa Vista e Bom Dia. Descobri depois que se tratava de “Seu Ermindo”, um amante da poesia.

Quando a Academia Erechinense de Letras (AEL) começou a reunir-se mensalmente nos fundos da Biblioteca Municipal o dono da cadeira nº 9, Ermindo Silva, quase nunca faltava. Uma noite fria e de cerração pedi como ele retornaria para casa. “Seu José - eu vou apanhar o ônibus ali na parada perto do Colégio José Bonifácio”. Puxa vida, pensei, vamos lá que lhe dou uma carona até sua casa.

Descemos a Sete de Setembro, passamos sob o viaduto de BR 153, na frente do CTG Galpão Campeiro até a baixada do Petit Vilage, quase na entrada do Progresso onde indicou sua moradia. Uma casa simples e rua de pouca iluminação na época. Mais que seus poemas, chamava-me a atenção a persistência. 

Sentindo o peso dos anos, ele foi tendo dificuldades para certos movimentos, como entrar e sair do carro e isso foi limitando suas aparições nas reuniões.

Nascido em 1930 em Cacique Doble, chegou a Erechim em 1970. Residiu um bom tempo no Progresso, no Pró-Morar e uns 35 anos no Petit Vilage. A filha Clarice afirma que o pai tem publicado ao menos um livro de poesias “Além do Horizonte”, e poemas nos jornais.

Assim que chegou a Erechim conseguiu um trabalho na prefeitura. E não foi nada fácil. Consistia em abrir valões pelas ruas da cidade e colocar tubulação para escoamento das águas e esgotos.  Picareta, pá e espátulas estavam entre suas ferramentas. 

Nos passeios que fizemos de carro, ele recordava: “seu José”, dizia, “naquele tempo não tinha as máquinas e ferramentas que tem hoje. Era tudo no braço, no muque; e a gente é que tinha que entrar lá embaixo e ajeitar os tubos. Nem me lembro quantos anos trabalhei nesse sistema. Um dia entrou um prefeito que me mandou embora. Decerto achou que eu não servia mais”, lembrou resignado.

No lançamento da 23ª Feira do Livro no Centro Cultural 25 de Julho, em 2022, atrás do palco, um funcionário do município de nome Antonio, saudou o colega e amigo Ermindo. Os dois recordaram dos tempos e das lidas difíceis. Uma obra que não está à vista. Talvez agora com o que acontece em Porto Alegre e cidades satélites – este tipo de serviço ganhe olhos e a devida valorização. A propósito, naquela feira ele foi o homenageado especial, enquanto que o professor Neivo Zago foi o patrono, ambos merecidos.

O amor deste homem pela poesia é tão grande, que depois do que me contou em um sábado à tarde quando andamos de carro cerca 1h30min pela cidade, fiquei pensando na justiça de ver seu nome na Academia Erechinense de Letras. Mas – avaliemos o que me impressionou no que me contou.

Buscando por mais espaço para divulgar seus poemas, este pequeno/grande homem, já com avançada idade saía aos sábados do bairro Petit Vilage de ônibus urbano logo após o meio dia. Descia na parada da esquina da URI e dirigia-se até a estação rodoviária. Pegava um ônibus até Gaurama de onde seguia para a rádio da cidade. 

A emissora tinha na época (ele não lembra o período), um programa que abria espaço para talentos amadores. E na rádio Gaurama o poeta declamava um poema ou dois. Depois voltava à rodoviária, esperava o ônibus, para chegar ao fim da tarde em Erechim. Na parada em frente ao câmpus da URI ele apanhava novo urbano, e voltava para casa. 

Como era sábado, os horários dos coletivos eram mais espaçados, mas nada abatia a vontade dele para divulgar seu trabalho. Imaginem as esperas. 

Hoje quando ouço reclamações sobre esperas de voos – penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço justificativas por não poder estar em reuniões, penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço sobre dificuldades para chegar a determinado lugar, penso no “Seu Ermindo”. Hoje quando ouço sobre falta de tempo – penso no “Seu Ermindo”. Até quando eu não posso ir a algum evento, penso no "Seu Ermindo".

Um dia, segundo ele contou, a rádio Gaurama parou com esse tipo de programa. Pois não é que ele descobriu então algo semelhante na rádio Salete de Marcelino Ramos, também aos sábados! 

E então suas “viagens” mais que dobraram de tempo. Sempre a mesma rotina – tudo para declamar e divulgar dois poemas, às vezes um. 

Ermindo Silva Foto: José Ody
Inacreditável. Emocionante! Fiquei pensando, quem, quem faria esse périplo todo, para declamar um poema – talvez dois! 
Além da homenagem da 23ª Feira do Livro, pedi se tinha recebido outra distinção, alguma titulação. Com o auxílio da filha gravou um áudio: “elas me deram um título... o título de poeta”. "Elas” - as poesias. 
Aos 93 anos reside com a filha e o genro no Atlântico. Ermindo Silva, mãos de abrir valões. Mãos de colocar e ajeitar tubos para escoar a água e o esgoto das casas e edifícios da cidade. Mãos de escrever poemas. Ermindo Silva - um apaixonado pela poesia.

 

 

 

 

 

terça-feira, 11 de junho de 2024

Ypiranga cria mas faz só 1 a 0

 

Alisson Tadei fez o único gol da vitória.
Crédito: Enoc Júnior

Quem viu Ypiranga e Figueirense (1 a 0 – Ypiranga), viu Ypiranga e Tombense nesta segunda-feira, 11/5 (1 a 0 – Ypiranga).

Não só pelo resultado, mas por todo o mais.

O Ypiranga voltou a fazer um bom primeiro tempo onde conseguiu seu gol numa bonita trama de contra-ataque e conclusão certeira de Alisson Tadei.

A Tombense, por sua vez, pareceu menos que o Figueirense e, isto possibilitou que os comandados por Thiago Carvalho, tivessem o controle da partida toda.

A surpresa do técnico, na ausência de Gedeílson, foi a improvisação do bom e versátil Jonathan Ribeiro, jogador de flanco avançado, atuando como ala direito. E deu certo. Provavelmente resultado de observação do adversário, Thiago também promoveu a entrada de Caio Mello que joga mais à frente que Lucas Marques (ambos tidos como segundos homens de meio campo) que também fez uma boa partida.

Criando muito e tendo a bola na maior parte da partida, o Ypiranga não correu sérios riscos. A lamentar apenas as chances criadas e não convertidas. E isto deve merecer do técnico Thiago Carvalho uma reflexão mais serena. A rigor nenhum dos camisa nove até agora com chances no comando do ataque tem convencido. Edson Cariús, que jogou ontem e Zé Vitor são atacantes de área com características diferentes – ambos têm mostrado presença mas lhes falta o gol.

Com o goleiro Alexander se afirmando, com o trio de zagueiros sendo pouco exigido graças também ao bom trabalho pelos lados do campo e, principalmente do coração do time – o meio campo; contra adversários mais qualificados o Ypiranga precisa encontrar uma forma de aproveitar as oportunidades que o time tem mostrado que pode criar. Porque resultados apertados, mesmo com o domínio das ações, permitem que até adversários mais limitados se alcem ao ataque na busca de um empate e isso, de certa forma, instala uma espécie de pânico com a bola rondando muito perto e várias vezes a meta do goleiro Alexander, nos minutos finais.

Claro que o Ypiranga não merecia outro resultado que não fosse a vitória, porque jogou para isso. Mas a verdade é que jogou para mais, bem mais e ver-se longe das investidas dos últimos 10 a 15 minutos. E como estamos falando de futebol – tudo pode acontecer e uma das regras é que nesse esporte -, não há justiça. Há resultado.

Cabe ao bom Thiago Carvalho, que “ressuscitou” o Ypiranga do Gauchão praticamente com os mesmos atletas, encontrar alguém (pode ser os que estão jogando), a completar com sucesso as inúmeras oportunidades criadas. Com 12 pontos o Ypiranga é o 6º na tabela, com dois jogos a menos que os dois primeiros colocados, e três menos, que os demais três melhor colocados.

O Ypiranga tem melhorado, e bastante, mas ainda tem faltado o principal no futebol - converter as chances quando elas aparecem. A razão é simples: os atacantes teoricamente mais responsáveis pelos gols, precisam não só convertê-los, mas, com eles - ganhar confiança. O meio campo encontrou uma formação e tem boas opções. Porém, no momento, o futebol do Colosso da Lagoa é para um único objetivo: lutar por uma vaga entre os oito. Depois - é uma outra competição. E sem estar entre os oito, nem adianta sonhar com essa outra competição. E pode ficar entre os oito? - Sim, pode. Tem jogado para tanto, tem grupo para isso e tem comando para isso.


 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Inteligência Artificial & "Burrice Artificial"!?

 

Dedo de Deus - Fonte/Internet


A Inteligência Artificial (IA) está aí.

Fruto do desenvolvimento da inteligência do homem é o último grito em termos de avanços tecnológicos.

Há milhões de anos, uma família teve várias filhas: provavelmente Ignorância veio antes. Faltava-lhe o conhecimento. A seguir nasceu Inteligência. Descobriu a utilidade do fogo, inventou a comunicação. Depois seguiu-se Insensatez. E finalmente vieram Burrice e a seguir - Burrice de Caso Pensado. Milhões de anos depois eis que nasce da mesma raiz a Inteligência Artificial. Moderna, já é conhecida só pelas iniciais - IA. Uma hora dessas vai aparecer tatuada. 

Todas de genética igual - mas únicas mesmo irmãs, seguiram pelo exercício das suas características próprias explicitando ao longo dos tempos cada qual, seu caráter. 

Para quem olha do alto de modo mais superficial, vê em Inteligência e Burrice, irmãs gêmeas; porquanto salta aos olhos suas infindáveis diferenças nesta vida, apesar de irmãs gestadas do mesmo "útero". De tão diferentes relacionam-nas de gêmeas opostas, lembrando não obstante, que nessa relação, Burrice é a segunda delas. 

Pensando bem, nessa família, há o Dedo de Deus.

De outra sorte, tudo que é novo hoje será superado em breve ou um dia, na vida de cada uma delas. Porém, suas personalidades não devem mudar, graças ao pai/homem que ainda teima em andar com as filhas, atento para que não se desviem se suas missões. 

A (IA) está na indústria, na área financeira, na criação de produtos e serviços, na economia de tempo, na conquista do espaço, na medicina então...  no processamento da linguagem, no cinema, no agronegócio, em análise de genética, anda até identificando suspeitos e criminosos nas grandes cidades, aumento da produtividade, novos modelos e condução de veículos, execução de tarefas básicas do cidadão no dia a dia. Interage no mundo computadorizado, na robótica. Está ou é a própria - Internet, Google, Facebook, WhatsApp.

Agora, quem observa o mundo com cabeça de humano comum, tem andado no mínimo nesses últimos anos de cabelo em pé sobre a rotina diária dos informes via imprensa e mídias mundo afora. Incrédulos com a (IA) e com sua irmã bem mais nova (Burrice).

Sempre houve guerras, conflitos, mas que razões movem algumas lideranças por atos selvagens, na promoção de chacinas contra pessoas que não conhecem, que jamais encontraram, que nunca viram? Não seriam produtos modificados ou controlados por algo oposto à Inteligência Artificial?

Sabemos que isso já foi bem pior. 

Remonta aos confins do início dos tempos. 

Por que diabos o homem pode ser tão beligerante e complacente com sua ira?  

Teria o Autor errado na fórmula ou apenas concedido livre arbítrio ao homem para ver no que dava!?

Desde que o mundo é mundo essa dualidade corre como dois trilhos rumo aos fins dos tempos, cada uma delas evoluindo, se esmerando em seu papel.  

Peguemos o Brasil.

Cantaram o hino nacional de mãos dadas e braços erguidos, quando o velho Ulysses (Guimarães) levantou a Nova Carta Magna - 1988 em Plenário. Era para ser a aurora de uma Democracia, onde a paz, as garantias, deveres e direitos sociais dariam o tom e, sobretudo, duradoura. 

Quando chegou aos seus 30 anos a Constituição Federal veria aprovada a sua 100ª emenda, segundo site do Senado Federal.

Seria apenas o nosso jeito de ser e fazer - ou ação de uma das irmãs?  

Há décadas se fala que a saída para um Brasil melhor é a escola. Acabar com o analfabetismo, desenvolver a educação assim como se tivéssemos olhos repuxados horizontalmente e a inteligência real; que alguns países asiáticos ensinam. Que nada. 

Desconsiderando os 523 anos passados, acumulamos três Uruguais que não sabem ler nem escrever. 

Outros quase três Uruguais de brasileiros entre 15 anos e 29 anos que não estudam e nem trabalham., segundo IBGE 2022.

E isto – sob diferentes modelos, partidos e ideologias que se revezaram na governança do país. 

Seríamos um povo escolhido para vítima preferida da "Burrice"? -lembrando ela como a irmã mais nova da Inteligência e bem mais velha da Inteligência Artificial! As três com o único propósito de dar o melhor de si, porém sempre apegadas. 

Ou tudo não passa de ação da outra integrante da família a "Burrice de Caso Pensado"!

Quando o assunto é linha de pobreza somos 2º do rancking no G20. 

Conforme a Agência Brasil, em 2023, os 10% da população brasileira com maiores rendimentos per capita tiveram renda 14,4 vezes superior a dos 40% da população com menores rendimentos. 

E pasmem – do que a “ a ignorância de caso pensado ou a burrice artificial” (só pode ser uma delas) é capaz: essa diferença entre ricos e pobres é a menor, sim, a menor já registrada no Brasil.

E a seca sem fim – no nordeste? – com suas peculiaridades que todos conhecem.

E sobre as razões das enxurradas, enchentes, devastação, dos milhares de problemas e do que ainda mostrará sua cara dentro de meses e anos, o que dizer!?

E os mortos, afora os desaparecidos – foi Deus que quis assim? Choveu como nunca? – sim, choveu. Mas ambição, omissão e desconexão ao que da terra é – embaixo e acima da superfície – não avalizaram o desastre?

Erechim, que há muito tempo assiste namoros conceituais aparentemente supremos beirando confundir-se como se um astro fosse, e ao redor do qual giram os demais, pois a cidade que até alguns dias tinha dois terminais rodoviários, separados por uma rua para quem vinha por terra de qualquer parte do continente, não fica para trás. Agora, com rodoviária única, porém, observe-se, um tanto espremida. 

Apesar do fato constituir um avanço, convenhamos, pode ser algo a ser estudado quando se ouve vozes como que querendo alçar o status da cidade ao luzeiro do firmamento. No entanto, reconheça-se, este é um feito que ninguém antes havia consignado, embora as demandas de Campo Pequeno neste setor mereçam um terminal bem mais amplo e confortável, aberto dia e noite. 

Capital onde a elite voa nas suas próprias aeronaves (parabéns) e lembra na corpo do seu “campo da aviação” uma espécie de museu (em nuvem digital) a exibir e recordar assemelhados variados de transporte coletivo como Varig, Sadia, Cruzeiro do Sul e Savag na década de 1960. 

Isso permite que nos perguntemos: afinal nosso relógio coletivo parou ou anda para trás, porquanto em 1963 tivemos 119 pousos e decolagens em único mês. Média de quatro por dia incluindo fins de semana. São 61 anos - convenhamos, um bom tempo para refletir sobre o que pensamos ser e o que de fato somos.

O caso poderia inserir-se na série “De volta para o futuro”. Pois é, queiramos ou não, esta também é a Erechim - vista com olhos nus e não num Apple Vision Pro.

E a queda de braço por transbrasiliana e RS 135. 

Uma só seria uma conquista quase redentora - contudo os esforços acabam se dispersando, quando tentam sentar em duas cadeiras com um só traseiro.

Retomando a tragédia das enchentes.  Olhem o lixo nas ruas em Porto Alegre ou aqui. E as edificações que erguem sob tubulações de polegadas dos velhos tempos ou estaria enganado? E o apetite expansionista. Quem fiscaliza? Olhem a geografia de POA, de áreas urbanas mais atingidas ou o nosso próprio quintal! 

Até onde se sabe, vontade política não falta, observando-se o enrosco jurídico envolvendo contrato antigo entre município e Corsan ou ex-Corsan...

Ouço muito “nós – aqui estamos no paraíso Graças Deus...”. 

Para alguns, o mistério sobre “quem é Deus”, encontra resposta em “olhe a natureza – preste atenção nela", dando a entender neste conceito que Deus seria a própria. 

Procurem pelo Panteísmo. 

Se ela é ou não é – não sabemos, mas aceitamos a tese de que a natureza costuma não esquecer. Então - atenção.

De outra sorte vivemos numa cidade também conhecida por “Capital da Amizade”. 

É a mesma cidade onde amigos se fazem “inimigos” a ponto de não se entenderem em torno de uma liderança que a represente para tentar estar entre os 513 que decidem o tamanho da fatia no bolo tributário nacional. E assim seguimos juntando migalhas que caem de um ou outro pratinho, de vez em quando.

Diligentemente enrabichamo-nos às colunas de “Les Miserábles” interpretando a desigualdade e o sumiço do mapa político. 

Fechando os olhos à “ignorância de caso pensado ou algo como burrice artificial made in Alto Uruguai”, não seria esta uma questão de até simples solução contando os mais de 180 mil votos? 

Se é consenso que uma representação em Brasília nos abriria para um novo e promissor horizonte, onde fica nosso honorífico título de “capital da...”

Provavelmente maior empenho de quem pode fazer diferença, dedicando mais suas inteligências para assuntos que beneficiem de fato, a cidade e região, fariam o personagem Ethan Hunt, brilhantemente interpretado por Tom Cruise na saga “Missão Impossível”, conviver entre nós, como se residisse na Maurício ou na Sete, no bairro Atlântico ou nas Três Vendas, no Esperança ou nos Altos da Frinape. 

Quem sabe a Inteligência Artificial, um dia, desce sobre o astro Bota Amarela e adjacências –fazendo pousar por estas bandas tão badaladas e ironicamente tão esquecidas; uma geração com um senso nada excepcional, apenas mais realista e menos personalista. A começar pela imprensa onde me incluo.

A questão mais preocupante é o homem - pai das Inteligências,  Insensatez, de Ignorância e das Burrices. Pois, olhando para trás, nada se deve duvidar sobre suas capacidades de continuar incentivando a especialização de cada uma delas, no que é peça fundamental.

Por que do jeito que as coisas andam nestes últimos tempos, mais especificamente da Covid 19 para cá, o que mais se sabe é sobre as consequências.

Consequências de curto prazo, pois esses novos atos protagonizados pelo homem, ou com sua contribuição, se por um lado acendem novas lâmpadas em meio a escuridão e incertezas do agora, como por exemplo a descoberta da vacina contra o Covid em tempo recorde; ao mesmo tempo estão também a acender fios ainda desconhecidos sobre o que virá quando a chama correr e comer o fim do pavio.  

Por tudo isso, um arrepio pessoal neste final me assola: se a Inteligência Artificial já anda inclusive produzindo textos de qualidade, espero que este aqui, por inveja, não seja uma manifestação da segunda das gêmeas. 

O que poucos suspeitam é que ela acalenta um sonho guardado a grossos cadeados e que remonta aos tempos em que passou a descobrir a que veio. "Evoluir", avançar a ponto de um dia ser reconhecida como sua irmã milhões de anos mais nova - a IA. 

Mas vem avisando há tempos por sinais: cada uma na sua.

Inteligência Artificial de um lado, Burrice Artificial de outro.


 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Quando é preciso aprender com a vitória

 

Lucas Marques, deu equilibrio ao meio campo. Crédito: Enoc Júnior

Quando um time produz o que o Ypiranga produziu no 1º tempo contra o Figueirense, e desce para os vestiários quase levando o empate, é de se imaginar que o 2º tempo vai ser de emoções. E não foi diferente.

Apesar da superioridade física, tática e técnica que o time de Thiago Carvalho demonstrou, faltou competência na primeira etapa para encaminhar uma vitória bem mais tranquila e, na segunda, o campo muito pesado e a natural reação da equipe da capital catarinense permitiram que o contestado goleiro do gauchão – Alexander -, mostrasse porque permaneceu. Foi chamado inúmeras vezes a intervir e, em pelo menos duas oportunidades a praticar grandes defesas. A última, ao final da tarde, enganou muita gente nas cadeiras que viram o empate. Mas Alexander conseguiu evitar o que seria, em análise mais ampla, um castigo muito grande ao time erechinense.

Não gostei do Figueirense de ontem. Esperava mais – considerando sua capacidade de investimento, concluindo por evidente, a partir do tamanho da cidade onde mora. Foi um time até certo ponto previsível, desarrumado, nervoso na sua defesa, dominado no meio campo e sem jogada na frente. Sua referência técnica Camilo - bem marcado andou sumido. Além disso, estranhou o gramado do Colosso – que acusou os excessos das chuvas escondendo sob a grama – a lama. O Figueirense não vem bem na competição, mas clube de tradição que é, deve buscar uma recuperação.

Já o onze de Thiago Carvalho, que na verdade são quase 18 a 20 atletas, mostrou que não esqueceu de todo o muito bom futebol jogado antes da interrupção do campeonato. O goleiro Alexander se firma e ganha confiança no campo e na torcida,. A opção por três zagueiros de ofício na ausência de laterais esquerdos, também tem se revelado o que de mais confiável se pode fazer neste momento e, na frente, Mateus Anderson e Jhonatan Ribeiro mostram-se muito úteis ao coletivo e puxam a maioria dos ataques que o Ypiranga opta por fazer pelos lados. 

Penso que o técnico Thiago Carvalho ainda não encontrou o titular da centroavância, pois as respostas dos que ali já jogaram, não mostraram tudo que se espera de que quem transita por aquele setor. Se não surgir alguém de ofício para atender o que se espera de um nº 9 – não descartaria o técnico improvisar um dos pontas naquele setor, mexendo um pouco na configuração tática do time. Ademais, para gramados com bola mais viva – Reifit deve ser reconsiderado a ocupar titularidade porque ele exerce várias funções -, embora menos incisivo na jogada de fundo. E para não passar o drama que virou a partida de ontem - Thiago Carvalho precisará fechar mais, e bem, os lados do campo. Dos laterais esquerdos lesionados - um precisa voltar e logo porque foi por ali que O Figueirense mais encontrou espaços. O problema não é quem jogou meio improvisado - que até pode voltar para o miolo da zaga -, mas um lateral de ofício. Ou - alguém que ajude, e muito, na marcação. Praticamente o mesmo vale para o lado direito.

Uchôa, capitão abre o melhor setor do time.
Crédito; Enoc Júnior
Mas se o Ypiranga não é nem sombra daquele grupo desarrumado e, aparentemente, desmotivado time que quase foi rebaixado no gauchão – o que mudou!? As principais ascendências da equipe estão no meio campo. Uchôa é um marcador de vitalidade que cresceu demais. Não bastasse isso tem a confiança do técnico para capitanear o time. 

Alisson Tadei, a referência. Crédito: Enoc Júnior
Alisson Tadei que veio credenciado para ser o “arrumador de time”, o armador da equipe e o encarregado de ditar o ritmo - o que implica numa responsabilidade que foge ao próprio atleta – com reflexos sobre a equipe como um todo, ou quase isso; está mostrando que é do ramo, com tendência de exercer ainda melhor sua complexa função quando o campo não se apresentar tão grudento e pesado como diante do Figueirense. E, finalmente, Lucas Marques – o dono do jogo deste domingo (30/5) até ser substituído por cansaço – dá ao principal setor da equipe, o equilíbrio indispensável para que as figuras mais técnicas possam fazer o que delas se espera.

Jhonatan Ribeiro autor do gol da vitória aos 32 minutos.
Crédito: Enoc Júnior

Considerando que uma partida de futebol é a conjugação de duas variantes possíveis em um jogo – acertos e erros -, quando os acertos não são convertidos em vantagens folgadas no placar - o receio, os passados, os medos e as vacilações ganham proporções dentro das quatro linhas, exigindo, por exemplo; pelo menos um milagre de um goleiro (Alexander), enquanto que nas gerais e nas cadeiras a gélida tarde do domingo passe quase despercebida – dando lugar a um outro tipo de frio, como foi o caso dos últimos 20 minutos diante do Figueirense, quando todas as almas que estavam no estádio na torcida pelo Canarinho, só sentiram a temperatura voltar ao normal em suas barrigas, quando árbitro pediu a bola e encerrou o drama.  

A hora é favorável – mas a hora não permite, não autoriza falar estar entre os oito. A hora é de continuar buscando cada um dar o seu melhor e o técnico, com a cabeça no lugar, observar que todos são essenciais na caminhada e que ninguém ameace subir em banquinho, porquanto nas equipes vencedoras, esse equipamento não existe. Por fim – que todos reavaliem que os três pontos de ontem, aparentemente certos na tabela do Colosso olhando só os primeiros 45 minutos – por pouco, mas por muito pouco mesmo, não escaparam. 

Ou seja – foi mais um exemplo de que é preciso aprender até mesmo com a vitória.

 

sábado, 25 de maio de 2024

Quando poetas escondem belezas em labirintos

 

Nelly Todeschini Cantele

Sendo honesto comigo mesmo e com todos os demais, admito que gosto mais de prosa do que de poesia. Para alguém que ocupa uma cadeira na Academia Erechinense de Letras (AEL) pode parecer estranho – mas a minha verdade é assim. Agora, uma virtude eu reconheço. Se é preciso ter algum talento para escrever um romance ou uma obra de ficção, ou com base em fatos reais, históricos e batidos com um pouco de ficção; como deve ser o talento de quem consegue dizer em algumas linhas, na maioria das vezes, o que demandaria centenas de páginas em prosa!? Embora – reconheça em ambas, essências afins, especialmente se olharmos para os andares mais altos da literatura.

Escrever uma história compondo um livro, normalmente parte da escolha de um assunto, de um mote. Já nas primeiras páginas sinaliza um caminho que pode e deve dar suas voltas no desenvolvimento, que chamamos de enredo, até desembocar como os rios da bacia do Guaíba e da Lagoa dos Patos, deslizam para o mar incorporando-se ao oceano. No trajeto das páginas todas as emoções, desgraças e ressurreições nos impelem a não desistir para ver como tudo termina.

Por isso, para ser atraente e não ficar na evidência do tradicional “início, meio e fim” – a prosa é como um filme com sua proposta inicial (geralmente) e um seguir à frente quase uniforme, com alguns  sobressaltos, quase sem incompreensões ou questionamentos, apresentando personagens, diálogos, papéis – vez por outra atingindo um determinado pico até ali impensável, em alguns casos -, mas, como disse, invariavelmente alcançando um desfecho à proposta inicial da história.

É óbvio que há talentos capazes de oferecer histórias que nos levam a imaginação (se não toda escrita seria inútil, como uma “fé sem obras”, segundo São Paulo), mas a prosa sugere uma compreensão, na maioria das vezes mais direta e acessível também para a maior parte dos leitores. Mesmo assim, aqui temos obras classificadas como clássicos ou obras-primas. Alguém lembrará que esqueci os best-sellers (os mais vendidos), mas nem todos, desta categoria incluo nesta abordagem.

Na poesia, no meu pouco entendimento, o buraco é mais em baixo e o alcance nem sempre é para todos os comuns, fazendo-se  o reparo quase desnecessário que depende – da poesia e das poesias.  Mesmo que todos os poemas tenham uma mensagem (e o autor sempre considera que sim – tem); me é particularmente de difícil compreensão de onde seus artífices tiraram a primeira palavra, a primeira linha, a primeira frase, o primeiro verso – ou a sequência daquela arte que em alguns casos só seus “pais” têm a exata dimensão do que escrevem.

Reconheço, de novo, que temos poesias e poesias, ou seja – poetas e poetas que nos ofertam obras de clara compreensão, de rimas curiosas e bem aplaudidas. Bem fechadas e atraentes – mas o quê se passa na cabeça ou na alma daqueles poetas que iniciam uma obra, (aparentemente para nós comuns), do nada, e assim, entre alternando altos e baixos como um eletrocardiograma espelhado, como a contemplação da brisa do mar desde a areia, e num repente, na linha seguinte - assodada nos assalta e aterroriza no meio da noite com quem foi arrancado de sua cama, de sua casa – assim como aqueles pobres escolhidos pelo infortúnio  da desgraça, que se viram apanhados pelo Taquarí, pelo Jacuí vendo-se tal qual expurgo entre madeiras, cadeiras, relâmpagos, pias, vidros, pedras, telhas, trovões, toras, a desgraça em matéria - e gritos sufocados em meio a negritude da noite entre canhadas e montanhas sem fim, esquecidas; de rochas, árvores e árvores, que ao mesmo tempo em que também ajudavam a açoitar – viam-se engolidas por terrenos inconfiáveis a desabar morro abaixo em direção também ao destino de cada qual. De que é feita essa inteligência de acomodar palavras, linhas e conceitos, aparentemente a mim, estranhos - mas eu, todos sabem - não o são. 

Me reconheço amplamente analfabeto quando identifico em algumas poesias de classe, poesias de categoria superior, porém recobro quando já no outra linha algum termo me acorda do meu caos, ou seria da minha ignorância;  colocando-me acomodado em uma cadeira bem acolchoada numa varanda sorvendo um mate com o cachorro aos  pés, amarrado-solto, atento à sua quietude em companhia, enquanto num erguer de olhos miro ao longe, fundindo-se ao verde da mata fechada, uma neblina entre-cortada por bandos voando em simetria bilateral. 

Poemas profundos - verdadeiros rosários de surpresas, ora feitos aparentes armadilhas, ora nos fazendo parar e pensar na tentativa de compreender o que está ali, como disse – ora nos arrastando, ora nos sustentando sob asas, nos conduzindo a sentir as labaredas do inferno para logo a seguir nos descortinar defronte à imaginação e sensações paradisíacas – pois, de onde os poetas maiores tiram, e como eles manobram com total destreza, intelectualidade e domínio a linha que costura obras tão vívidas, sobre a vida nesta vida, que não raras vezes, nos conduzem a colocar um pé noutras vidas e tão misteriosas, tão eloquentes!?

Pensando bem – palavra, linha, frase, pontuação, ideia, verso - não constituem feitos ao acaso. São filhas e filhos de mentes privilegiadas, superiores, que veem e sentem o que a maioria jamais perceberia; obras de um primor gestado por talentos que deviam e devem, sempre, merecer a mais distinta consideração de quem lhes chega aos pés e de quem aos seus pés não lhes alcança – mas tem também permissão para olhar, ler, tentar decifrar, contemplar, imaginar, refletir e saborear, se não com a conclusão a que não chegou, saciar-se com o que pode imaginar com sua muito própria capacidade de entendimento.

E sob este aspecto, permito-me, destacar o nome da senhora Nelly Cantele, como, muito provavelmente nossa poetisa maior ao longo da história desta cidade. Simples como só os grandes, inteligente -dom que procura guardar para si, meiga, desapressada, ouvinte a ser seguida e uma mulher ao mesmo tempo elegante e doce - fazem da senhora Nelly um padrão inato aos notáveis, aos vitoriosos numa vida de alardes ausentes e merecedora, não saberia se de muitas palmas ou de silêncios penitenciosos em obediência à grandiosidade. Na poesia de Campo Pequeno, é, como observei, muito provavelmente (sim - pois devemos sempre respeitar as controvérsias quando se fizerem), a maior poetisa que se fez de Paiol Grande a Erechim. Quando a vejo chegando às reuniões mensais da AEL, numa sala da URI, de braços com sua filha Vivien - inseparável companheira - sinto um regozijo de sabê-la bem; e por poder estar na mesma sala por alguns instantes. Nas reuniões enquanto no geral falo demais para dizer de menos - a poetisa só observa, imaginando quem sabe - "ah moço - quanto desperdício, quanta  superficialidade, quanta obviedade, quanto descarte...!", e aqui me refiro às minhas intervenções. Quando vejo a Nelly de braços com a Vivien surgindo à meia luz do pátio, sob vento e um guarda-chuva, desconsidero as cadeiras vazias.

A Nelly que faz da Academia Erechinense de Letras uma entidade mais encorpada, respeitada e admirada – também faz uso dos seus talentos, produzindo obras mais claras, diretas e, digamos, leves e adocicadas – dando-se vez por outra ao descanso de escritos mais sofisticados que nos sacodem em curiosidade, desfazendo teias,no buscar sobre o quê ela está mesmo querendo dizer com o que... diz! ? 

Maria Luíza

E se a Nelly Cantele permitir, colocaria ladeando-a na poesia erechinense, sua colega, a poetisa Maria Luíza Servelin Zanette, porquanto já desde tempos a magia dos seus poemas e a leveza com que os oferece, são obras quase sagradas no mundo da poesia erechinense. Também servindo, entre obras doces e de desafios, a mexer neurônios dos que insistem em resistir às primeiras chuvas nestes maios gaúchos. 

Desejo incluir aqui, com os devidos reconhecimentos pela poesia que constroem e ofertam, cada qual com seu estilo próprio de pintar o doce, o enigmático e o belo - Ana Maria Mikulski, Cleusa Masria Nehring Cappellesso, Maria Salete Mendes Jacques, Karina Albuquerque Denincol, Luiz Ademir da Rosa, Marco Antônio Scheurer de Souza, Ermindo Silva e Nesio Alves Correa - o Gildinho também como nomes que engrandecem e orgulham a AEL. 

Comecei confessando que gosto mais de prosa que de poesia. E as razões são claras para mim. Primeiro por que não tenho talento para tanto. Segundo por que não tenho a capacidade de síntese – dizer muito em poucas palavras. E terceiro por que eu não chego aos pés de quem aparentemente iniciando do nada – contempla em sua poesia o que nos faz rir e chorar, nos provoca em humilhações e exaltações, que fala de paraísos e infernos, de situações que nos emocionam, nos irritam, nos tornam maiores ou menores; as poesias de necessidades jamais satisfeitas, das impurezas, das virtudes, das circunstâncias, do passado, do impensado, do esquecido, do amor, da tristeza, da amargura, do inevitável, das intimidades inconfessas, da revolta, da felicidade, das traições, do infortúnio, da gratidão, da doença, dos profetas, da vida, dos gemidos de dores e prazeres, do outro, da mentira, da diversidade de crenças, das mídias, das águas e dos céus, dos grotões e das estrelas, das tecnologias e seus segredos ainda "insabidos", do bem e do mal, dos sonhos, dos precipícios, da miséria e da luxúria, dos abandonados, da misericórdia, das obviedades que negamos, do que é, do que parece, das celebridades, do ar que não vemos, da beleza circunspecta dos feios, de teimosias, de sentimentos de todas as ordens, da escuridão que nos esconde e nos expõe, das energias, das passarelas e seus encantos encobertos, de catetos e hipotenusas, das pedras, dos crucifixos, de balas perdidas que sempre tiram uma vida, da luz que nos ilumina e aquece, das flores e espinhos, das demandas que ignoramos, os acasos, dos ocasos, dos nossos pecados, dos espíritos, da simplicidade, dos conflitos internos e pessoais, das decepções, das incompreensões, das destruições e horrores, dos filantropos, do nascer, da caminhada e do desfecho, das casas americanas com suas janelinhas quadriculadas em madeira branca, dos casarões abandonados, do que não importa, do que está do outro lado, do porquê psicólogo, psicanalista até desistir ou trocar, da obra aqui deixada, da natureza e sua soberania, do que poderia ter feito e não o fez, dos arrependimentos, de preces de rotina, de preces da última hora, poesias de termos desconexos e empoeirados por desuso - feitos algoritmos, dos reclames e suspeições, dos cemitérios com suas noites envoltas em pavor, de paixões mui pessoais, dos que jamais deixarão de viver em nossas vidas, do que temos e vemos e do que não vemos, mas temos, da ostentação,. Poesia sobre os loucos. Sobre as loucuras. Sobre vizinhos anônimos. Sobre máquinas a inventar homens. Dos mortos sem saber de onde veio. Poesia dos afortunados sem saber o quanto e nem de onde. Da vulgarização do crime. Do controle íntimo até as intimidades. Sobre alucinógenos como felicidade. Poesia que de pouco à rápido trocará nome por número. Poesia feita por prazer que nada remói no aguardo de um retorno qualquer. Que faz porque quem é do bem. Que vem de quem sabe o talento que acolhe. Poemas claros e de fácil compreensão, contrapondo a outros de mui difícil cognição. Poesias com finais repentinos, inesperados, que remetem à primeira vista - um fio solto. deixando o leitor a perguntar "por que parou?". Lembro de "Onde os fracos não tem vez". Poemas sobre prostitutas, amantes e mães. Me fica, por fim, a desconfiança que o verdadeiro poeta opera em acalento à própria alma, brincando de modo sério de artificializar realidades. Poesia que traduz no seu compreensível e, especialmente no incompreensível a muitos – perguntas ou respostas brotadas do mais fundo de sua alma a Deus, do porquê  aqui andamos e para onde vamos. Quem sabe, na próxima linha ou no verso seguinte descubramos, desde que seu autor seja "Ele". Por que até aos mais talentosos poetas em última instância, imagino; tudo não passa de especulações e convicções pessoais - deitadas em linhas e versos bonitos,belíssimos, surpreendentes e intrigantes, fantasiados em meio a  labirintos - com o fio acreditado da saída - firmemente agarrado no ventre da alma de quem assim decidiu poetizar suas mazelas, seus prazeres, seus dons. A poesia é como a pintura. Algumas gritam sua evidência. Outras silenciam sua intrigante comunicação que pode ir do dramático ao lírico, pisando na ambiguidade, na plurissignificação - na estranheza. E, no por descobrir, eis onde reside sua beleza, seu cheiro, seu perfume.